O DIA EM QUE GUARDIOLA TRAIU A SI MESMO*

Por Editora Grande Área

Guardiola sabia que o Real Madrid se fecharia na Allianz Arena naquele 29 de abril de 2014. A vitória merengue no jogo de ida havia sido por 1 a 0, e o time de Carlo Ancelotti teria mais chances de avançar para a grande decisão da Liga dos Campeões se a sua proposta fosse cautelosa, apostando nos contra-ataques fulminantes de Bale, Benzema e Cristiano Ronaldo.

Pep, então, lembrou-se do conselho que havia recebido de Garry Kasparov, o lendário enxadrista, em um jantar durante o seu ano sabático em Nova York: "Lembre-se: você não ganhará os jogos somente por ter as peças mais adiantadas".

Naquele momento de reflexão, decidiu que jogaria no 3-4-3. Seriam três zagueiros, com os laterais na linha do meio de campo a fim de povoá-lo para se proteger bem dos contra-ataques madridistas e para dominar as ações durante os 90 minutos – e, se possível, escalando Götze como centroavante, que com a sua tendência de recuar para apoiar os armadores faria do Bayern um time ainda mais absoluto no meio de campo.

"Dome, não me deixe mudar de opinião", disse Guardiola, referindo-se a Domènec Torrent, um de seus auxiliares. "Tem que ser assim".

Mas no avião de volta a Munique ele começou a pensar diferente. Considerou que só haviam treinado a defesa com três zagueiros uma ou outra vez, e que não havia tempo hábil para prepará-la da maneira ideal para o segundo confronto. O 4-2-3-1 que lhe dera bons resultados na Bundesliga ganhava cada vez mais força em seus pensamentos como a tática confiável, e o 3-4-3 se tornava uma opção cada vez mais prematura, que só deveria ser aprimorada na temporada seguinte.

Tudo viria a piorar na semana do duelo derradeiro, quando Pep deixou-se influenciar pelo ambiente de revanche que se instaurou em Munique. Os jogadores estavam muito animados, e quando perguntados sobre o que sentiam só souberam falar sobre o espírito alemão para as viradas, pediram a ele para que os escalasse para "jogar com o coração", para partir com tudo e atacar ferozmente desde o primeiro minuto. A análise tática do confronto e das possibilidades do Bayern deu lugar a um clima de virada épica. Assim, o 4-2-3-1 (que já era uma ideia distante daquela que Guardiola havia concluído ser a ideal para a partida) logo transformou-se em um 4-2-4.

Entre a paciência e a paixão, Pep acabou se inclinando para a paixão. E se deu mal. Muito mal.

Embora a Allianz Arena fervesse como um caldeirão, reunindo as condições ideais para uma virada com torcedores animados e jogadores motivados, a precisão cirúrgica dos visitantes estufou as redes de Neuer em três ocasiões somente no primeiro tempo, com o quarto gol saindo já nos minutos finais do segundo. O primeiro lance foi sintomático: o árbitro apitou, o Real Madrid recuou a bola para começar uma troca de passes e Mandzukic e Müller partiram como loucos perseguindo a bola. Era um gesto de coragem e ambição, mas também uma indicação de que o meio de campo iria ficar vazio a noite toda. O Bayern atuou acelerado do início ao fim, e os comandados por Ancelotti mostraram que uma coisa é ter a bola, mas outra, bem diferente, é ser capaz de controlar o jogo.

Tempos antes, Pep havia sido contundente: "Nós dominamos os jogos quando reunimos os bons por dentro. E, se eu perder, dá no mesmo. Irei feliz para casa, porque terei jogado da forma em que acredito". No entanto, no dia mais importante de sua primeira temporada sob o comando do Bayern de Munique, Pep traiu a si mesmo. Não jogou como acreditava que devia fazer nem tentou construir o jogo que considera imprescindível para avançar e ganhar. Desobedeceu não apenas o que acredita, mas também tudo aquilo que vinha sendo semeado ao longo da temporada.

"Eu me equivoquei, cara. Me equivoquei por completo. Passei toda a temporada me negando a usar um 4-2-4, todo o ano resistindo, e usei logo no dia mais importante. Que cagada! Foi uma grande cagada. A pior cagada que eu já fiz como técnico". Na mesma semana do desastre, a sentença foi dada: "Já foi. Acabou. De agora em diante, se é para errar, que seja com as minhas ideias".

*Esta e tantas outras histórias imperdíveis estão contadas no livro “Guardiola Confidencial”, de Martí Perarnau, publicado no Brasil pela Editora Grande Área. Para mais informações, clique aqui.

AS DIFICULDADES DE GUARDIOLA EM SUA ADAPTAÇÃO NO CITY

Por Alberto Egea*

Como se tivesse nostalgia de seu futuro, Guardiola não deixou de repetir desde o início de sua carreira que o grande desafio de um treinador é o fato de não ter tempo. Pep o valorizava mais do que ninguém quando ele mesmo era quem menos o necessitava, e agora, um momento em que precisa dele mais do que nunca, sofre com a sua ausência de um jeito que ele jamais imaginou que aconteceria.

Em 2008, quando assumiu o Barça, Guardiola tinha em sua cabeça o jogo de posição que aprendeu desde jovem. Como o futebol é jogado por humanos e não por peças de xadrez, precisava de um núcleo de jogadores com talento para colocá-lo em prática e rodeá-los por outros com potencial para aprendê-lo. Este pequeno grupo de jogadores que formavam a espinha dorsal culé – Victor Valdés, Puyol, Piqué, Xavi, Iniesta e Messi, além do novato Busquets que subia do Barça B junto com o técnico – tinha a técnica individual e o conhecimento tático necessários por terem passado por La Masía e já estarem há vários anos no clube, de modo que o tempo reservado à equipe se reduziria a aperfeiçoar a maioria dos jogadores. Isso acelerava o processo de construção do jogo coletivo, dava a Pep a oportunidade de ser competitivo desde o início e dar sequência ao seu crescimento envolto sobre o manto protetor das vitórias, que tem como consequência a interiorização inconsciente de que o que está sendo feito realmente serve – algo que, além de fortalecer os vínculos internos do grupo, também potencializa em campo a valentia para se atrever a jogar em um estilo que exige passes em zonas de alto risco, jogar a 50 metros de sua própria meta ou vencer o "tic espontâneo", produto do medo, de dar um passo atrás quando se perde a bola. Guardiola deu a seus jogadores uma ideia que eles próprios já conheciam, e lhes desenhou rotas táticas impossíveis de serem compreendidas pelos demais com base no conhecimento existente até aquele momento, jogando seus adversários contra as cordas e reservando a vulnerabilidade de sua equipe a essa parte mágica de sorte ou azar que existe no futebol. Se o futebol não tivesse formatos de competições que transformam qualquer projeto em algo excessivamente frágil – por exemplo, se houvesse uma Liga dos Campeões com duelos decididos em séries de sete partidas, como acontece na NBA –, o incontrolável teria bem mais dificuldades para interferir no destino daquela equipe.

Dominar a esquizofrênica Premier League com o monopólio da bola, controlando as partidas a partir da posse, era um desafio de proporções inimagináveis. Quando Mourinho iniciou a sua segunda etapa no Chelsea, no verão europeu de 2013, o campeão vigente – o último Manchester United de Ferguson – havia conquistado o título com folga, planejando cada rodada como um duelo de trocas de golpes – não à toa venceu nove jogos em que levou dois ou mais gols. Desde então, o melhor time da liga inglesa, com um escudo ou outro, com um treinador ou outro, ganhando ou não o campeonato, sempre coincidiu nos mesmos pontos fortes: um bloco ordenado e sólido que não precisa de posse de bola para dominar os jogos; um meio-campista defensivo com absurda qualidade nas roubadas de bola, confiança nos passes de segurança e capacidade física que lhe permite dominar as transições defensivas ou ofensivas (Matic primeiro, Kanté depois); um meia ofensivo de qualidade tão excepcional a ponto de sozinho gerar ocasiões de gol (Hazard, Mahrez), tornando possível a manutenção de uma dupla de volantes mais sólida; e um atacante autossuficiente, capaz de decidir encontros a qualquer momento (Diego Costa, Vardy) – a ausência deste camisa 9 na primeira temporada de Mourinho em sua volta ao Chelsea lhe custou a Premier League, mas os triunfos nos quatro confrontos diretos já haviam deixado que era esse o caminho mais correto a seguir.

Neste contexto, instaurar o futebol de Guardiola com um elenco que não o conhece e em um clube acostumado a não corresponder às expectativas de sua torcida é um objetivo impossível de ser alcançado sem paciência. Certa vez Thierry Henry disse que, como ponta esquerda de Guardiola, teve enormes dificuldades para entender que o ataque posicional lhe obrigava a ficar o mais aberto possível, muitas vezes renunciando a participar da construção de jogo com a bola, para que os gênios que povoavam a faixa central pudessem ter mais espaço para se associar ou conduzir a bola (para assistir a esta verdadeira aula sobre o Barça de Guardiola no YouTube, CLIQUE AQUI). O que para Pedro era uma realidade em cada treinamento desde os seus 17 anos, algo que facilitava a rápida adaptação de jovens como ele quando chegava o momento de subir para o time principal, para uma estrela mundial consagrada era bem mais difícil. Acomodar três ou quatro jogadores que desconhecem este tipo de futebol em uma equipe que já funciona com sete ou oito jogadores que não precisam dos ensinamentos mais básicos sobre esses conceitos de jogo era, sem dúvidas, muito mais fácil e menos demorado do que criar hábitos e inculcar noções deste estilo em um plantel inteiro. Para Henry ou Abidal era uma questão de se integrar em um clube que já tinha vida própria, que conhecia as leis a serem aplicadas, que falava o mesmo idioma e que reunia vários exemplos de jogadores com os quais se poderia aprender por imitação. Em Manchester esse ecossistema não existe, as leis desta ideia têm de ser ensinadas a todos e a subida de nível do jogo coletivo está condicionada ao sucesso do processo de aprendizados e encaixes.

No Bayern de Munique, os jogadores da seleção alemã já tinham uma leve proximidade a este futebol, o calendário oxigenava o processo – em sua última temporada, Guardiola disputou apenas 53 jogos, mesmo chegando nas semifinais da Liga dos Campeões e na decisão da Copa da Alemanha – e a superioridade bávara na competição facilitava a aquisição do hábito de vencer. Por sua vez, treinar o Manchester City significa renunciar à maioria das certezas que lhe acompanharam ao longo dos últimos oito anos. O treinador catalão, que havia dito "não" voluntariamente quando poderia seguir treinando Messi ou dominando o cenário alemão, aceitou se despir como treinador para seguir melhorando o seu traje de lenda deste esporte. Decidiu aventurar-se numa época em que o treinador de elite só tem tempo para treinar, construir em cima das dúvidas e da depressão própria de cada derrota, convencendo seus futebolistas, inclusive nos momentos mais dolorosos, que nenhum atalho é bom para se chegar ao objetivo final, embora as falhas individuais na saída de bola sejam naturais. E tudo isso ao mesmo tempo em que tenta compreender o futebol inglês.

A corrente de opinião que põe em evidência um juízo sobre a sua continuidade em Manchester realça a sua enorme conquista nos últimos anos: em um circo atropelado pelo imediatismo, em que o torcedor não entende de processos e o jornalista precisa colocar e retirar etiquetas para ter razão de forma atualizada, Guardiola ganhou o direito de viver em uma realidade utópica em que o dono do clube lhe dá o tempo necessário e a torcida o respalda. No final das contas, a esperança de ver sua equipe funcionar com o seu próprio escudo no peito sempre foi exagerada.

*Esta análise foi originalmente publicada em espanhol no site de Martí Perarnau, autor de "Guardiola Confidencial", lançado em julho de 2015, e "Pep Guardiola - A evolução", que será lançado dentro de poucos meses

AFINAL, ANCELOTTI VAI DAR CERTO NO BAYERN?

Por Gerd Wenzel

Há controvérsias.

Carlo Ancelotti é o tipo de pessoa que a gente tem a tendência natural de querer bem.  Sempre aparentando tranquilidade, jeitão bonachão, dificilmente se abala. Ficar gritando com os jogadores, então, dando instruções a esmo o tempo todo, nem pensar. Adora um bom papo descontraído, saboreando ao mesmo tempo um vinho tinto, preferencialmente da Toscana.

Um dos exemplos clássicos de sua fleuma foi visto na partida em que os bávaros perderam para os auri-negros de Dortmund por 1 a 0: na maior parte do tempo ele estava lá parado, em pé, tal qual uma coluna impávida à beira do campo, com seus sapatos de brilho impecável. Não se abalou com o revés.

Quatro dias depois veio a derrota para o Rostov por 3 a 2, pela Champions League, e nos Biergarten de Munique começaram a se ouvir as primeiras cornetas: “Será que contratamos o homem certo?".

Nos últimos anos, o Bayern passou por diversas experiências com vários técnicos diferentes: o motivador Jürgen Klinsmann, o vaidoso Louis van Gaal, o perfeccionista Pep Guardiola. Mas, verdade seja dita, os técnicos que melhor funcionaram no Bayern Munique e melhor incorporaram no seu trabalho a cultura do Bayern foram Ottmar Hitzfeld e Jupp Heynckes, com quem os bávaros venceram seus dois últimos títulos da Champions League.

No que diz respeito aos seus métodos, Ancelotti até se parece um pouco com estes dois: venceu três títulos na Champions e prefere organizar o jogo de sua equipe a partir de uma defesa bem estruturada.

“Futebol não é para visionários. A beleza do futebol está na sua simplicidade”, afirma Ancelotti, que surpreendentemente vai mais longe: "Tática é muito importante, mas não é o mais importante. Eu sei como conquistar a Champions League".

Ancelotti não dá valor ao futebol espetáculo. O negócio dele é obter vitórias, não importa como. Jogadores comandados pelo técnico italiano não precisam estar o tempo todo com a posse da bola e ficar trocando passes à frente da grande área adversária tal qual um time de handebol. Podem e devem recuar vez por outra, aguardando apenas a oportunidade para um contra-ataque letal.

Os críticos do seu trabalho afirmam que ele é muito condescendente com os jogadores, amigo demais dos atletas. Pode até ser: nenhum dos seus ex-jogadores fala mal dele, pelo contrário. A começar por Cristiano Ronaldo, que o adora pelo fato de Ancelotti não tê-lo aprisionado num esquema tático, deixando-o à vontade para jogar. O resultado é conhecido.

Quem está por dentro do ambiente interno do Bayern Munique afirma que Carlo tem um masterplan cujo objetivo é deixar o time no ponto certo em abril, quando começam os jogos decisivos da Champions League, mais especificamente as quartas de finais.

Sempre é bom não esquecer que sob o comando de Guardiola o Bayern dava show de bola no inverno antes do Natal e, quando chegava a primavera, em março, o time parecia esgotado. Resultado: foi eliminado nas semifinais da Champions por três anos consecutivos.

Enquanto a Champions só volta em fevereiro, neste fim de semana será disputada a 17ª rodada da Bundesliga, em que o Bayern Munique poderá se tornar campeão do primeiro turno pela 22ª vez em sua história.  Para tanto, basta empatar com o Freiburg em jogo que será transmitido pela ESPN Brasil nesta sexta-feira, dia 20, a partir das 17h20.

Detalhe: nas 21 vezes anteriores em que conquistou o título simbólico de campeão de “inverno”, acabou levantando a Salva de Prata ao final do campeonato em 18 oportunidades.

Neste caso, Carlo Ancelotti estará atingindo o seu primeiro objetivo: conquistará seu primeiro título de campeão alemão, e os jogadores poderão festejar na famosa Marienplatz de Munique o título inédito de pentacampeão verdadeiro – cinco campeonatos alemães consecutivos conquistados.

O DILEMA DO FUTEBOL DO FUTURO

Por André Rocha

Jogar com cada vez mais intensidade, concentração e rapidez, tanto na tomada de decisão quanto na execução, e ser obrigado a fazer isto em mais partidas, com menos tempo para descanso e treinamentos. Eis o grande dilema do futebol no seu mais alto nível, pensando no futuro.

FIFA e UEFA só pensam em criar e aumentar competições. Plano de ampliar o Mundial Interclubes para 16 ou 32 equipes, a Copa do Mundo com 48 seleções, a Liga das Nações com 55 países europeus. Dependendo do desempenho de clube e seleção, um jogador pode alcançar quase 90 partidas em um ano.

A ideia do "futebol líquido" trazida pelo jornalista Martí Perarnau – um futebol jogado com fluidez e num ritmo eletrizante, alternando pressão no campo de ataque, deslocamentos e passes verticais para acelerar quase o tempo todo – exige cada vez mais fisicamente e não bate com o calendário inchado para atender a interesses comerciais.

A TV quer cada vez mais jogos ao vivo. Com Youtube, redes sociais e uma geração de espectadores cada vez mais dispersa e menos fiel, é um dos únicos eventos capazes de manter alguém num mesmo canal por pelo menos 90 minutos. Por isso os contratos cada vez mais milionários.

Só que a conta não fecha. Como é difícil imaginar os clubes peitando as entidades máximas e bancando desfiliações e outras medidas mais drásticas, convém pensar em soluções mais viáveis.

A primeira delas é que os clubes invistam em superelencos. Não numerosos, mas muito qualificados. De 25 a 30 jogadores capazes de manter o nível de excelência das principais forças da Europa e do planeta.

Para não quebrar a banca, mesmo com os dribles no fair play financeiro de alguns clubes, o melhor a fazer é apostar cada vez mais nas divisões de base. Formar o talento, mesmo sem o amadurecimento da estrela, para que na ausência desta – por lesão, suspensão e, principalmente, repouso em jogos menos importantes na temporada – a qualidade técnica se mantenha.

O Barcelona não tem conseguido e na última temporada esfalfou Messi, Suárez e Neymar até o limite. Porque a reposição com Munir e Sandro Ramírez era muito mais fraca a ponto de comprometer a capacidade de competir. Já Zidane qualificou opções no Real Madrid, com Lucas Vázquez sendo o melhor exemplo.

Time forte, reservas quase no mesmo nível com exceção das grandes estrelas, mas sem criar abismos, e jovens preparados, inclusive trabalhando com proposta de jogo semelhante para que o encaixe  seja praticamente imediato. Porque o rodízio, tão criticado por aqui, será obrigação.

Outro dever dos atletas, desde a formação e com cada vez mais ênfase, é buscar a precisão técnica. Tentar tangenciar a perfeição nos fundamentos, especialmente passe e finalização.

Porque o erro na saída de bola tem custado cada vez mais caro com a pressão crescente dos adversários, muitas vezes bloqueando desde a área do rival. O time saindo, com linhas avançadas, e o equívoco gera o contragolpe mortal.

A menos que a chance seja desperdiçada. Nos 3 a 1 do Chelsea sobre o City, em Manchester, toda a discussão sobre a eficiência das variações táticas da equipe de Antonio Conte poderia ter caído por terra se Kun Agüero e Kevin De Bruyne tivessem a mesma precisão de Diego Costa, Willian e Hazard.

Porque esse jogo, por mais complexo que tenha se tornado ao longo do tempo, ainda tem como objetivo máximo o gol. Estrelas cada vez mais milionárias em partidas cada vez mais disputadas nas principais ligas não podem dar tantas chances de recuperação aos adversários.

O gol é e sempre será de ouro. Transmite confiança, no jogo em casa traz a torcida para perto e muda a atmosfera. Também deixa o oponente zonzo e permite alternar ritmos, dosar energias. Aproxima da vitória e normalmente consagra a atuação consistente.

Por isso o objetivo deve ser o erro zero, ainda que seja uma utopia e a falha individual continue sendo um dos "molhos" importantes da receita que faz este esporte ser o mais apaixonante do planeta.

Para que o futebol siga evoluindo mesmo em um cenário caótico de jogos em cima de jogos será preciso criatividade dos profissionais. Inclusive com possíveis mudanças nas regras, como a permissão para mais substituições ao longo de um jogo. Mas com qualidade equivalente. Talento e precisão. Técnica para não exaurir mentes e músculos.

Já que o show precisa continuar, que seja o melhor possível.

O ESPETACULAR RETORNO DE MARCO REUS

Por Gerd Wenzel

Pela primeira vez na atual temporada da Bundesliga, Marco Reus começou jogando no time titular no último fim de semana e só foi substituído quando o confronto já estava decidido a favor dos auri-negros contra os potros por 4 a 1. É verdade que pela quinta rodada da Champions League, há duas semanas, Reus também esteve em campo desde o início e teve uma atuação brilhante na memorável vitória sobre o Legia Varsóvia por 8 a 4. Para o torcedor do Dortmund, contudo, era mais importante vencer o xará de Gladbach do que o time polonês – mesmo porque, na Champions, o time já está nas oitavas de final.

Na Bundesliga, o esquadrão comandado por Thomas Tuchel precisa remar muito ainda para entrar diretamente na disputa pelo título. Atualmente em sexto lugar, está a nove pontos do líder RB Leipzig, de quem já perdeu logo na segunda rodada, e a seis pontos do vice-líder Bayern Munique, a quem recentemente impôs uma derrota por 1 a 0. Numa situação como essa, nada melhor do que poder contar novamente com aquele que, aos 27 anos, é considerado o melhor jogador alemão da atualidade, por seu excepcional talento e por sua capacidade de determinar sozinho o resultado de uma partida.

Reus ficou afastado dos gramados por quase 200 dias, mas voltou com tudo tanto contra o Legia Varsóvia quanto diante do Gladbach.  Na partida contra seu adversário na Bundesliga, deu três assistências da mais alta qualidade técnica: duas para Aubameyang e uma para Dembelé. Sua classe individual é indiscutível e fora de série: ritmo, objetividade, criatividade e entendimento em campo com seus colegas de trabalho fazem a diferença.

Além disso, ele joga para o time. Depois da saída de um líder como Mats Hummels, a sua liderança começou a emergir naturalmente, o que ficou claramente demonstrado nas duas partidas em que esteve em campo. E tem ainda a confiança de Thomas Tuchel, que por inúmeras vezes já se declarou um apaixonado por seu futebol: "Essa volta de Marco aos gramados é fantástica. Eu me impressiono com sua personalidade e liderança mesmo depois de tanto tempo ausente".

Durante sua longa contusão na virilha e nos adutores, Tuchel sempre apoiou seu jogador: "Marco terá todo tempo que for necessário para se recuperar plenamente". Mas, ao mesmo tempo, exercia uma suave pressão: "Sem ele no time, não vamos conseguir alcançar nossos objetivos".

Outro detalhe que ficou claro, especialmente na partida contra o Mönchengladbach, foi que a presença de Marco Reus faz do Dortmund o time com o ataque mais velez da Bundesliga – e provavelmente da Europa. O trio Aubameyang, Dembelé e Reus brilha intensamente e, com sua velocidade nas triangulações, é capaz de atropelar qualquer adversário. Não é à toa que Usain Bolt, o homem mais rápido do mundo, manifestou a vontade de treinar com a equipe auri-negra.

E há um detalhe a mais na vida do craque que pode beneficiar imensamente a caminhada do Borussia Dortmund nesta temporada: aos 27 anos de idade, Marco ainda não conquistou nenhum grande título em sua carreira. Teve a oportunidade na final da Copa da Alemanha na última temporada, quando mesmo contundido entrou em campo para levantar a taça. Mas não deu. No final, o Bayern acabou vencendo na cobrança de penalidades máximas. Além disso, novamente por contusão, não participou da Eurocopa 2016, assim como já havia acontecida antes na Copa do Mundo de 2014.

Marco Reus sabe que está mais do que na hora de levantar um título, e o seu objetivo atual é exatamente este. As próximas semanas serão de muito trabalho em busca da melhor forma técnica e física, que devem chegar no segundo turno da Bundesliga. E, se isso realmente acontecer, Bayern de Munique e RB Leipzig já podem ir colocando as suas barbas de molho, pois é bem possível que este novo Borussia Dortmund faça história já em sua primeira temporada.

O MELHOR ARQUITETO DO FUTEBOL BRASILEIRO

Por Dassler Marques

Responsável por dissecar Pep Guardiola – algo que inclusive já virou livro, publicado por esta editora com o título de Guardiola Confidencial –, o jornalista Martí Perarnau divide treinadores de futebol em dois potes: administradores e arquitetos. É importante se dar conta de como o perfil do arquiteto, na evolução recente da modalidade, cada vez mais ganha importância. Nos clubes brasileiros há poucos deles, e o principal nome parece ser Roger Machado.

A final da Copa do Brasil entre Grêmio e Atlético-MG nesta quarta-feira, dia 7, coloca Roger no centro da discussão. Há muito a se dizer sobre o principal responsável por forjar a equipe gremista, provável campeã do torneio, e também já anunciado treinador atleticano. Aquele que Tite indicou ao Corinthians para substituí-lo.

Em sua primeira experiência por grandes clubes, o ex-lateral de currículo recheado de títulos provou que pode ter uma carreira ainda maior após pendurar as chuteiras. No Grêmio, a despeito da ausência de um troféu, apresentou uma série de atributos que lhe permitem ser enquadrado na categoria de treinador arquiteto.

O principal deles, indiscutivelmente, está na afirmação de um DNA. Trata-se de formar uma equipe que pode ser facilmente identificada independente da camisa. Mesmo se jogasse de verde, de preto ou de amarelo, em vez de azul e branco, você saberia que ali estava o Grêmio do Roger. O time das trocas de passes, do jogo de aproximação, da busca por superioridade numérica em diferentes setores para construir futebol e da marcação agressiva no campo de ataque.

Em 2015, durante o Campeonato Brasileiro, Roger conseguiu estabelecer essa marca mesmo tendo recebido uma equipe dizimada pelo momento de recessão econômica do clube. Um ponto crucial para que o "arquiteto" se afirmasse foi alcançado com a evolução individual de cada atleta. Foram esses os detalhes que, associados à imposição do DNA no dia a dia, permitiram o salto do Grêmio.

O entendimento de jogo de Luan foi aperfeiçoado para realizar uma função essencial como falso nove. Walace evoluiu no senso de marcação, na disputa de bolas aéreas e na chegada ao ataque para finalizar tanto de fora quanto de dentro da área. Everton, um jogador de raro talento para o drible, cresceu no aspecto defensivo, na conclusão e na tomada de decisão, um atributo fundamental no futebol de hoje.

Pouco conhecido até então, Marcelo Hermes se tornou uma das principais figuras do primeiro semestre e jogará no Benfica. Maicon voltou a ser o jogador que encheu os olhos sob o comando de Jorginho, no Figueirense, e um dos protagonistas gremistas. Jaílson apareceu de repente, após trabalho minucioso de formação, para participar do rodízio do elenco com algumas virtudes. São apenas alguns exemplos, mas que representam bem os muitos outros que também podem ser lembrados.

Inteligente que é, Roger talvez tenha percebido quais os pontos de seu trabalho que falharam. Deve ter notado que precisa ter equipes mais seguras defensivamente, capazes de se fechar nos momentos necessários e trabalhar melhor sem a bola. Deve ter percebido o que falhou em sua estratégia de bola parada defensiva. Deve ter notado que, para ser um melhor arquiteto, precisa encontrar soluções mais inteligentes no mercado de atletas.

Em suma, Roger deve ter visto que Renato Gaúcho foi humilde e fez correções inteligentes no seu trabalho. Armou um time capaz de, momentaneamente, abrir mão de conceitos para alcançar uma grande conquista. As presenças de Ramiro e Kannemann na equipe – jogadores vulgares do ponto de vista técnico, mas com outras virtudes – simbolizam a mudança sutil.

Para o Atlético-MG, não poderia haver melhor escolha. Marcelo Oliveira, demitido recentemente, tem o claro perfil do treinador administrador do futebol brasileiro: sabe conduzir bem o vestiário, entende a mecânica política do clube, tem uma ideia de jogo sem grandes variações e dá sequência ao ritmo do clube sem produzir grandes transformações.

Hoje, com um elenco tão vasto e dificuldade de Marcelo em construir esses processos todos que o Grêmio tem automatizados, o Galo precisava é de uma identidade. Precisava de um arquiteto como Roger Machado.

O FUTEBOL LÍQUIDO

Por André Kfouri

Desde que os escoceses inventaram o passe, em 1872, a maneira como times fazem a bola se mover pelo campo é um dos mais notáveis fatores de distinção no futebol. As grandes equipes – seleções ou clubes – da história deste jogo, aquelas que demarcaram épocas de influência pela forma como jogavam, sempre se notabilizaram pela relação que mantinham com a bola, principal ferramenta de superação de adversários. Dominar a bola e o campo, de acordo com Arrigo Sacchi, é um dos requisitos para determinar a grandeza de um time.

O mais alto nível do futebol de posse encanta oponentes por intermédio da hipnose, hipérbole que não está muito longe do que de fato acontece quando um time “esconde” a bola do adversário, como disse Sir Alex Ferguson após a derrota do Manchester United para o Barcelona, na final da Liga dos Campeões de 2010/11. A circulação e os movimentos coordenados que a permitem geram impotência, desesperança, uma sensação de inferioridade que, na maioria das ocasiões, é o prenúncio da derrota.

A busca tem sido por aumentar a velocidade da troca de passes sem comprometer sua precisão, pois é necessário que jogadores avancem juntos para seguir controlando a bola e os espaços, criando fendas pelas quais se esvai a capacidade defensiva do rival. Organizar para desorganizar continua sendo uma regra de ouro, mas é provável que a vanguarda do futebol esteja se encaminhando para uma espécie de caos ordenado, ainda mais difícil de marcar, logicamente mais difícil de produzir.

O futebol dessa nova era é um jogo em que o treinamento e a noção coletiva desbravarão a intuição do jogador. É o próximo nível da automatização, em que times processarão o jogo com associações quase inconscientes. Um patamar de atuação em que a fluidez, característica perseguida por todas as equipes que pretendem ter posse e vencer como resultado de superioridade técnica, adquirirá um significado diferente. Paradoxalmente, um significado literal.

Em “Pep Guardiola – La Metamorfosis” (cuja versão em português será publicada pela Editora Grande Área no primeiro semestre de 2017), Martí Perarnau abre uma janela para a teoria desse novo futebol. Em conversa com Paco Seirul.lo, ex-preparador físico do Barcelona e atual responsável pela área de metodologia de treinamento do clube, surge o “conceito quântico” que é a base da revolução:
 

“No jogo, tentamos o quanto antes tomar a iniciativa não só porque temos a bola, mas porque criamos uma situação que é favorável a nós. A isso chamamos ‘espaços de fase’, e está definido por: onde está a bola, em que situação está, onde estão os oponentes, as distâncias que há entre a bola e os oponentes e os nossos próprios jogadores, as trajetórias de cada jogador e cada oponente e a bola, a orientação do jogo, a organização do jogo… E tudo isso constitui unicamente uma situação de jogo que dura um décimo ou dois décimos de segundo. No momento em que a bola muda de lugar, os jogadores mudam e aparece uma nova situação. E assim sucessivamente. Isto requer muitíssima complexidade e tem uma base nas teorias da termodinâmica. Quando um líquido esquenta, as partículas se movem mais e se organizam de uma determinada maneira ou de outra em função de elementos que aparecem nas características desse líquido. Você uma vez escreveu: ‘O Barça não é sólido, mas líquido’. É uma definição acertada: é líquido. Porque quando dizemos: ‘Esse time é muito sólido, é muito compacto’, na realidade ele é muito vulnerável. Os líquidos são menos vulneráveis do que os sólidos. Do sólido, pode-se conhecer tudo, inclusive seus pontos débeis. Você golpeia um ponto débil e o quebra. O líquido, não”.


Líquido…

Pense nos grandes times da história, focalizando exatamente a fluidez de movimentos que exibiam. Não faz todo o sentido imaginá-los como equipes “líquidas”? Abstraindo os mapas de calor atualmente usados para apresentar de maneira ilustrada as tendências de um time em relação a ocupação de espaço, trajetórias da bola, região de atuação de cada jogador… não é possível notar manchas que revelam o comportamento dos movimentos dessa equipe, como se ela se separasse e se fundisse novamente?

Agora volte às palavras de Seirul.lo: “Quando um líquido (time) esquenta, as partículas (jogadores) se movem mais e se organizam de uma determinada maneira ou de outra em função de elementos que aparecem nas características desse líquido (time)”. Ele está falando sobre uma equipe de futebol que se movimenta e troca passes a uma velocidade tão superior, assumindo formatos tão diferentes a cada associação, que o oponente não é capaz de acompanhar. Uma equipe que se liquidifica.

É lógico perceber que o Barcelona está seriamente envolvido no desenvolvimento dessa forma de jogar, e que Pep Guardiola, que tem Seirul.lo como um de seus mentores, também trabalha na evolução do jogo de posição no Manchester City. Mas é difícil identificar com precisão em que estágio se encontram, uma vez que o time catalão se afastou um pouco de sua identidade coletiva, e o inglês engatinha na aprendizagem. Não se deve ignorar a capacidade dos alemães.

Com auxílio de programas de computador que detectam padrões de movimentação de jogadores para solucionar problemas, a seleção alemã tem tentado encurtar a distância tecnológica do futebol para outros esportes, como a NBA e a NFL. Um dos objetivos do técnico Joachim Löw é diminuir ao máximo o tempo de posse de bola de cada jogador, consequentemente elevando o ritmo de circulação ao construir movimentos com interações mais rápidas.

Sob o comando de Thomas Tuchel, o Borussia Dortmund se caracteriza pela clara intenção de intensificar a troca de passes com aceleração vertiginosa. Tuchel, discípulo de Guardiola, é um proponente do aprendizado por intuição. Os treinamentos do Dortmund procuram submeter jogadores a dificuldades maiores do que as encontradas em competição, de forma a condicioná-los a novos métodos e acostumá-los a resolver situações de jogo sem pensar.

E o Liverpool, não por coincidência treinado por um técnico alemão, Jürgen Klopp, talvez seja o time que mais se aproxima do esboço desse futebol organizadamente caótico que o futuro nos reserva. Klopp caminha para abolir as funções formais de cada jogador em nome das interações necessárias para que o time opere, no sentido coletivo, da maneira menos previsível possível. Seu Liverpool ataca quase sem freios e recupera a bola com ferocidade.

Além dos conceitos avançados e de sua aplicação em treinamentos que devem acompanhar a necessidade de novos objetivos, uma das fronteiras do jogo do futuro é a questão física. O nível de exigência para que jogadores sejam capazes de “liquidificar” times é brutal. Talvez seja por isso que técnicos como Guardiola, Klopp, Tuchel e Antonio Conte sejam obsessivos com a preparação nutricional e o descanso de seus atletas. O futebol líquido exigirá máquinas para processá-lo.

 

TITE E A POESIA DO BEM FEITO

Por André Rocha

César Luís Menotti, campeão mundial com a Argentina em 1978, comparou a equipe que venceu a Argentina de Messi ao lendário Brasil de 1970. Em seu site oficial, a Fifa afirmou que “a poesia superou o pragmatismo”.

Talvez o próprio Tite ache tudo muito exagerado nos elogios à Seleção Brasileira. Mesmo exaltando a beleza de 1970 e 1982, respeita o não espetáculo de 1994. Porque assim como qualquer competidor nato quer vencer.

A diferença está no capricho, na vontade de fazer bem feito. Sempre melhor. Por isso, mesmo multicampeão, foi humilde para reconhecer que precisava estudar para aprimorar seu trabalho e partiu para um ano sabático em 2014. Ou ao menos seis meses, já que esperava o convite da CBF depois do Mundial no Brasil, que pareceu ainda mais óbvio depois dos 7 a 1.

O convite não veio, e Tite seguiu se preparando para construir o Corinthians campeão brasileiro que foi aprimorando a execução do 4-1-4-1 até voar no fim da temporada. Porque até nos momentos mais complicados, de vitórias e derrotas sofridas, o discurso sempre é de aprimoramento. Vencer sendo o melhor. Ou evoluir dia a dia. Dentro e fora de campo. Nos treinos e no trato com as pessoas.

Sem a rotina do clube na CBF, o técnico criou uma maneira de ter contato com os seus comandados mesmo à distância. Trabalho obsessivo da comissão técnica falando com treinadores e trocando informações com os convocados. Tite dá expediente de oito horas diárias observando, analisando, planejando. Pensando futebol.

Talvez seus antecessores fizessem o mesmo. A diferença está na qualidade e na atualidade do conteúdo. É possível ler nas entrelinhas das declarações dos jogadores um alívio de agora encontrar na Seleção algo próximo do que vivem nos principais clubes da Europa e do planeta em termos de conceitos e metodologia.

Acrescentando o toque que faltava ao time canarinho e ao próprio Tite nos trabalhos até 2013: criatividade. O modelo de jogo é definido e organizado, mas não engessado. Coutinho sai da direita, Neymar foge da esquerda, Renato Augusto e Paulinho trocam de função se necessário, Gabriel Jesus circula por todo o ataque. Todos se procuram para tabelas, triangulações. O drible é estimulado.

O Brasil quer jogar para vencer. Não entregar apenas o resultado, como era a obsessão de Dunga e o que vemos em nossos campos. A absurda tese de que um futebol mal jogado corre menos riscos. Não é por acaso esse jogo ansioso, que quer ter o controle sobre tudo para garantir os três pontos.

Não saindo da seleção, é preocupante ouvir da nova técnica do futebol feminino, Emily Lima, em entrevista ao Globoesporte.com, dizer que admira a técnica da Suécia, Pia Sundhage, porque ela não quis jogar e eliminou o Brasil nas Olimpíadas. A “estratégia” do não jogar não pode ser o que se espera do país cinco vezes campeão mundial.

Como se o esporte não fosse apaixonante exatamente porque o resultado final muitas vezes é definido por uma bola rebatida que bate nas costas do goleiro e entra ou uma jogada bem trabalhada que termina na trave e não cruza a linha fatal.

Por isso o melhor a fazer é entregar tudo em treinos e jogos. Não só em fibra, vontade, mas também em excelência. Perfeccionismo na preparação e na disputa para o resultado positivo ser mera consequência. Ou ao menos a razão para dormir com a consciência tranquila.

Talvez o Brasil de Tite não mantenha os 100% de aproveitamento contra o Peru em Lima. Pode ser até que perca a invencibilidade. Ou não vença o Uruguai em Montevidéu, não termine líder das Eliminatórias. Talvez não conquiste a Copa do Mundo em 2018 na Rússia.

Mas é um alento e uma inspiração a certeza de que a Seleção fará o melhor possível. Desde a comissão técnica e seu líder até os jogadores estimulados por tanto trabalho e sede da evolução. Mas sem a pressão além da que já existe pelo peso de camisa tão vencedora. Com leveza e humanidade.

Tangenciando a perfeição que nunca vem, mas só torna a busca mais prazerosa. Mais bela. Eis a poesia do bem feito.

O "JOGAR BEM" E O FUTEBOL POBRE

Por Rafael Oliveira

O assunto do momento é o nível do futebol apresentado na reta final do Campeonato Brasileiro. Não apenas pela sequência recente do líder Palmeiras, mas também por outras transformações que podem ser observadas pelo mundo.

Em primeiro lugar, "jogar bem" é um conceito extremamente subjetivo. Partindo do princípio de que diferentes estratégias são legítimas, jogar bem seria executar o que se propõe a fazer. Uma confusão constante é a do “jogar bonito”, algo que também tem seu caráter de subjetividade e é ainda mais difícil de alcançar no equilibrado futebol atual – um time defensivo pode empolgar quando encaixa bons contra-ataques, por exemplo.

Portanto, se jogar bem é subjetivo e jogar bonito é circunstancial, talvez o ponto principal a ser discutido seja se o futebol apresentado é pobre ou não. Pobre de ideias, de conceitos. Padrões que mostrem os detalhes, treinamentos e mecanismos que sustentam a proposta daquela equipe. O que ela pretende? Como quer ser superior nos 90 minutos?

O primeiro passo é identificar tudo isso com o desafio de desprender, na medida do possível, as ideias dos resultados. A irregularidade do futebol brasileiro é uma grande armadilha. Quase todos oscilam e é fácil colocar tudo no mesmo pacote. Para falar de ideias, é fundamental falar de técnicos. Eles não ganham ou perdem cada jogo, mas não há dúvidas sobre a influência dos trabalhos no produto final. Basta observar casos recentes: os mesmos jogadores, questionados e rotulados como limitados há semanas ou meses, fazem hoje de Liverpool e Chelsea dois dos times mais interessantes da Inglaterra.

No Liverpool, uma pré-temporada completa ajudou Jürgen Klopp a implementar seu estilo agressivo de muita movimentação e intensidade. No Chelsea, a mudança tática de Antonio Conte fez o clube superar uma pesada derrota para o rival Arsenal e encaixar cinco vitórias sem ser vazado. Com maior organização defensiva e muita força nas transições ofensivas, virou outro time. Em comum? O crescimento coletivo que potencializa individualidades como Philippe Coutinho e Hazard, dois dos melhores da Premier League até o momento.

Existe uma tendência natural de querer definir individualmente as peças em função do resultado. Assim, se o time não funciona, o grupo de jogadores não serve. E quantas vezes um curto espaço de tempo prova o contrário? Equipes se modificam, jogadores crescem ou caem, e as impressões mudam radicalmente. A melhor frase para definir é: "No futebol, o todo não é a mesma coisa que a soma das partes". E aqui vale citar a Universidade do Futebol como ambiente que promove esse tipo de debate com a devida profundidade – e que a própria imprensa carece muitas vezes. São inúmeros fatores internos e externos que influenciam.

A semana de Brasil x Argentina, o jogo mais aguardado das eliminatórias sul-americanas, é um bom momento para o debate. Há poucos meses, seria o duelo da "geração ruim" contra "o ataque mais bem servido entre seleções". Hoje, a classificação mostra o contrário. Mas não nos prendamos aos resultados e rótulos, e sim às transformações e ao desempenho.

Tite não fez mudanças radicais no elenco ou no sistema de jogo, e sim no funcionamento coletivo. As ideias e mecanismos. Surpreende a velocidade com que isso foi colocado em prática em um trabalho que não permite os treinamentos diários e contínuos. Mas o conteúdo faz diferença na soma das partes e, hoje, aquele discurso de contestar toda uma geração se mostra totalmente vazio.

Na Argentina, o caminho tem sido oposto e preocupante. Atuações recentes mostram uma pobreza coletiva incompatível com a qualidade que o elenco reúne. É o desafio para Bauza, um treinador com currículo vencedor, mas que poucas vezes buscou um jogo mais elaborado nas equipes que passou. Uma seleção de alto nível pede mais, mesmo que as principais cabeças do país estejam em clubes europeus. Para citar apenas um nome, basta ver o impacto de Sampaoli na seleção chilena e já no Sevilla.

Como não há fórmula exata no futebol, é óbvio que a Argentina pode superar o Brasil. A capacidade individual ainda decide muitas partidas. E em alguns casos, mesmo com um nível distante do ideal, pode levar longe. Um exemplo, voltando ao Brasileirão, é o Atlético-MG de Robinho, Fred e um ótimo elenco que coletivamente nunca atingiu o patamar que se esperava. Um exemplo mundial é o ano do Real Madrid com Zidane. Nunca empolgou ou convenceu, mesmo com título da Champions League e com a atual invencibilidade que mascara inúmeros problemas. Parece loucura, mas a análise do jogo muitas vezes leva a um discurso oposto aos resultados. Faz parte e não desmerece quem conquista as vitórias e títulos. São questionamentos saudáveis, desde que entendidos e vistos sem perseguições, fanatismo ou clubismo.

A visão de futebol no Brasil, em geral, mostra um caminho diferente. Primeiro uma equipe obtém o resultado e depois, a partir dele, busca-se o mérito ou ponto a ser destacado. O desafio é identificar as ideias apresentadas para se chegar até o resultado, mesmo que ele eventualmente não venha. Talvez o grande exemplo do Brasileirão seja o Santos de Dorival Júnior. O time coletivamente mais rico em ideias de jogo e que não deveria precisar entrar na briga por título para ser valorizado. Até porque tem elenco inferior aos três adversários no topo da tabela.

Não, o Santos não joga bem toda semana. Também não tem um futebol sempre bonito e nem escapa da irregularidade. Mas, mesmo na fase ruim ou nos tropeços, é possível enxergar certos padrões. Ideias que nem sempre são executadas com sucesso, mas estão lá. Sobre o Palmeiras, provável campeão, o melhor futebol ficou no primeiro turno, mas a solidez defensiva e o repertório nas bolas paradas garantem um invejável aproveitamento na segunda metade da competição. É pouco? Analisando o nível dos jogos com mais rigor e cobrando iniciativa para construir a partir da posse, talvez sim. O que não tira a competência ou os méritos pelos resultados alcançados.

Questionar o nível do futebol jogado pelo líder do Brasileirão é legítimo. E vai além do Palmeiras, serve para o todo. Os últimos anos mostram mais times capazes de se organizar defensivamente no Brasil, ainda que pouco se debata sobre os modelos de marcação, por exemplo. Agora falta mais gente jogando bola para superar isso com qualidade. Com mais ideias e mais jogo coletivo, até para potencializar e não só depender do talento individual que existe nos principais elencos.

 

RB LEIPZIG: ODIADO, INVEJADO OU O QUÊ?

Por Gerd Wenzel

O Red Bull Leipzig, em sete anos, conseguiu subir da quinta para a primeira divisão – não é pouca coisa. E este salto espantoso, é bom que se diga, não é nenhuma novidade no futebol alemão. Algo parecido aconteceu com o Hoffenheim, que em 2000 também estava na quinta divisão e após oito anos, em 2008, chegou à Bundesliga.

Leipzig e Hoffenheim têm algo em comum que espanta e horroriza os tradicionalistas: é o aporte de recursos financeiros, seja por um mecenas ou seja por uma empresa.

No caso do Hoffenheim foi o empresário Dietmar Hopp, fundador da empresa SAP e de acordo com a Revista Forbes, um dos homens mais ricos do mundo que quis realizar o sonho de criança de construir um estádio para o clube do seu coração – injetou 100 milhões de Euros no Hoffenheim com os resultados conhecidos.

No caso do Leipzig, trata-se de um projeto futebolístico com pé e cabeça apoiado ostensivamente pela empresa austríaca Red Bull que, diga-se de passagem, também patrocina uma equipe de Fórmula 1. O projeto esportivo propriamente dito é encabeçado por Ralf Rangnick que, coincidência ou não, foi técnico do Hoffenheim de 2006 a 2011.

Em algumas mídias de menor porte e, especialmente nas redes sociais, circula a opinião de que o RB Leipzig seria o clube "mais odiado da Alemanha", opinião essa baseada principalmente em ações isoladas de algumas torcidas organizadas de clubes da segundona como Erzgebirge Aue, Union Berlin, Karlsruher e Dynamo Dresden.

No que consistiam estas ações "odientas"? Basicamente em cancelamento de jogos amistosos com o Leipzig por pressão das torcidas organizadas dos clubes citados que enviavam cartas de protesto às suas respectivas diretorias.

Além disso, parte da torcida do Union Berlin, por exemplo, antes de um jogo oficial na segundona, iniciou uma campanha com faixas e banners erguidos durante a partida com os dizeres "Red Bull não!", além de se vestir de preto em sinal de "luto pela morte da tradição no futebol".

Na partida em Aue, os torcedores do RB Leipzig foram insultados e comparados a nazistas (!) por meio de alusões xenófobas à origem austríaca da empresa Red Bull.

Em Heidenheim, o ônibus do clube foi alvo de uma ação inusitada: torcedores atiraram centenas de cédulas falsas de dólares em direção ao veículo. Já em Karlsruhe, torcedores deste clube invadiram o Hotel em que o Leipzig se hospedava fazendo arruaças no hall de entrada do estabelecimento.

Mais recentemente, já na primeira divisão, um grupo de torcedores do Colônia bloqueou uma avenida de acesso ao seu estádio impedindo o ônibus do Leipzig a continuar no seu trajeto rumo à arena. Não houve maiores tumultos, mas a partida foi atrasada em aproximadamente 15 minutos por causa deste protesto. 

Sem esquecer que durante uma partida com o Dynamo Dresden teve uma ação isolada de um torcedor que atirou a cabeça de um touro ao gramado.

E daí? É por estas ações de grupelhos fanáticos que o RB Leipzig se torna o clube mais odiado de toda Alemanha? Não seria muito mais um sentimento de inveja vindo destes torcedores de clubes da segunda divisão, clubes estes que há anos, ou até décadas, não conseguem sair de sua mesmice nas divisões inferiores?

O que é a inveja mesmo?

"A inveja é aquele sentimento de frustração perante o que o outro tem e você não tem. É um sentimento de angústia gerado pela vontade não realizada de possuir os atributos ou as qualidades do outro, seja pela sua própria incompetência ou por alguma limitação sua, seja material ou intelectual".

E este sentimento de inveja, que cai como uma luva para torcidas frustradas, deverá ter um novo impulso agora, em que o Leipzig aparece em segundo lugar na tabela da Bundesliga, apenas dois pontos atrás do todo poderoso Bayern Munique e ainda invicto com cinco vitórias e três empates.

Por falar em Bayern Munique, talvez neste caso se aplique a adjetivação de "mais odiado na Alemanha". Na língua alemã existe até uma palavra específica para isto: Bayern-Hasser, traduzido literalmente como "odiadores do Bayern". Há um livro a respeito que é considerado a Bíblia dos Bayern-Hasser, chamado "Zieht den Bayern die Lederhosen aus" – em tradução livre, "Tirem as calças dos bávaros" –, cujos autores afirmam que existem 40 milhões (!) de Bayern-Hasser na Alemanha. Ou seja, metade do país.

UM ANALGÉSICO NO BANCO DE RESERVAS

Por Dassler Marques

Seja nas janelas de transferências que praticamente nunca fecham, seja nas frequentes trocas de treinadores e dirigentes, o futebol brasileiro, ao contrário do que se pratica na gestão das ligas de nível mais elevada, ainda é incapaz de pensar além dos dias seguintes ou do mês que vem. O exemplo mais recente está na dupla Gre-Nal.

Celso Roth e Renato Gaúcho são, no futebol dos dias de hoje, como aquela roupa que já saiu de moda e ficou guardada no fundo da gaveta. São como o jornal impresso no papel que, feliz ou infelizmente, cada dia mais se lê menos. São o Mirc em dias de WhatsApp, são o Orkut em dias de Facebook, são mais do mesmo quando a enorme – e imperceptível para muitos – evolução do esporte nos últimos dez anos pede o novo, algo comprovado nas páginas de Guardiola Confidencial e Gol da Alemanha. 

Se você defende Roth e Renato, ou apenas aponta para os êxitos iniciais de ambos na volta a Internacional e Grêmio, respectivamente, vale entender que isso só é possível neste nosso universo onde só se pensa a próxima semana. São como aquele analgésico que você toma para uma crise de enxaqueca: a dor vai passar, mas você tem certeza de que logo estará de volta.

Um dos exemplos está no próprio Beira-Rio, onde Argel Fucks fez o Internacional se reerguer em 2015 à base de futebol essencialmente de competição. Quando se pediu mais conteúdo, quando foi necessário ter uma proposta de jogo mais sólida e com protagonismo, quando o mercado de transferências exigiu qualidade, tudo virou pó. Nas erradas mãos de Falcão, excelente ex-jogador e ótimo comentarista, o legado fraco jogou o time mais abaixo na tabela.

Um outro exemplo, claro, está do lado oposto de Porto Alegre. Roger Machado, notadamente com mais conteúdo, construiu um estilo no Grêmio. A sede por um título não foi saciada, mas o novato Roger entregou bons resultados. O desenvolvimento visível de ex-promessas como Luan, Walace, Everton, Pedro Rocha, Marcelo Hermes e Jaílson e a evolução de experientes como Geromel, Marcelo Oliveira e Maicon validam seu trabalho. Há uma herança para Renato.

Àqueles que caçoaram e questionaram o estilo supostamente acadêmico em excesso, vale a lembrança de Tite para o Rio Grande do Sul. Apesar de seu grande trabalho no Grêmio e de passar pelo Beira-Rio com conquista da Sul-Americana, Gauchão e vice da Copa do Brasil, ele saiu estigmatizado e alvo de piadas do Inter em 2009. O treinador de Seleção Brasileira já estava ali. Ainda estava em construção, mas ele já era de verdade.

Apesar de tudo isso tão nítido, a dupla Gre-Nal procurou soluções rápidas. Roth foi incapaz de sustentar seis meses de um bom trabalho no Grêmio-2008, quando teve um turno histórico e outro vexatório no Brasileiro. Também no Inter-2010, em que chegou nas finais da Libertadores e acabou batido pelo Mazembe. Mas quem se importa com o futuro? Ali, no curto prazo, ele resolveu. Até ganhou uma taça sul-americana.

A história de Renato no Grêmio remete a trabalhos semelhantes, que tiveram resultados iniciais inquestionáveis em 2010 e 2013, ambos com ascensões e vagas na Copa Libertadores. Entretanto, nada de relevante foi construído na sequência, o que reforçou a impressão de que é um treinador incapaz de pensar o momento seguinte, de desenvolver jogadores, de enxergar o mercado e de projetar o futuro. De trabalhar fora do circuito RJ-RS.

Os exemplos são Grêmio e Inter, mas pode se falar de praticamente todas as equipes do futebol brasileiro. Seja pelo funcionamento político, seja pela relação com empresários ou seja pela falta de qualquer conhecimento, quase ninguém pensa a temporada como um todo. Assim, o que resta é tomar um analgésico e celebrar a fuga da zona de rebaixamento.


O EXEMPLO POSITIVO

Em novembro, quase o mesmo que era em janeiro. Folha salarial modesta, futebol agradável e treinador quase desconhecido. Gestão sustentável. Sinergia com a torcida. Vice-campeão estadual e a nove pontos da vaga na Libertadores 2017. Sim, claro, o Botafogo.

ATUALIZAÇÃO DISPONÍVEL

Por André Kfouri

Celso Roth deu uma longa entrevista ao jornal Zero Hora, na semana passada, com alguns trechos em que analisava o futebol num contexto mais amplo do que seu trabalho para manter o Inter na Série A do Campeonato Brasileiro em 2017. São comentários intrigantes de alguém com longa vivência no jogo; opiniões, especialmente sobre o futebol que se pratica na Europa, que nos estimulam a procurar o calendário para relembrar em que ano estamos. Ou, mais apropriadamente, em que ano Roth está. As aspas que você lerá foram extraídas da publicação original, para reproduzir o que foi dito e evitar ruídos de interpretação:

 

Celso Roth - Desde 2006, estou muito reticente com o futebol. Fui para a Europa, meu filho estava lá, fiquei para ver a Copa do Mundo. E digo: a retranca aumentou. Não mudou nada no futebol desde lá. Marcação dupla em todos os setores. Está pior plasticamente. Todos acham maravilhosa a Champions. Por quê? Todos os times são seleções. Quero ver trabalhar aqui, com o que tem no mercado, e fazer o time jogar... É diferente. Gostava de ver o Bayern de Munique, do Jupp Heynckes (em 2013). Fantástico, objetivo. Todo mundo fala do Barcelona. Não gosto de ver jogar. Vai para um lado, vai para o outro até fazer o gol. O meu futebol é mais vertical, mais objetivo, não abrindo mão da qualidade técnica. O futebol do Barcelona é plasticamente bonito. Mas descobriram como jogar contra eles, colocando todos atrás da linha da bola. Fica uma chatice.
 
Zero Hora - Hoje, tem algum time que joga no estilo que você gosta?
 
Celso Roth - Não sei te dizer. O Barcelona continua com o mesmo jeito de jogar. O Atlético de Madrid, do Simeone, é compacto, demonstra o nosso estilo. É time forte, tem qualidade técnica, contra-ataque rápido, tem muita sinergia com a torcida. Mas o Real Madrid, por exemplo, tem altos e baixos. Tem qualidade técnica, mas vive de momentos. O Barcelona tem vários craques e joga desse jeito, porque é a escola. Não é ruim. Mas vocês querem saber o meu gosto. Gosto é de futebol vertical.

 

Interessante, não? A qual Barcelona Roth se refere? Ao que foi criado por Pep Guardiola e está para sempre na conversa sobre o melhor time da história ou ao de Luis Enrique, que segue conquistando títulos com uma forma diferente de jogar? Tudo indica que é o primeiro, pela associação, por triste confusão de conceitos, com um jogo "pouco objetivo" e/ou "chato" – afinal, sob pena de repetição desnecessária, foi assim que esse time não só encantou o planeta como conquistou todos os títulos que existem no futebol espanhol, europeu e mundial. O Barcelona atual é capaz de praticar futebol direto e, por momentos, até reativo, sem abandonar a posse como ferramenta de desorganização do adversário. Mas esse não é o ponto, claro. Roth está falando de um time que, de certa forma, deixou de existir em 2012, há cinco temporadas. O Barcelona atual consegue ser "vertical", mais ao gosto de Roth, e foi campeão europeu assim, mas ele parece não ter notado. Talvez porque não viu o suficiente?

As questões sobre estilos no futebol estão diretamente relacionadas a preferências pessoais, e ninguém é obrigado a gostar do que não gosta. Mas quando essa escolha sugere uma opção por não acompanhar um certo tipo de jogo, ainda mais se feita por um técnico, fica mais fácil compreender a resistência à evolução. Dizer que o futebol não mudou desde 2006 e "está pior plasticamente" é fechar os olhos exatamente para o movimento que teve início no Barcelona, em 2008, com reflexos evidentes em times e seleções ao redor do mundo. É não perceber de que forma foram vencidas as duas últimas edições da Copa do Mundo. É não enxergar o desenvolvimento dos conceitos do futebol de posse e associação que continuam estabelecendo a vanguarda do jogo.

Mas há algo mais grave na declaração de Roth: a tentativa de encapsular a elite do futebol europeu como um ambiente ficcional e apresentar o cenário brasileiro como a dura realidade em que "se trabalha com o que se tem". É um argumento capcioso que pretende convencer as pessoas de que treinadores no Brasil estão de mãos atadas pela (falta de) qualidade humana com que trabalham, e por isso devem ser exaltados. Equívoco, e dos grandes. Quanto maior for a capacidade dos futebolistas à disposição de um técnico, mais difícil será dirigi-los e reuni-los em um organismo coletivo bem sucedido. Porque é necessário treiná-los, uma exigência que só está ao alcance dos mais atualizados e capacitados. O que está acontecendo neste exato momento com a Seleção Brasileira é um exemplo cristalino. Sem falar no desenvolvimento de jogadores, aspecto do trabalho de técnicos que é constantemente ignorado. As formas como jogadores de futebol são utilizados nos times mais sofisticados do mundo estão disponíveis semanalmente em canais da televisão fechada, para os interessados.

E a propósito: há técnicos "fazendo o time jogar" aqui no Brasil, sim. Tite o fez no Corinthians em dois períodos, principalmente no ano passado. Dorival Júnior tem um dos melhores aproveitamentos da temporada no Santos, com um time prejudicado por convocações da Seleção Brasileira e soluções internas que merecem atenção e aplauso. Cuca lidera o Campeonato Brasileiro com o Palmeiras, jogando o tipo de futebol que Roth diz preferir. E Zé Ricardo, em especial, mantém o Flamengo na corrida pelo título com uma visão de jogo coletivo que, mesmo se não produzir uma conquista neste ano, é motivo de ótimas sensações para o futuro. As limitações do futebol brasileiro não podem ser usadas como algemas, pois os conceitos mais avançados de preparação e competição não são segredos inacessíveis. Neste aspecto, o papel dos técnicos é destacadamente o mais importante, assim como a própria atualização.

A POBREZA DO DEBATE SOBRE FUTEBOL NO BRASIL

Por André Rocha

Há uma grande distorção em curso no país. As redes sociais mostram que nunca se falou tanto sobre política. Mas sem o mínimo debate de ideias. A maioria só quer ter razão e atacar quem pensa diferente. O período eleitoral revela que isso acontece inclusive entre os próprios agentes e candidatos.

O mesmo vale para o futebol. A discussão sobre o “Cucabol” fomentada pelo colega Mauro Cezar Pereira, da ESPN Brasil, mostrou que criticar o líder de um campeonato é quase proibido. Não houve a compreensão por grande parte dos palmeirenses e até de torcedores de outras equipes e colegas de imprensa que a cobrança era por melhor futebol.

Ora, se o alviverde conta com um elenco robusto e Gabriel Jesus, o grande talento a ainda jogar em nossos campos, é ao menos compreensível que se espere uma ideia de jogo mais elaborada, que aproveite melhor as qualidades dos atletas e recorra menos às jogadas aéreas quando atua em seus domínios e precisa do resultado e não especule e sofra tanto para se impor fora de casa. Ou seja, entregar mais desempenho.

Tudo foi reduzido a clubismo, bairrismo e perseguição por parte do jornalista. Poucos tentaram refletir e admitir que mesmo vencendo com ótima campanha é possível fazer mais e melhor. Combinar resultados e atuações consistentes.

Curiosamente, o tempo mostra que os que não admitem críticas durante a campanha vencedora ou pouco depois do título normalmente são os mesmos que surtam quando mais à frente este mesmo estilo não consegue vencer. Exemplos não faltam: o “Muricybol” do São Paulo tricampeão brasileiro de 2006 a 2008 foi atacado por não conquistar a Libertadores e hoje muitos são-paulinos responsabilizam esta ideia de jogo e o modelo de gestão ultrapassados pela estagnação do clube.

O mesmo vale para Marcelo Oliveira, no Cruzeiro e no Palmeiras. Quando bi brasileiro e campeão da Copa do Brasil, o treinador era imune a qualquer questionamento às suas equipes espaçadas, sem controle de jogo e muito dependente das jogadas aéreas. Ao sair dos dois clubes, também por fracassar na Libertadores – torneio mais complicado, com equipes sul-americanas mais atualizadas em tática e estratégia – veio a chuva de protestos, inclusive minimizando e atribuindo as conquistas anteriores à sorte. Uma espécie de “crítica retroativa”.

É aí que entra o trabalho do comentarista, do formador de opinião. Por conta da guerra de audiência e da busca desesperada por cliques independentemente do conteúdo, alguns colegas preferem o caminho mais simples e menos desgastante: falam o que o torcedor quer ouvir. Como numa relação entre prestador de serviço e cliente.  Então se o fã do líder do campeonato espera só elogios, lá vem o textão exaltando os feitos e ocultando os problemas.

Crítica? Só ao clube que despenca na tabela. E aí se carrega nas tintas também. Nada há de positivo e os motivos para a sequência de resultados ruins são elencados detalhadamente. Porque a crise, ainda mais se acontecer num gigante de enorme torcida, também vende. Em resumo, o público e a crítica, a rigor, só analisam a tabela. Resultados e colocações. Quem vence vive “grande fase”. Se perde está num “período turbulento”. Quem pensa diferente é tratado como um lunático. Ou mal intencionado.

Pouco se olha para o campo. Para a bola jogada que muitas vezes sinaliza que quem está no topo da tabela pode cair e o time na rabeira está em evolução e tem grandes chances de recuperação. Entre o pragmatismo simplista do “futebol é resultado” e a hipocrisia do “futebol é entretenimento”, que normalmente é a senha para tratar o espectador como uma criança ou um imbecil, existe a verdade: o futebol é um jogo.

Jogo que não é pensado, muito menos estudado. Por isso o debate é tão raso e o pensar futebol tão pobre no Brasil.

UMA NOVA CHANCE PARA O CALENDÁRIO BRASILEIRO

Por Rafael Oliveira

O comunicado da Conmebol sobre a reforma das competições sul-americanas abriu enorme e natural debate sobre cada um dos temas propostos. Mais do que isso, reabre a constante e necessária discussão sobre o calendário brasileiro. A ampliação do tempo de disputa da Libertadores, além de distribuir melhor o torneio, enfim permite que a ideia de temporada seja respeitada. Passando de 27 para 42 semanas e durando de fevereiro até novembro, a principal competição do continente obriga um planejamento que vise o ano inteiro.

Até hoje, a América do Sul tem sua temporada dividida em duas partes – seja pelos campeonatos nacionais em países de "apertura" e "clausura", seja pela simples divisão de semestres gerada por Libertadores e Copa Sul-Americana. Assim, cada clube planeja os próximos seis meses de acordo com o torneio que disputa. No Brasil, é o time que investe no início do ano se estiver na Libertadores, ou opta por esperar alguns meses para gastar o que tem no Campeonato Brasileiro.

No caso específico do Brasil, que tem apenas um campeonato nacional por ano, é a chance de finalmente ter campeonato, copa nacional e torneio continental distribuídos ao longo da temporada. O mundo ideal para enxergar o ano como um só, sem ofuscar o início de Brasileirão por estar nas finais da Libertadores ou abandonar o Brasileiro por pensar no Mundial. Problemas pela atual incompatibilidade de calendário. Iniciar e concluir todas as competições na mesma época significaria um só planejamento, o que exige capacidade para conciliar tudo sem precisar desvalorizar qualquer uma delas. Há apenas um "pequeno" velho problema: o que fazer com os estaduais?

Antes, discutir um modelo europeu de temporada no Brasil encontrava o enorme obstáculo da Libertadores em um só semestre. Mas agora, por incrível que pareça, a Conmebol se mexeu e avançou antes da CBF no assunto. Com o principal torneio continental entre fevereiro e novembro, o problema é exclusivamente da CBF: faz sentido o campeonato nacional começar no quinto mês do ano e quarto de temporada?

A mudança radical na Conmebol soa como quase um grito para a CBF e seus clubes que aceitam o calendário como ele é. Não que o país não tenha evoluído nos últimos anos. Recolocar os clubes da Libertadores na Copa do Brasil e ampliar o tempo de disputa da copa nacional foram grandes acertos. Mas agora falta o mais radical deles: mexer com o maior símbolo do atraso e da estrutura política de poder no futebol brasileiro.

A transformação dos estaduais permitiria um Brasileirão melhor distribuído no ano, com espaço para mais treinos e até para respeitar as "inimigas" datas Fifa. Eles não precisam acabar. Poderiam até virar divisões inferiores regionalizadas, garantindo empregos por mais do que três meses para clubes que não deveriam ocupar tanto tempo do ano de quem precisa pensar em alto nível com receitas dignas de futebol profissional.

Assim que as mudanças da Conmebol foram divulgadas, surgiram as especulações. A ideia de ampliar o número de fases preliminares não incomoda, mas a possibilidade já descartada de vagas por convite seria um enorme tiro no pé. Além de diminuir os méritos de quem luta para chegar até lá, alimentaria uma politicagem que já é tão nociva ao futebol sul-americano. Aumentar o número de vagas também parece desnecessário, considerando o número de países participantes. É diferente da Europa, que precisa de um sistema de playoffs para contemplar seus mais de cinquenta países sem colocar níveis técnicos tão distantes nas mesmas fases.

Também diferente da Europa é a questão de deslocamento e mobilização para a final em jogo único. Apesar do recente "Brexit" e de inúmeras discussões envolvendo fronteiras nos últimos meses, as principais ligas de futebol da Europa estão reunidas em uma parte do continente que funciona como um só país. Uma decisão no centro da Europa é capaz de mobilizar toda a região. E o bom sistema de transportes permite tamanho deslocamento para esses grandes eventos anuais. Uma final em jogo único na América do Sul não seria um fracasso. Longe disso. Mas as ideias de mando de campo, de "caldeirão" e de força da torcida local parecem culturalmente mais fortes por aqui. Não há prejuízo técnico com “ida e volta” e muito menos a necessidade de copiar absolutamente tudo da Europa.

Um ponto interessante na ideia da Conmebol é a transição da Libertadores para a Sul-Americana, aproveitando os clubes eliminados antes das oitavas, como acontece da Liga dos Campeões para a Liga Europa. Isso define a hierarquia entre as competições continentais. O número é que deixa dúvida no ar: por que 10 clubes? Faria mais sentido se fossem os oito terceiros colocados dos grupos.

A mudança também traria urgência na CBF para resolver outro problema pendente: a fórmula de classificação para a Sul-Americana, que atualmente passa por ser eliminado da Copa do Brasil. Novamente, puxar o Brasileirão para o início do ano daria tempo para distribuir as datas e permitiria que um clube não tivesse que optar por copa nacional ou continental no segundo semestre. No caminho, quem? O obstáculo dos estaduais.

Que fique claro: o Brasil não é o único com pontos a resolver diante das mudanças da Conmebol. A Argentina, por exemplo, tem um calendário adaptado ao europeu, que prevê férias no meio do ano. Outro desafio em comum é a definição do período de janela de transferências e de alterações nas inscrições dos clubes, considerando o impacto que o mercado europeu pode trazer no meio da nova Libertadores, em agosto.

A mudança é radical, mas extremamente interessante. E pode ser ainda mais positiva se gerar a devida reflexão sobre um dos temas mais delicados do futebol brasileiro. A Conmebol impulsionando um progresso para a CBF... Quem diria? Mas só será possível se houver interesse em aproveitar a oportunidade.

 

O CENÁRIO DA BUNDESLIGA APÓS QUATRO RODADAS

Por Gerd Wenzel

Passadas as primeiras quatro rodadas da Bundesliga, uma coisa parece absolutamente certa: os dois grandes do futebol alemão, Bayern Munique e Borussia Dortmund, confirmaram as suspeitas de que, de fato, possuem os melhores elencos da Alemanha e, por conta disto, estão jogando um futebol de encher os olhos do fã do esporte. É verdade que o Bayern, agora sob o comando do tranquilo Carlo Ancelotti, ainda está num patamar ligeiramente superior ao do Borussia Dortmund, mas cuidado: o jovem treinador auri-negro, Thomas Tuchel já está conseguindo engrenar o seu time repleto de novatos. É sempre bom lembrar que para repor a espinha dorsal formada por Hummels, Gündogan e Mkhitaryan, o Dortmund fez oito (!) novas contratações, tendo que formatar praticamente uma nova equipe.

O Bayern segue soberano na liderança do campeonato: quatro vitórias em quatro jogos, 14 gols marcados, apenas um sofrido. Enquanto isso, o Borussia Dortmund teve um escorregão diante do novato RB Leipzig na segunda rodada, mas após este início difícil, por conta da falta de entrosamento, deslanchou: goleada para cima do Darmstadt (6 a 0) e outra, fora de casa, na toca dos lobos, contra o Wolfsburg (5 a 1). Sem esquecer que sua estreia na Champions League foi mais do que satisfatória: goleada de 6 a 0 sobre o Legia Varsóvia. Foi a primeira vez na história que os auri-negros conquistaram duas vitórias consecutivas em jogos oficiais pelo mesmo placar de 6 a 0.


AS DUAS MAIORES SURPRESAS

Na história da Bundesliga, quando um time é promovido para a primeira divisão, a sua primeira preocupação é, a todo custo, manter-se no futebol da elite e não cair de novo para a “segundona”.

Entretanto, este não parece ser o objetivo do RB Leipzig. Patrocinado por uma forte empresa transnacional, este time que há sete anos ainda frequentava a quinta divisão, desponta, pelo menos até agora, como uma das grandes surpresas da temporada e pretende alçar voos mais altos.

O seu diretor de esportes, Ralf Rangnick, é um homem de visão. Foi técnico do Hoffenheim de 2006 a 2011, levando esta equipe da 3ª para a 1ª divisão em apenas dois anos. Como técnico, repetiu esta história no Leipzig, tornou-se dirigente do clube e contratou o carismático treinador Ralph Hasenhüttl que, por sua vez, na temporada 2014/2015, havia levado o Ingolstadt para a Bundesliga.

Além disso, o clube tem como política contratar apenas jovens promessas que, no máximo, tenham 24 anos e formou um elenco que impõe respeito: no seu primeiro jogo em casa, derrotou o Borussia Dortmund por 1 a 0 e, não bastasse isso, goleou o Hamburgo fora de casa por 4 a 0 na rodada seguinte. Ainda não perdeu na atual campanha (duas vitórias e dois empates) e ocupa o 6º lugar na tabela, equivalente a uma vaga para a Liga Europa.

Outra surpresa é o tradicional Colônia, que foi o primeiro campeão da Bundesliga fundada em 1963 e conquistou mais um título em 1978, além de levantar quatro vezes a Copa da Alemanha.

Em 2013 estava na 2ª divisão e contratou o técnico austríaco Peter Stöger, um treinador adepto do futebol moderno e hábil na administração das vaidades de cada um dos seus comandados. Resultado: subiu de cara para a Bundesliga. Na primeira temporada (14/15) ficou em 12º e na última em 9º, por pouco não beliscando uma vaga para a Liga Europa. Tem um elenco consistente à sua disposição e conta com todo apoio da diretoria. Pequeno detalhe que talvez esteja fazendo a diferença: sete jogadores do atual elenco nasceram em Colônia – nenhum outro clube na Alemanha tem tantos jogadores da própria cidade no seu time principal.  E pasmem: encerrada a quarta rodada, o Colônia é vice-líder com três vitórias e um empate, dois pontos atrás do Bayern e um ponto à frente de Dortmund, Frankfurt e Hertha Berlin.


AS DUAS MAIORES DECEPÇÕES

Neste caso, basta olhar a tabela de classificação: Werder Bremen e Schalke 04. Os dois disputam para saber quem segura a lanterna e, por enquanto, isso está sendo decidido pelo saldo negativo de gols. Em quatro jogos, contabilizam quatro derrotas. Mas o Werder "conseguiu" acumular um saldo negativo de 11 gols (3 pró e 14 contra). Demitiu o técnico Viktor Skripnik após a derrota na 3ª rodada para o Gladbach por 4 a 1, mas o interino Alexander Nouri (sub-23) também não conseguiu reverter a situação: perdeu em casa para o Mainz por 2 a 1 – e foi de virada nos últimos cinco (!) minutos do jogo.

O Werder Bremen cambaleia e não é de agora. Desde a temporada 2011/2012 oscila entre o 9º e 14º lugar e já na última campanha faltou pouco para não ser rebaixado ou ter que disputar a repescagem.

E o que dizer do Schalke 04? Contratou o jovem técnico Markus Weinzierl, que fez sucesso no Augsburg, renovou o seu elenco e tem um novo diretor de esportes. Até parece que é novidade demais para este tradicional clube do oeste da Alemanha.

Fato é que os "azuis reais" estão fazendo o seu pior início de campeonato desde 1985: quatro jogos, quatro derrotas – sendo a última em casa de virada para o seu arquirrival da região, o Colônia.

À triste sina de não vencer um título alemão desde 1958, pode ser acrescentada outra tristeza pelo andar da carruagem do Schalke 04: o rebaixamento para a 2ª divisão, coisa que aconteceu pela última vez em 1988.

Perguntas que não podem calar: Bayern e Dortmund são os únicos dois que vão lutar pelo título? Colônia e Leipzig terão condições de se firmar nas primeiras posições e lutar por uma vaga europeia? Schalke e Werder terão condições de se recuperar e espantar o fantasma do rebaixamento?

Só o tempo dirá, mais tardar no dia 20 de maio de 2017, data da última rodada do Campeonato Alemão.

OS "LATERIORES" DO MANCHESTER CITY DE GUARDIOLA

Por Gustavo Carratte

As contestações são menos frequentes do que já foram um dia, mas ainda existem. Não importa que o Barcelona de Guardiola tenha sentado para conversar com equipes históricas, que a Espanha de Aragonés e Del Bosque tenha conquistado em quatro anos tudo o que o país não conseguiu ao longo de décadas, que o Chile de Bielsa e Sampaoli tenha adquirido o costume de encantar a América do Sul ou que a Alemanha de Joachim Löw demonstre força para dominar o futebol mundial pelos próximos dez ou vinte anos... O bom futebol sempre estará sob suspeita.

Há alguns dias, por exemplo, Guardiola foi questionado se estaria disposto a abrir mão de seu estilo de jogo para vencer – como se uma coisa estivesse dissociada da outra, e como se a sua carreira não fosse uma prova irrefutável de que falácias como essa só têm lugar na mente de quem assiste a jogos de futebol mas não compreende muito bem o que vê. "Jogar bem não é uma questão romântica", respondeu. "A experiência me fez perceber que quando você tenta sair jogando de qualquer jeito, com pressa ou buscando a ligação direta, a bola volta mais cedo. Por outro lado, quando você sai jogando bem, com paciência, consegue ter transições melhores, cria mais oportunidades de gol e está sempre melhor posicionado para recuperar a bola lá na frente. A razão é apenas essa, não há outra". E fim de papo.

A essa busca pela saída limpa desde a defesa, elementos têm sido adicionados ao seu repertório com o passar dos anos. De um Barcelona que tinha Busquets encontrando espaços na intermediária defensiva, laterais bem abertos e recuos constantes de Xavi e Iniesta para tornar mais naturais as transições até o campo de ataque, Guardiola encontrou no Bayern de Munique uma solução com os seus laterais pela faixa central, deixando desde cedo a amplitude a cargo dos pontas e criando novos mecanismos de movimentação entre os homens defensivos para que a bola seja carregada com segurança até o ataque. Lá na frente, para terminar o serviço, um pouco de treinamento e muito de criatividade e poder de fogo de seus jogadores para se antecipar à marcação ou para aproveitar os rebotes que surgiam em escala industrial.

Como dizia o próprio Pep, conforme Martí Perarnau registrou no livro Guardiola Confidencial, "o nosso jogo será subir passo a passo, sem pressa, para que nenhum dos jogadores fique isolado. Todos juntos até cruzarmos o meio de campo e então, zás!, atacamos como uma manada de búfalos".

No Manchester City, embora o leque de jogadas no terço final do campo pareça bem mais amplo, a curiosa movimentação dos laterais é mantida – algo que Albert Morén chamou de "lateriores", uma mistura de laterais com interiores. E isso deixa claro como o sucesso desta ideia na Baviera não se devia apenas à qualidade e à inteligência de jogo das peças que recebiam tal tarefa, uma vez que Sagna e Clichy, que foram os primeiros intérpretes destes papéis, são inegavelmente menos brilhantes do que Lahm e Alaba. Com Zabaleta e Kolarov existe um pouco mais de semelhança entre os estilos, mas compará-los àqueles que talvez sejam dois dos mais influentes laterais do futebol mundial nos últimos anos ainda soa como exagero.

Muito mais do que criar perigo a partir do instinto criativo dos laterais que se posicionam à frente de um trio formado por dois zagueiros e um meio-campista que recua para organizar, trata-se de um remanejamento de peças a fim de alcançar a tão sonhada superioridade numérica em todos os momentos de uma partida, objetivo permanente do jogo de posição de Guardiola. A única dúvida passa a ser qual dos três caminhos possíveis para a construção de jogo se apresentará como o ideal, o que depende das escolhas do adversário da vez.

A primeira opção é a abertura de jogo com o ponta mais próximo, caso a última linha defensiva do adversário se mantenha fechada e caso os homens abertos da segunda linha se preocupem mais com a liberdade dos laterais que centralizaram do que com os pontas que recuaram alguns metros pelas beiradas. Se o defensor que inicia a jogada pelo lado for alguém com alta qualidade no passe longo – como Kolarov, por exemplo –, ainda há a possibilidade de uma inversão de jogo para o ponta do lado oposto.

A segunda opção é o passe para dentro em direção aos laterais que centralizaram, caso os adversários que naturalmente os marcariam pelos lados passem a se preocupar mais com os pontas que recuaram para dar opções de passe por lá. Nesta situação, será o comportamento dos marcadores da segunda linha defensiva rival que definirá se os meio-campistas de ocasião do City carregarão a bola, tentarão um passe entre linhas ou abrirão o jogo para os pontas em busca de triangulações mais próximas à área rival.

A terceira opção é o passe rasteiro ou o lançamento pelo alto direto para os meias interiores ou para o atacante mais avançado, caso os volantes do adversário se incomodem com a liberdade dos laterais que centralizaram e avancem para a impedir a progressão de seu jogo por ali. Neste caso, o posicionamento do homem aberto da segunda linha defensiva do oponente também diz ao defensor de Guardiola qual companheiro poderá servir como válvula de escape numa eventual inversão: se ele marcar o ponta, a bola pode ser invertida para o defensor do outro lado ou passar pelo goleiro antes de chegar até lá; se a marcação for em cima do zagueiro, pode ir direto para o ponta do lado oposto.

É esta a função da movimentação dos laterais no City de Guardiola, portanto: transformar qualquer tentativa do oponente de marcar em pressão média em algo ineficaz. Se fechar o meio, o espaço aparece pelas laterais. Se fechar as laterais, o espaço aparece pelo meio. Se fechar o meio e as laterais, o espaço aparece entre linhas. A tudo isso, ainda se somam possibilidades de recuo para um goleiro seguro como Claudio Bravo e de inversão para o ponta ou para o defensor do lado oposto.


4-2-3-1, O OBSTÁCULO POSSÍVEL

Há uma maneira de impor obstáculos a essa saída tão natural do City: abrir mão das duas linhas de quatro com dois homens mais avançados e deixar apenas um atacante na pressão em cima dos defensores – como fez o Manchester United de Mourinho, por exemplo, no clássico de 10 de setembro. Esse posicionamento faz com que Guardiola abra mão da movimentação de seus laterais por dentro, mantendo-os abertos e dando início às suas jogadas com a dupla de zagueiros.

Num comportamento mais básico, em que pontas tratam de fechar as opções de passe pelos lados e o meia centralizado faz o mesmo com o meio-campista organizador, a opção imediata é o outro zagueiro que terá algum espaço para conduzir e decidir o que fazer mais à frente, a depender das reações que o seu deslocamento provocar nas linhas defensivas adversárias.

Caso o meia centralizado do adversário decida ir em direção ao zagueiro que está prestes a receber a bola, o meio-campista organizador passará imediatamente a ser a melhor opção de passe – o que não parece nada interessante para quem marca, já que todas as opções de ataque estarão no cardápio do dono da bola.

E há ainda uma última tentativa de neutralizar a saída de jogo do City, que é com o abandono da lateral oposta à bola por parte do ponta, que se desloca até a região central para impedir um passe imediato ao companheiro de zaga daquele que tem a bola em seus pés. O efeito prático disso, porém, será apenas o retardamento da transição até o ataque, e não a sua anulação. Nestas condições, bastarão dois ou três movimentos coordenados pela linha defensiva para que a bola chegue até o campo adversário.

No primeiro caso, o zagueiro que estava livre mas passou a estar marcado desloca-se para dentro, arrastando consigo a sua marcação e deixando com enorme liberdade o goleiro que prontamente já poderá acionar o lateral do outro lado. Ali, sinal verde para conduzir e promover triangulações em superioridade numérica de três contra dois ou, eventualmente, até mesmo três contra um.

No segundo caso, basta um movimento a mais, forçando um passe recuado para o lateral do mesmo lado e deslocando-se para frente a fim de arrastar consigo o seu marcador. O lateral que está de costas para a meta adversária não precisará de mais do que um toque para acionar um goleiro completamente livre, que por sua vez, com o recuo do outro zagueiro, terá pelo menos uma opção de passe igualmente livre do lado oposto, a depender da escolha que o ponta adversário fizer: se resolver acompanhar o zagueiro que recuou, inversão rasteira ou pelo alto para o lateral; se mantiver o seu posicionamento e deixar o zagueiro livre, passe curto para ele. A partir daí, mais uma vez fica nas mãos do ponta adversário o desenrolar da jogada: ele pode tanto ir em direção ao zagueiro, permitindo uma abertura de jogo para o lateral do mesmo lado, quanto pode deixá-lo livre para conduzir em direção ao meio de campo.

É um processo demorado, obviamente. É preciso de tempo para que tudo seja executado com cada vez mais naturalidade e qualidade. Sair jogando sempre pelo chão, com o goleiro e com linhas de três ou quatro jogadores cada vez mais confiantes, não é uma tarefa fácil. Mas o leque de possibilidades é tão amplo que a progressão do Manchester City de Guardiola com a bola dominada acaba se tornando algo inevitável.

Em outras palavras, ou o adversário avança todas as suas linhas e corre os riscos inerentes a abrir o campo para um time poderoso como o City ou recua completamente e aceita o papel de absoluta passividade que o técnico catalão lhe destinou. É escolher qual dos prejuízos deste cobertor curto você prefere pagar, preparar-se para correr durante 90 minutos e torcer para a sorte estar ao seu lado.

TITE, UM TRABALHADOR INCANSÁVEL

Por Dassler Marques

As vitórias sobre Equador e Colômbia, não apenas pelos resultados, confirmaram o que alguns desconfiavam e outros tinham certeza: o maior problema da Seleção Brasileira era a falta de um treinador com conhecimento atual, trajetória, ascendência e, claro, uma dose de sensibilidade. Mas, no sucesso deste início de Tite, só uma das metades é inspiração.

Desde que se desligou do Corinthians para realizar o sonho de sua vida, com status para dizer "sim" e colocar condições importantes, o sucessor de Dunga provou que a profissão treinador no futebol de hoje requer altíssima dose de transpiração. Notar o quanto Tite e toda a sua comissão trabalharam em dois meses e meio é imperativo para a compreensão do salto que deram.

Em um período tão curto, Tite viajou para acompanhar jogos da Copa América, assistiu a dezenas de partidas por vídeo e em estádios do Brasil e da Europa, ficou ao lado de Rogério Micale em vários momentos da Olimpíada, telefonou para mais de 30 treinadores, falou com Zidane, Luis Enrique, Ancelotti...

Não pense que terminamos, porque, além de coordenar toda a agenda de seus auxiliares e preparar a convocação para os primeiros compromissos, o treinador também teve uma missão ainda mais importante: criar o conceito de jogo para a equipe caminhar nos próximos meses, talvez até a Copa da Rússia em 2018. E a implantação de ao menos parte desses métodos precisaria ser feita em... três treinamentos em Quito.

Além de acertar nas escolhas, essa era a maior preocupação de Tite. Nas conversas com Micale, expunha justamente a ansiedade sobre como conseguiria levar um time a campo com tão pouco trabalho. Se nos clubes em que trabalhou ele teve pré-temporada e semanas cheias de treinamento, o que fazer em cerca de cinco horas com os jogadores em campo? A solução foi gastar mais energia.

A escolha correta dos jogadores para as funções do time, o entendimento sobre o que cada um deles poderia oferecer e como iriam se encaixar, o envio de instruções conceituais e de treinamentos por meio de WhatsApp foram a base para otimizar esse processo. Tite apostou que poderia complementar o trabalho de campo com conversas. E, por mais que muitos duvidem, temos uma geração de atletas com alto entendimento do jogo e ávidos por conhecimento.

Tite e sua comissão já partiram de um princípio de time desenhado, o que também acelerou o tempo. Por mais que não tenham exposto no início, o projeto era replicar desenho e ideias de jogo do Corinthians de 2015. Era o que o treinador gosta de trabalhar e o que acredita ter total conexão com a história antiga do futebol brasileiro e com o que há de mais moderno internacionalmente.

Ter conhecidos por perto também ajuda. Sete dos convocados já trabalharam com Tite, que também estreitou relação com campeões olímpicos. Auxiliares como Cléber Xavier, Matheus Bachi, Sylvinho, Fábio Mahseredjian, Fernando Lázaro e Bruno Mazziotti já conheciam o treinador. Na CBF, uma grata surpresa: Maurício Dulac, analista braço direito de Micale, foi incorporado e ganhou espaço. Trata-se de um velho colega de Tite dos tempos de Inter.

Pessoas mais próximas do treinador, a esposa Rose e os filhos Matheus e Gabriele já sabem que Tite respira futebol 30 horas por dia. A dedicação à profissão ocorre em tempo integral e com prazer de quem faz o que sempre sonhou, mas a quantidade de energia gasta para as vitórias na estreia não foi pequena. A evolução do futebol nos últimos 15 anos implicou não apenas no crescimento das comissões técnicas, mas numa exigência maior aos chefes delas.

Nos dias de hoje, o conhecimento não basta. As grandes conquistas exigem uma boa dose de disposição e humildade para se entregar à labuta, o que se notou que Dunga não estava disposto a entregar. Até nisso Tite parece acima do antecessor: não lhe incomoda arregaçar as mangas no início do dia e trabalhar. A recompensa tem vindo.

UM BRASIL QUE JOGA

Por André Kfouri

O último gol veio ao final de uma sequência de nove passes, do goleiro Alisson a Gabriel Jesus. Quando a bola entrou no canto esquerdo do gol equatoriano, a primeira vitória da Seleção Brasileira em Quito desde 1983 já era um fato – e o brilho do jovem atacante do Palmeiras, o principal aspecto de uma atuação que merece elogios. O Brasil só tinha feito um gol nas quatro visitas anteriores ao Equador, número dobrado por Gabriel nesta quinta-feira.

Ele se envolveu em todos os gols. Atacou o espaço, como é sua característica, na jogada em que foi derrubado na área pelo goleiro Domínguez; finalizou, com recurso, o lance construído pelo triângulo Phillippe Coutinho-Neymar-Marcelo na ponta esquerda; e girou na entrada da área, confiante na própria capacidade, para marcar o terceiro e assinar uma estreia de sonho pela Seleção principal, aos 19 anos.

Os conceitos tantas vezes mencionados por Tite foram notáveis durante todo o jogo, mesmo em um primeiro tempo marcado pelo exagero nos passes errados e chutes de meia distância longe do alvo. Os efeitos da altitude certamente estão relacionados aos dois problemas, embora a preparação para o jogo tenha levado em conta a adaptação técnica às reações da bola. O Brasil terminou a partida com 85,8% de acerto nos passes e 35,7% de precisão nas finalizações.

Os números que mais chamam a atenção: 61% de posse, com 494 passes, dos quais 9,7% foram longos. Eis uma Seleção Brasileira que joga e joga curto, finalmente. Características que ficaram evidentes na frequência com que Galvão Bueno foi ouvido dizendo "... e o Brasil sai jogando..." e similares, durante a transmissão da TV Globo. Johan Cruyff, já saudoso, dizia que o que equilibra um time de futebol é a bola, com absoluta razão. O Brasil quis ter a bola em Quito, para se estabelecer em campo a partir dela. Que seja assim sempre.

Mérito para Tite na iniciativa de criar condições para que a Seleção atuasse como um time, tendo em vista as poucas sessões de treinos. Paulinho e Renato Augusto, que não precisam ser lecionados sobre o sistema que o técnico prefere, jogaram com naturalidade e, auxiliados por Casemiro, estabilizaram um setor crucial. Os trabalhos fechados em Quito certamente tiveram ênfase na coordenação de movimentos de jogadores que teriam de atuar sempre próximos, o que se viu em campo. Se algo surpreendeu no comportamento de uma equipe que começa a se formar, foi a compactação que normalmente exige tempo para ser alcançada.

O Corinthians de 2011 e 2012 era mais do que a soma de suas peças. O de 2015 teve de ser montado duas vezes e encerrou a temporada praticando um futebol mais técnico e vistoso do que fazia no início. O Brasil que venceu o Equador não pareceu estar sob o comando de um técnico em seu primeiro jogo no cargo. Sim, a amostra é mínima, mas, em termos de organização coletiva, os sinais do trabalho que se inicia são ainda mais promissores do que o resultado obtido em Quito. Uma sensação que se encaixa com o que Tite prega: jogar bem para merecer vencer.

A análise deve considerar que o Brasil teve um jogador a mais a partir dos 30 minutos do segundo tempo. Mas não pode ignorar o amplo controle exercido pela Seleção desde a volta do intervalo, principalmente após a entrada de Coutinho no lugar de Willian. O empate, visto como satisfatório para o Brasil, passou a ser um resultado atraente para os equatorianos antes mesmo do pênalti cobrado por Neymar, aos 26 minutos. A estreia de Tite teve desempenho e resultado compatíveis, diante de um adversário perigoso e em um ambiente desfavorável.

O jogo contra a Colômbia precisa confirmar as impressões agradáveis da tarde em Quito. Serão dificuldades distintas, especialmente se os colombianos se afastarem de suas características e planejarem uma atuação defensiva em Manaus. Quem não deve dar as costas à própria natureza futebolística é a Seleção Brasileira, hoje dirigida por um técnico atualizado e determinado a fazer as coisas bem, pois só assim se pode almejar vencer sempre.

 

DE MICALE A TITE, O OURO DA ESPERANÇA

Por André Rocha

Rogério Micale superou as desconfianças e as críticas cruéis depois dos empates nos primeiros jogos da Olimpíada com o que tinha de melhor a oferecer: convicção e conteúdo. Ajustou a Seleção dando liberdade a Neymar, abrindo Gabriel Jesus pela esquerda e encaixando os gremistas Walace e Luan para melhorar a dinâmica no meio-campo. Não para mudar, mas para aprimorar a ideia que norteou todo o trabalho: futebol atual e ofensivo, com saída de bola qualificada e o "caos organizado" na frente.

Duas boas atuações e dez gols contra Dinamarca e Honduras. Na decisão, a Alemanha expôs dois problemas: o primeiro, já conhecido, a dificuldade em lidar com a pressão desproporcional do favoritismo e com o jogo levado para o aspecto emocional. Tudo por conta do tolo clima de revanche dos 7 a 1.

O outro mais grave: diante de um sistema defensivo bem organizado, com jogadores próximos e fazendo os movimentos corretos, não conseguir criar espaços jogando coletivamente. Assim que o quarteto ofensivo entrava na intermediária adversária, um alemão saía para pressionar e induzia os brasileiros habilidosos a tentarem o drible. E normalmente perder a bola e dar o contragolpe ao adversário.

Salvo pelo golaço de falta de Neymar. Mas sem tabelas, triangulações, deslocamentos. Porque esses garotos desde sempre foram orientados a partir para cima, buscar a vitória pessoal. Até porque se destacar individualmente significava resolver o problema da família. Difícil pensar no coletivo.

Repare, por exemplo, na sutileza das entrelinhas na visão de Guardiola. Levou Douglas Costa para o Bayern de Munique. Agora Gabriel Jesus para o Manchester City em janeiro. Como queria Neymar antes – foi ainda com ele como treinador que começou o namoro do craque com o Barcelona. Valoriza o talento brasileiro para abrir defesas na base do drible. Mas apenas um entre os quatro ou cinco atacantes. Porque dois ou mais tentando no individualismo desequilibram todo o processo criativo.

É aí que entra Tite. Porque o Brasil de Micale foi um time na dedicação de todos na execução do plano de jogo. Gabigol e Jesus voltando pelos lados, Neymar colaborando sem a bola. A preocupação de valorizar a posse, com Renato Augusto voltando na linha dos volantes para qualificar a saída. Mas no último terço só havia aproveitamento do espaço e não o trabalho para criá-lo.

O Corinthians campeão brasileiro de 2015 tinha a mobilidade de Jadson saindo da ponta para dentro, criando superioridade numérica no meio ao circular às costas dos volantes e também abrindo o corredor para Fagner ou a infiltração de Elias. Tinha Renato Augusto acionando o passe vertical para a infiltração em diagonal de Malcom ou a explosão de Vagner Love, que girava por todo o ataque abrindo brechas ou aparecendo para finalizar.

Tudo à base de triangulações, tabelas, criação de espaços. Tite não terá o dia a dia para trabalhar, mas o importante é estimular nos poucos treinamentos e na conversa. Também o carisma e a capacidade de convencer do novo comandante da Seleção. Não é por acaso a convocação de 13 remanescentes da Copa América Centenário e sete campeões olímpicos. O que puder ser aproveitado de entrosamento e continuidade, melhor.

Porque a ideia na Seleção principal é clara: aprimorar a proposta da olímpica. Unir o talento ao jogo coletivo, com e sem a bola. Por isso o ouro é meta cumprida. Mas também a cor da esperança de dias melhores, já a partir dos jogos nas Eliminatórias contra Equador e Colômbia. Até pela necessidade de subir na tabela.

Resultado e desempenho. Jogar bem e vencer. Como foi, é e deve ser. Agora as chances de dar certo são maiores.

A VOLTA DOS JOGOS MENTAIS NA PREMIER LEAGUE

Por Rafael Oliveira

"Mind games" foi, por anos, a expressão utilizada na Inglaterra para os discursos de Alex Ferguson. Esses jogos mentais eram a forma de transferir pressão, desestabilizar ou gerar tensão entre os rivais, e de criar uma mentalidade vencedora capaz de, ao longo de décadas, levar elencos de diferentes níveis a títulos importantes.

Ferguson já saiu de cena, mas a temporada 2016/17 da Premier League será marcada pela maior reunião de grandes mentes do futebol na atualidade. Mourinho, Guardiola, Klopp e Conte no campeonato mais rico do planeta e que vem da maior surpresa dos últimos tempos, com o Leicester desbancando os gigantes em 2015/16.

"As ideias podem vencer o talento". Poderia ser uma explicação de Claudio Ranieri para o incrível feito do Leicester, mas foi a frase de Antonio Conte após a brilhante atuação coletiva da Itália quando eliminou a Espanha na Euro 2016. Por sinal, a visão italiana anda em alta na elite do futebol inglês. São quatro treinadores (ou 20% do total) iniciando a Premier League 2016/17 (Francesco Guidolin, do Swansea, e Walter Mazzari, do Watford, são os outros dois). Responsável por reerguer a Juventus na Itália, Conte pretende mudar radicalmente o estilo de jogo de um Chelsea que, sem grandes transformações no elenco, saiu de atual campeão para terminar como décimo.

Nada se compara ao tamanho atingido pelo dérbi de Manchester. Guardiola e Mourinho como rivais diretos novamente, e agora dividindo a mesma cidade. Com perfis diferentes também no mercado. Enquanto o City aposta no futuro e investe pesado em promessas como Sané, Gabriel Jesus e Stones, o United quer mais imediatismo com Ibrahimovic, Pogba e Mkhitaryan. Afinal, são três anos sem Ferguson e três campeonatos com 15 ou mais pontos atrás do campeão inglês.

Jürgen Klopp não é exatamente uma novidade na Premier League, mas a pré-temporada completa com o Liverpool é. Para um modelo de tanta intensidade e coordenação nos momentos de pressão sem a bola, o tempo de treinos e condicionamento físico pode ser fundamental até para evitar as inúmeras lesões do último ano.

Quem não quer grandes mudanças é o campeão Leicester. Não só em relação ao elenco, mas também na tentativa de fuga do protagonismo. Ranieri já repetiu o discurso de 2015 e estabeleceu a meta: escapar do rebaixamento. Não ser visto como candidato segue a melhor estratégia para manter a proposta de futebol direto, sem muitos passes ou tempo com a bola nos pés. Ser visto como favorito significa enfrentar adversários mais fechados e ter de encontrar soluções com a bola, o que tira o time da zona de conforto e deve dificultar ainda mais a tarefa de brigar novamente com os gigantes.

Com novos treinadores de peso no campeonato, quem lamenta a oportunidade perdida em 2015/16 é o norte de Londres. No Arsenal, Wenger entra em seu último ano de contrato sem grandes novidades. Xhaka é um bom reforço, mas o desafio novamente é evitar lesões importantes como a de Cazorla no último campeonato. No Tottenham, o melhor desempenho em duas décadas terminou com a frustrante terceira posição, mas a manutenção do belo trabalho de Pochettino com um ano a mais de experiência para o time mais jovem de 2015/16 também coloca o clube entre os candidatos ao Top 4, desde que saiba administrar o calendário europeu.

Como em 2015/16, uma das grandes atrações da Premier League é a força do bloco intermediário, agora com ainda mais poder de mercado na Europa com o início do novo e bilionário contrato de TV. Do grupo, o maior destaque é o West Ham, que já brigou por vaga na Champions League e fez outro mercado bem interessante, além de segurar o valorizado Payet.

Sem grande alarde, o Stoke reforça seu time a cada ano e, não por acaso, foi nono nos últimos três campeonatos. Com Allen e Imbula, pode ter uma dupla de volantes capaz de sustentar as boas peças ofensivas, como Arnautovic, Bojan e Shaqiri. Reformulação é de novo a palavra no Southampton. Com boa categoria de base e o eficiente olhar no mercado, o clube já superou um desmanche anterior. Agora, perdeu pilares como Wanyama, Mané e Pellè, e contratou apenas boas apostas como Redmond e Hojbjerg, com o comando de Claude Puel. Isso porque Ronald Koeman aceitou a oferta de treinar o Everton. Antes de gastar, o clube do lado azul de Liverpool preferiu investir em quem teria tal responsabilidade. Além do técnico holandês, tirou do Leicester o responsável pela área de observação de jogadores. Assim, a movimentação ficou para as últimas quatro semanas de janela, mas com nomes interessantes, como Ashley Williams e Bolasie.

Dos recém-promovidos, quem gera maior expectativa é o Middlesbrough de Aitor Karanka, ex-auxiliar de Mourinho no Real Madrid, tanto pelo seu bom trabalho para montar estratégias defensivas quanto pelo mercado agressivo de quem volta ao primeiro degrau do futebol inglês após sete temporadas na segunda divisão. Os outros dois, Burnley e Hull, iniciam como candidatos mais reais ao rebaixamento. O Hull por problemas fora de campo que geraram a saída do técnico Steve Bruce poucas semanas antes do início da Premier League, e o Burnley por confiar demais na base que arrancou e terminou a Championship 2015/16 com impressionantes 23 rodadas de invencibilidade.

Se a primeira rodada da Premier League 2016/17 mostrou alguma coisa – e nada poderia ser concluído em tão pouco tempo – é que o equilíbrio deve marcar o campeonato. Em dez jogos, só uma vitória por mais de um gol de diferença. A força dos intermediários já é uma realidade. Agora é ver como os gigantes reagem a uma temporada em que serão muito pressionados pelo título. E, com cabeças tão diferentes no comando, o campeonato pode ganhar maior diversidade tática – o que não deixa de ser algo bem interessante em uma liga que se acostumou a ter tanto dinamismo, deixando de lado o tempo e a cadência para pensar os jogos. Talvez uma nova conotação para os "jogos mentais", agora mais voltados para o que acontece dentro das quatro linhas. Não que não vá sair faíscas entre Mourinho, Guardiola, Wenger e companhia ao longo do ano.