NO BRASIL DE DUNGA FALTA O BÁSICO, NÃO A DIFERENÇA

Por André Rocha

Não, definitivamente não falta qualidade à geração brasileira quando se isola Neymar no raciocínio. Sim, faltam protagonistas do país cinco vezes campeão mundial nos principais clubes do planeta. Mas não talento. A explosão de Douglas Costa no Bayern de Guardiola neste início de temporada 2014/15 é só mais um exemplo.

A questão é que desde sempre nos acostumamos com pelo menos dois extraclasses para fazer a diferença pela seleção. Zizinho e Ademir de Menezes, Pelé e Garrincha, Zico e Falcão (ou Sócrates), Bebeto e Romário, Ronaldo e Rivaldo...Neymar. Estrela solitária.

Antes estes craques citados descomplicavam tudo com talento diante das marcações mais bem pensadas e executadas. Ou até as violentas, individuais. Na prática, o trabalho do treinador era fazer o simples taticamente e gerir o grupo administrando vaidades, mantendo o foco. Em campo, se defender e...bola para os talentos.

Dunga pensa parecido. É produto deste meio. O líder que manteve Romário na rédea curta em 1994 dividindo o mesmo quarto. Nos gramados americanos, o volante quase perfeito em posicionamento e combate direto, capaz de bloquear um enorme espaço entre as intermediárias sozinho. Com a bola, bons passes e visão de jogo, como no toque de três dedos que largou o Baixinho na frente do goleiro camaronês nos 3 a 0 sobre a seleção africana.

Mas ainda o jogador que trabalhava para a dupla de ataque brilhar. Com Mauro Silva, os “cães de guarda” que garantiam a subida dos laterais Jorginho e Leonardo, depois Branco. Seleção de Parreira que prezava a posse de bola para controlar o jogo. Trabalho associativo apenas dos meias Raí, depois Mazinho e Zinho se apresentando como apoios para os laterais.

Só que o futebol mudou demais nos últimos vinte anos. Mais ainda nos últimos cinco, depois do bom trabalho do Dunga treinador novato em 2009, nem tanto no ano da Copa da África do Sul. Pep Guardiola trouxe inovações, José Mourinho, Carlo Ancelotti e Jurgen Klopp as respostas que levaram o jogo para trinta metros de campo e exigem equipes inteligentes. Atacando prontas para defender e compactas sem a bola já preparadas para a transição ofensiva. Jogo posicional e reativo alternando o tempo todo. Organismos mutantes.

Dunga ainda crê nos volantes cobrindo laterais. O crime com Elias, hoje meia no 4-1-4-1 de Tite no Corinthians e restrito à contenção junto com Luiz Gustavo. Em tese para cobrir Daniel Alves e Marcelo. Na prática, prendendo seis jogadores atrás diante do Chile em Santiago e criando um abismo entre estes e o quarteto ofensivo.

Com a bola, nem sinal do jogo apoiado, com aproximação para criar linhas de passe. Cada um fica entregue à própria sorte. E para resolver sozinho, hoje, só Neymar. Por isso sentem tanta falta de mais um craque. A diferença para subverter a tática e a estratégia, como fazíamos no passado.

Não fazemos mais. E não por conta de uma involução nossa, mas pela evolução do esporte. Cada vez mais coletivo. Todos marcam, todos jogam. Muitas vezes sem a bola, apenas abrindo espaços. Dinâmica que o Brasil de Dunga não faz, porque o técnico não entende e os jogadores, mesmo com muitos trabalhando com os melhores treinadores na Europa, aceitam submissos. Preferem sofrer calados.

O retrato de hoje, em preto e branco, é que nos falta o básico, não o diferente.