O REINO DOS FOGUETES MOLHADOS

Por Dassler Marques

Para cada Cesc Fàbregas, um Sergio Santamaria. Para cada Landon Donovan, um Sinama Pongolle. Tem o alemão Toni Kroos, mas também tem o nigeriano Sani Emmanuel.

Em ação desde a última semana no Chile, o Mundial Sub-17 cria prodígios especiais em proporção menor aos inúmeros jogadores que serão esquecidos pelos anos seguintes. Apresentada acima, a lista de bolas de ouro da história do torneio dá o tom sobre o que se pode projetar dos gramados chilenos para o futuro. De certeza, certeza mesmo, quase nada.  

É justamente entre os 16 e os 17 anos que os aspectos comerciais passam a ter uma influência decisiva na carreira de cada atleta. Grandes contratos, como o de Lulinha com o Corinthians, ou grandes imbróglios, como o de Matheus Índio com o Vasco, nascem depois de desempenhos destacados pelas seleções sub-17.  

Em 2001, pouco depois do Europeu da categoria, o Liverpool achou ter feito um grande negócio ao comprar do Le Havre os franceses Sinama Pongolle e Anthony Le Tallec, campeões e maiores destaques do torneio. Meses depois, quando a França também ganhou o Mundial, os Reds ficaram ainda mais convencidos do acerto. Sinama e Le Tallec nunca vingaram. Nem em Anfield Road, nem no futebol.  

As armadilhas aparecem no caminho logo depois do Mundial. O processo de transição, seja por pressões comerciais ou técnicas, será acelerado. Nem todos estão preparados para dar respostas rápidas, como Lulinha provou em 2007. Mas, no futebol, os obstáculos sempre podem surgir: Bola de Ouro em 2005, Anderson virou herói da Batalha dos Aflitos pouco depois e logo chegou ao Manchester. Nem por isso conseguiu uma carreira de sucesso. 

No Mundial Sub-17, cada país também tem seus objetivos. Seleções africanas, em sua maioria, privilegiam a luta pelo título em lugar da construção de um melhor futuro. Escolhem quem são, no momento da competição, os jogadores fisicamente mais desenvolvidos e que podem dar respostas mais rápidas. Não à toa, Gana (2) e Nigéria (4) somam seis títulos e cinco Bolas de Ouro. Destes, nenhum chegou a jogar a Copa do Mundo adulta.  

A sobreposição dos aspectos físicos aos técnicos, nesse estágio, é mais forte que no sub-20. Aos 17 anos, há garotos com corpo de adulto, como Mosquito, centroavante ex-Vasco descrito como promissor em 2013 e agora na segunda divisão espanhola. Aos 17, também há garotos com corpo de adolescente, como Iniesta, destaque no Mundial 2001. Também há extraterrestres, como Messi: aos 17, já era Bola de Ouro do Mundial Sub-20. 

Entre todos os dilemas que envolvem o Mundial de dois em dois anos, ainda há um fundamental que a Fifa é incapaz de solucionar. Nesse cenário em que o aspecto físico é determinante, jogadores nascidos em anos ímpares, aos 16, raramente conseguem disputar o torneio dominado por atletas de 17.  

Em média, assim, só 40% a 50% das promessas passa pelo Mundial Sub-17 da Fifa. Quantos chegarão à Copa do Mundo adulta? Pouquíssimos.  

OBS.: A expressão foguete molhado, popularmente usada para as promessas que não estouram, foi cunhada pelo genial amigo Gustavo Vargas nos bons e memoráveis tempos do Olheiros.net.