O TREINADOR ANTI-HERÓI

Por Luís Aguilar, autor de Mourinho Rockstar 

Escrevo esta crônica numa das piores fases da carreira esportiva de José Mourinho. O jogo entre o Chelsea e o Southampton acabou há poucos minutos. E os londrinos voltaram a perder. Foi a quinta derrota na Premier League nas primeiras oito jornadas. Estes não são números de Mourinho. Não fazem parte da sua realidade vencedora. E o que diz ele no final de mais este desaire?

«Não me demito. Se me despedirem, estarão despedindo o melhor treinador da história do Chelsea.» Este já é um discurso à Mourinho. Na vitória ou na derrota. No topo do mundo ou no fim da tabela. Mas sempre sem demonstrar fraqueza, sempre sem se ajoelhar e baixar os braços. Exemplo de força para uns, arrogante e lírico para outros. Conflituoso para quase todos. Indiferente para ninguém.

Sou português. Como ele. Acompanho a sua carreira desde que era tradutor de Bobby Robson no Sporting (primeiro) e no FC Porto (depois). Desde que seguiu para Barcelona, onde aprendeu com o técnico inglês e trabalhou com o holandês Louis Van Gaal, agora seu rival no Manchester United. E continuei a seguir com especial interesse e admiração a sua escalada supersônica até se tornar um dos melhores e mais carismáticos técnicos de todos os tempos. Depois dos degraus iniciais e polêmicos no Benfica e no União de Leiria, rumo à coleção de títulos e medalhas no FC Porto, Chelsea, Inter, Real Madrid (de modo intermitente) e, novamente, Chelsea.

Mourinho é uma figura rock’n’roll num esporte cada vez mais pulverizado por estrelas pop sem tempero, que privilegiam a imagem ao invés do conteúdo. Homens viciados em discursos politicamente corretos. Homens presos em palavras vazias – tantas vezes falsas – e cabeças ocas.

Mourinho é a antítese moderna desse futebol fast food, retirado de um universo Pleasantville, onde parecer é mais importante do que ser. Traz a rebeldia do rock para palcos cheios de boys band enfadonhas. Sim, Mourinho é um rockstar. Para o bem e para o mal. E um anti-herói que tantas vezes se transforma em vilão.

Lembro uma frase que incluí no meu livro Mourinho Rockstar. Pertence ao espanhol Francisco Alcaide, perito em gestão empresarial, e foi escrita pouco tempo depois da chegada do treinador português ao Real Madrid: «Muitas pessoas perguntam-me o que tem Mourinho que fascina uns e outros, ainda que não o digam. Mourinho está para o futebol como o doutor House para as séries de televisão. A priori são personagens que a lógica diz que deveriam ser repudiados pelo grande público. Parecem “cheios de si”, são altivos, provocadores, com uma certa prepotência e presunção e, no entanto, as pessoas gostam ou, pelo menos, para muitos são atraentes ou despertam interesse.»

Alcaide salienta ainda que figuras como Mourinho atraem porque «dizem coisas que a maioria das pessoas não se atreve a dizer e transformam-se num exemplo face à nossa covardia». «Os bons chegam até a ser tontos, porque, apesar das rasteiras que nos pregam a vida e os amigos, reagem sempre bem», conclui.

Retratei Mourinho da forma como o vejo. Um rockstar e um anti-herói. Tenho o orgulho de ver essa imagem captada em palavras chegar agora ao Brasil, através da editora Grande Área. Espero que este meu livro, como esta nova e corajosa editora, façam parte do universo literário brasileiro durante muitos anos. Por outro lado, não sei onde vai estar Mourinho daqui a um ano. Nem daqui a um mês. Nem daqui a uma semana. Mas tenho uma certeza: seja onde for, os acordes do seu rock vão continuar sendo ouvidos. Com a polêmica e a estridência do costume. E os shows estarão sempre esgotados. Por aqueles que o amam e que o odeiam. Ele nunca vai permitir que seja de outra forma.