MOVIDO A FATO NOVO

Por Rafael Oliveira

Vinte e cinco trocas de treinador em vinte e nove rodadas. A média atual mantém viva a chance de um recorde nada invejável para o Campeonato Brasileiro 2015: o de edição de pontos corridos com mais mudanças de comando. Desde que a principal competição nacional passou a ter 20 clubes em 2006, o ano de 2010 segue insuperável com 31 trocas.

Tite, Levir Culpi e Gilson Kleina são os sobreviventes do que poderia ser um reality show em que apenas um pode sair vencedor. O retrato da cultura do imediatismo e das decisões passionais. Na divisão de elite do “país do futebol”, apenas um técnico segue no clube em que trabalhava em 2014 (Levir).

Falar em longevidade por aqui é utopia. E por mais que o discurso da necessidade de mudanças tenha se repetido desde a Copa de 2014, na prática, a “bolha” segue abafando as tentativas de novas ideias, que surgem quase por geração espontânea. A culpa geralmente é direcionada para o despreparo dos treinadores, ainda sem mercado nos principais centros europeus.

Mas o Brasileirão 2015 mostra um fenômeno diferente. Ao final do primeiro turno, era possível apontar um número considerável de bons trabalhos, e algo ainda mais raro: times com estilos e propostas de jogo bem definidos. Não por acaso, Ponte Preta, Atlético-PR, Sport e Chapecoense tiveram bons momentos, e o nível médio de organização tática alavancava a qualidade da competição. Poucas semanas ou meses depois, nenhum deles segue com o mesmo técnico.

Verdade que alguns deixam o cargo por opção profissional (Eduardo Baptista e Argel, por exemplo), mas outros são incríveis vítimas do próprio sucesso. Guto Ferreira, Milton Mendes e Vinicius Eutrópio que o digam. Seus times renderam acima das expectativas e eles pagaram pela natural queda de aproveitamento. Mas quando avaliação de desempenho e pés no chão fazem parte do futebol brasileiro?

Como definiu a diretoria do Inter no episódio Diego Aguirre, demitir pode ser apenas a busca por um "fato novo". A goleada no Grenal gerou a inevitável piada, mas o termo resume bem a cultura das mudanças. Por que se troca o comando no Brasil? Porque há a necessidade de mostrar atitude, e apenas ter convicção na escolha anterior não soa como uma opção popular.

E o impacto na temporada? Que temporada? O olhar raramente enxerga além do próximo jogo ou próxima semana. Com ele, a necessidade de julgamentos definitivos e verdades absolutas a cada partida. Culpados e salvadores. Nunca o meio-termo. A obsessão pelos extremos está impregnada no universo do futebol brasileiro, seja nas diretorias, na imprensa ou no torcedor. Demitir vira um evento mais importante do que escolher quem contratar, até porque o resultado esperado é o das rodadas seguintes, e não exatamente o futuro de quem muitas vezes já chega com data de validade.

A própria ausência de uma linha na busca por sucessores já evidencia a falta de rumo. Perfis opostos frequentemente dividem a mesma lista de alvos de quem vai ao mercado. Muitos dirão que os resultados justificam. De fato, sempre existe o risco de acertar, além do conformismo com discursos como “tirar os jogadores da zona de conforto” . Conceitos que fazem, por exemplo, com que um treinador bicampeão nacional não seja visto como o mais indicado para reerguer o nível de um elenco em reconstrução e que ele conhece melhor do que qualquer outro.

A transformação do Grêmio com Roger é um raro exemplo realmente positivo, em que a percepção de evolução e boas ideias independe da conquista imediata de títulos. O salto do Santos com Dorival também é inegável. O problema é que a sensação pode se tornar descartável rapidamente, como o tempo mostrou para Petkovic, na Série B. Não espanta a frustração de Juan Carlos Osorio com a realidade encontrada por aqui. A abreviação do trabalho do colombiano foi uma nova oportunidade perdida de superar rótulos rasos e perseguições por conta de nacionalidade.

E o ciclo segue em frente. Mudanças emergenciais que geram clima de urgência. Quem chega precisa sacudir o ambiente e apostar nas estratégias de curto prazo para conseguir resultados imediatos. Desenvolver uma filosofia, aplicar uma metodologia e criar um estilo: passos que certamente contribuiriam para a evolução do nível do futebol, mas que exigem tempo. E quem tem tempo ou estabilidade?

Nesse ambiente impróprio para o desenvolvimento de ideias, novidades não são bem-vindas. O sistema alimenta a mediocridade, mesmo sabendo que existe qualidade em profissionais que ali tentam trabalhar. O Brasileirão 2015 é um claro exemplo. O primeiro turno ter tido mais times em bom nível do que a primeira metade do segundo só reforça a noção de eterna reconstrução. Mas é a lei da sobrevivência. Enquanto não mudar minimamente a maneira de pensar, salvo exceções, a estrutura do futebol brasileiro sequer permitirá a real avaliação da capacidade de um treinador para desenvolver um trabalho com início, meio e fim.