A ULTRAPASSADA OBSESSÃO PELO CLÁSSICO 10

Por Rafael Oliveira

Quando um time não funciona da maneira ideal, frequentemente vem o diagnóstico: "falta um camisa 10". Simples e objetivo. Quantas vezes por ano ouvimos a discussão no Campeonato Brasileiro? Aquele símbolo de categoria, classe e qualidade. A frase não é exclusividade do Brasil, mas se não for adaptada aos conceitos atuais, apenas contribui para a cultura da individualidade que carrega e tenta compensar um conjunto problemático. De fato, é indiscutível que é melhor contar com um craque para resolver em um lance, mas a transformação da função merece maior atenção.

No último domingo, Mesut Özil terminou o clássico contra o Tottenham como líder do Arsenal em distância percorrida. Uma estatística que surpreende mais do que as dez assistências do alemão em doze rodadas ou o fato de ter a melhor média de assistências da história da Premier League. Özil sempre teve a brilhante capacidade de achar espaços e criar jogadas, mas a fragilidade defensiva ajuda a entender (não necessariamente concordar) a saída do jogador do Real Madrid. Juan Mata passou por um processo parecido no Chelsea, antes de ser negociado para o Manchester United.

O número do dérbi londrino é sintomático para observar as mudanças táticas nos últimos anos e os exemplos de times que funcionam sem essa figura. Se olharmos para as escolas alemã e espanhola, detectamos as variações. O meia cerebral não é obrigatoriamente o meia central que a figura do "10" pede. Esquemas mais frequentes nos últimos três anos, 4-3-3 e 4-1-4-1 eliminam tal posição.

A evolução (se é que podemos chamar desta forma) do 4-2-3-1 para o 4-1-4-1 passa pelo entendimento de que é preciso integrar as três peças centrais de meio-campo. Assim, o time ganha volume e aproximação, além de evitar aquele cenário dos volantes que apenas protegem o armador. Pois, cada vez mais, é fundamental contar com o trabalho com e sem a bola de todos em campo. Não há verdade absoluta. Clubes continuam jogando no 4-2-3-1, geralmente entendendo o meia cerebral (quando mais lento ou “preguiçoso”) como um atacante na hora da recomposição, o que exige disciplina tática dos pontas para defender com duas linhas. O risco é ter um a menos na ocupação de espaço na faixa central do campo.

A adaptação de certos jogadores ajuda a entender a exigência do futebol atual. A Alemanha mostra exemplos interessantes. Toni Kroos era o meia avançado do 4-2-3-1 do Bayern e virou o homem do primeiro passe com Guardiola e Ancelotti, organizando e ditando o ritmo à frente da defesa. O já citado Mesut Özil tem mais características do "10" tradicional. Aquele que resolve em um passe, mas requer cuidados especiais do time no trabalho defensivo. Se atrás do centroavante existe cada vez menos espaço e tempo, o meia precisa armar recuado ou pelos lados. Em qualquer das alternativas, a exigência sem a bola aumenta. Özil sofreu para se adaptar ao lado do campo, já que funciona melhor centralizado. Na Espanha, Isco e David Silva são camisas “10” capazes de armar partindo do lado para dentro, enquanto Iniesta e Thiago são meio-campistas criativos que compõem o trio central

Quem tem uma interessante explicação sobre o fenômeno é Jürgen Klopp. Recentemente, o treinador disse que o melhor meia do mundo é o "gegenpressing" (marcação pressão para retomar a bola logo após a perda da posse, contra-atacando o contra-ataque adversário). Roger Schmidt, outro técnico promissor na escola da intensidade alemã, desenvolve a ideia em uma ótima entrevista ao site MarcadorInt (http://www.marcadorint.com/bundesliga/roger-schmidt-nunca-quise-ser-entrenador/): "antes, simplesmente se tentava levar a bola ao meia para esperar um brilho, mas o futebol evoluiu brutalmente, é muito mais intenso e há muito menos espaço. A maioria dos times já não marca individual, e sim o espaço, dificultando mais. Por isso, a posse é bem mais fácil no momento imediato em que recupero a bola: se perco a bola no ataque e a recupero logo depois, no mesmo setor, encontro as situações antes produzidas por um meia".

A dinâmica do jogo atualmente praticado na Alemanha e em alguns outros países exige diferentes adaptações do antigo 10: como atacante, ponta ou meio-campista. Voltando ao caso de Özil, que tem a quarta maior média de distância percorrida do Arsenal em 2015/16 (fonte: Opta), a posição varia de acordo com a exigência do adversário. Contra o Bayern, por exemplo, Wenger inverteu as peças de seu 4-2-3-1 durante os 90 minutos para apostar na velocidade de Alexis Sánchez como um incômodo maior à saída de bola de Xabi Alonso. Assim, com alguma frequência Özil vira o meia aberto, como jogou na Copa do Mundo de 2014 com Joachim Löw.

No Brasil, o Corinthians de 2015 é um bom exemplo. Embora Jádson seja tratado como o tal "10" (que realmente foi na maior parte da carreira), ele ocupa o lado direito da linha dos quatro meias. Renato Augusto já é um caso de meio-campista que organiza jogando alinhado ao volante da infiltração (Elias). Em um time equilibrado, temos a prova caseira de que é possível ter dois armadores sem que nenhum ocupe a posição do mítico "10".

O futebol é cíclico. Esquemas e tendências mudam cada vez mais rápido. Portanto, não é possível descartar a volta do clássico "10" como solução dos problemas. Muito menos dizer que é impossível funcionar assim. Afinal, o esquema por si só não é certo ou errado. Mas hoje, com a velocidade que o jogo requer, o armador está em outros lugares do campo. Cabe ao time entender o jogo coletivo e ao jogador talentoso compreender as exigências do futebol atual.