FIM DA DANÇA?

Por Rodrigo Salomão 

Na última terça-feira, Gilson Kleina foi demitido do Avaí. Poderia ser uma notícia trivial, como qualquer outra que vemos quase toda semana no Brasileirão, mas não é só isso. A demissão de Kleina simbolizou a queda de um dos três técnicos que até então eram remanescentes em seus clubes na elite do futebol nacional. Agora só sobraram Tite, que treina o líder Corinthians, e Levir Culpi, comandante do vice-líder Atlético-MG. Uma incômoda situação, que se reflete no alarmante número de trocas de treinadores neste campeonato até o momento: 30 em 34 rodadas. 

Considerando que o recorde é de 31, em 2010, a estatística atual mostra que não houve qualquer evolução no quesito paciência para trabalho a longo prazo por parte de quem gere os clubes. Os resultados imediatos ainda se sobrepõem à análise minuciosa e aprofundada do papel de um treinador. Sem amarras para contratar ou rescindir com esses profissionais, a função do dirigente fica facilitada. Quando o time não corresponde e a torcida cobra, transfere-se a responsabilidade, fala-se em “injetar ânimo novo” e vida que segue para demitir o próximo dali a três meses novamente. Aplicação tática leva tempo, e eles parecem ignorar tal fato. 

Apesar do panorama complicado, novas ideias para mudar o quadro vêm começando a surgir no futebol brasileiro. O Campeonato Paulista de 2016 saiu na frente e decidiu, por meio de seu Conselho Técnico, assumir como regra a limitação de contratações e mudanças de técnicos ao longo da competição. Na prática, a Federação proibirá que um clube da série A-1, ao demitir seu técnico, o troque por outro treinador da mesma divisão. Mesmo que resolva trocar e opte por um treinador de outro estado (ou divisão), o clube precisará homologar um acordo com o antecessor na própria Federação para, só depois, estar apto a promover a substituição.  

Trata-se de uma regra que, apesar de parecer restritiva ao trabalho dos técnicos, tem apoio da maioria deles, que aplaudiu a medida. A ideia é muito simples: com tantos obstáculos para se trocar de treinador, o clube planejará com muito mais responsabilidade, tanto no campo prático quanto financeiro. E isso gera maior estabilidade aos “professores”. Em tese, claro. 

Vale destacar que esse tipo de limite não é inédito no futebol. Nos campeonatos mexicano e italiano, por exemplo, existem restrições similares. Aqui no Brasil, já começaram a pipocar teses jurídicas de advogados que entendem tratar-se de uma “proibição ilegal”, vedada pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Ora, não há que se falar nisso, assim como não se aplica a CLT a restrições de jogadores atuarem por determinados clubes dentro de um limite de jogos antes de se transferir no Brasileirão. Ou até mesmo o limite de dois clubes por temporada, como manda a FIFA. São regras especiais ao mundo do desporto e, particularmente, do futebol. 

É claro que a limitação imposta de nada servirá se não houver riscos de punição a quem contrata, seja por responsabilidade financeira com os gastos do clube ou técnica com tudo que já foi dito até aqui. A intenção da regra é, num primeiro momento, bem interessante e pode gerar frutos. Atletas que costumam não se empenhar tanto quando não gostam de determinado “chefe” ou que perdem pênaltis de propósito para derrubá-lo pensarão duas vezes ao saber que dificilmente o treinador cairá por sua causa.  

Talvez seja o certo por linhas tortas, já que o ideal é oferecer melhores condições de trabalho e estrutura, com respaldo e profissionalismo por si só. No entanto, coibir a conduta de limar técnicos por qualquer razão ou circunstância se mostra cada vez mais necessário. Obviamente, nada apagará uma escolha errada no início de um trabalho. No Paulistão, de apenas três meses, o risco é menor. Imaginem numa competição como o Brasileirão? O buraco é ainda mais embaixo.  

Serão necessários muito estudo e cautela, além de total atenção às metas num longo prazo, alinhavadas para o restante do ano. O famoso “pé no chão”. Como exemplo recente está a Sampdoria, do citado campeonato italiano: Walter Zenga foi demitido esta semana após rápidos 14 jogos no comando técnico do time. Ilustração importante de que há o limite e que ele dificulta, mas não proíbe por completo. A imposição visa que demissões sumárias sejam exceções, não regra. 

A palavra-chave é responsabilidade. Os dirigentes, antes de planejar qualquer tipo de objetivo, precisam pensar no treinador como uma peça tão importante quanto um jogador. Testemunhamos tantas contratações equivocadas feitas pelos clubes e que perduram até o final do vínculo, sempre com uma chance aqui e outra ali para o atleta tentar dar a volta por cima, mas raramente há essa tolerância com os técnicos. Por que não?  

O resultado da experiência tende a ser no mínimo curioso. A dança das cadeiras que vemos acontecer religiosamente todos os anos poderá dar lugar a maestros com tranquilidade para reger suas orquestras. E os cartolas terão que dançar conforme a música, seja ela boa ou ruim.