COMO SERÁ O FUTEBOL DO FUTURO?

Por André Rocha

Está claro que há algum tempo vigora uma hierarquia no planeta bola. Incluindo seleções, a primeira prateleira conta com Barcelona e Real Madrid, as equipes dos extraterrestres Messi e Cristiano Ronaldo, mais o time de Pep Guardiola – no caso, o Bayern de Munique. Mesmo que Juventus, Atlético de Madri e Borussia Dortmund tenham surpreendido e chegado às finais da últimas edições da Liga dos Campeões, essa é a lógica esportiva e midiática.

Nos mais recentes confrontos oficiais envolvendo estas três potências, Barça e bávaros mostraram nas semifinais da última edição do torneio continental um pouco da excelência atual que sinaliza o futuro do esporte: linhas próximas, troca de funções, mobilidade, pressão sobre o homem da bola em todas as partes do campo. Não foi raro ver Schweinsteiger na lateral direita, Thiago Alcântara como o homem mais recuado do Bayern e Busquets como o mais avançado do Barcelona.

Os números dos sistemas táticos eram irrelevantes diante de verdadeiros organismos dinâmicos, mutantes. Avanços físico e conceitual sobre as revoluções da Hungria na década de 1950 e de Brasil e Holanda na primeira metade dos anos 1970. Dois dos melhores times do planeta apontando o caminho.

Como será o amanhã? Difícil fazer previsões, mas há fortes tendências, ao menos nas disputas de mais alto nível que, com o passar do tempo, arrastam praticamente todo o resto: intensidade alta, pressão no adversário com a bola assim que se perde a posse – o “gegenpressing” de Jurgen Klopp, que nada mais é que a evolução das ideias de Rinus Michels nos anos 1970 aprimoradas por Arrigo Sacchi na década seguinte e nos últimos sete anos por Guardiola.

Como resposta a tanta agressividade na busca da retomada da pelota será obrigatória a precisão técnica. Domínio e passe, com milésimos de segundo para pensar e executar. Para todos, inclusive zagueiros e goleiro. Com setores cada vez mais conectados, a tendência é que a “hierarquia” na qualidade técnica – atacantes são melhores que meio-campistas que são melhores que defensores – fique mais sutil. Versatilidade é a palavra. Todo mundo precisa marcar e jogar.

E correr. Esqueça o “quem corre é a bola”. Até Guardiola, que preza tanto a posse, diz a seus comandados: “Vocês podem errar um passe ou uma jogada, mas não podem parar de correr”. Não por acaso, Xavi Hernández, então treinado pelo catalão no Barcelona, foi líder em distância percorrida no Mundial de 2010. Na Copa no Brasil ano passado, o líder foi outro meio-campista que tenta ditar o ritmo: Michael Bradley dos Estados Unidos. Média de 11 quilômetros por partida. 

Outra tendência mundial é de que o aproveitamento mínimo de 90% nos passes se torne quase uma obrigação, mesmo para quem não pretende propor o jogo. Porque errar pode significar gol do oponente.

Para administrar tanta intensidade e pressão a inteligência será fundamental. Para dosar ritmos, acelerando e desacelerando. Sístoles e diástoles controlando o jogo. Os últimos vencedores da Liga dos Campeões souberam variar o ataque posicional e o jogo de transição de acordo com a necessidade.

Trabalhando a bola com Modric e Kroos, e em com seguida Busquets, Rakitic e Iniesta entre as intermediárias, para que Bale, Benzema e Cristiano Ronaldo e depois Messi, Suárez e Neymar decidissem para Real e Barcelona. Questão de leitura em campo que Guardiola aprimora no Bayern combinando o toque de Thiago Alcântara com a explosão de Douglas Costa se juntando aos artilheiros Muller e Lewandowski.

Não por acaso, José Mourinho vai ficando para trás. Não só pelos problemas internos, de gestão de grupo. Especialmente por fazer questão de se posicionar como o "anti-Guardiola" e exagerar no pragmatismo. Flexibilidade e equilíbrio são soluções melhores e mais práticas. 

No Brasil, o Corinthians de Tite é o melhor exemplo de equipe que controla e entende a hora de colocar velocidade para resolver a partida. Uma evolução em relação ao “Galo Doido” que tantas vezes corre mais que o necessário e sofre no segundo tempo se não decidir na primeira etapa. Por isso Jadson e Renato Augusto são tão fundamentais. Ainda assim, nada comparado às potências mundiais.

Imagine um jogo com cada vez menos faltas e erros de passes. Intenso, mas também técnico e inteligente. Ainda com craques para decidir nos últimos vinte metros. Para horror dos saudosistas, o futebol do presente já agrada os olhos menos “viciados”. E o futuro promete.