INIMAGINÁVEL

Por André Kfouri

“O Madrid é uma vítima do nosso futebol”.

Era novembro de 2009 quando essa frase foi ouvida na sala de imprensa da Ciudad Deportiva do clube catalão, durante uma entrevista de Xavi Hernández, então o segundo capitão do time. O Barcelona enfrentaria e venceria o Real Madrid dois dias depois, no Camp Nou, com um gol de Zlatan Ibrahimovic que foi subitamente esquecido quando Luis Suárez decidiu o clássico do último mês de maio, e sentenças sobre o “fim do futebol de posse” (gol de lançamento para o centro-avante, uma aparente heresia) sob o comando de Luis Enrique foram lançadas ao vento. O que une os gols do sueco e do uruguaio, além do número nove às costas, é um passe longo de Dani Alves. E todos conhecemos a obra coletiva construída a partir de 2008.

Um dos assuntos daquela entrevista coletiva era a tese do time da cantera contra o time da carteira, o choque da equipe feita em casa com o esquadrão montado a peso de ouro. Florentino Pérez estava de volta ao trono do Real Madrid e, com ele, a ideia dos galácticos se renovava após as contratações de Cristiano Ronaldo e Kaká. O comentário de Xavi observava a reação consumista de Pérez a uma temporada em que Pep Guardiola estreou conquistando seis troféus pelo Barcelona. “Eles gastaram muito dinheiro por causa de nossas vitórias”, ele disse.

Xavi. Filho de Guardiola, neto de Cruyff, bisneto de Michels. Intérprete e condutor de um estilo de jogar futebol que é o idioma do clube onde nasceu e responsável por conquistas tão importantes pelo “o quê” quanto pelo “como”. Uma maneira de vencer que desnuda mentiras sinceras sobre o jogo, desmente a existência de conflitos entre o modo e o objetivo, separa treinadores entre os que têm a coragem de jogar e os que sucumbem ao medo de fazê-lo. Uma abordagem que, como lentes de contato, permitiu a clubes e seleções uma nova forma de enxergar o jogo, e terminou por influenciar a Espanha e a Alemanha, últimas campeãs do mundo.

Guardiola está em Munique, Xavi no Catar, mas a frase de sete anos atrás se tornou atual nesta semana, quando uma notícia surpreendente levou a uma ponderação inimaginável: o círculo mais próximo a Guardiola tem recebido sondagens de diversos clubes, interessados na possibilidade de o técnico pegar o avião após o terceiro ano no Bayern. Um desses clubes, acredite, foi o Real Madrid. A resposta foi negativa, dando razão a quem pensa que jamais veremos Pep Guardiola trabalhando com Florentino Pérez ou em pé à frente do banco de reservas dos mandantes no Santiago Bernabéu. Mas a questão aqui é a ideia, não suas probabilidades. E a ideia pinta um retrato do que se passa nos escritórios do clube da capital espanhola.

Antes de prosseguirmos: quem deu a notícia foi o jornalista catalão Isaac Lluch, correspondente de vários meios de comunicação em Munique. Lluch cobre o Bayern diariamente e é tão próximo de Pep Guardiola quanto um jornalista pode ser. Por mais surreal que uma sondagem do Real Madrid a Guardiola pareça, a informação merece todo o crédito. É fácil imaginar que essa possibilidade jamais seria considerada no Bernabéu, mas foi, e isso reforma o que pensamos que sabemos a respeito do momento atual do gigante branco.

A demissão de Carlo Ancelotti, após uma temporada em que o Barcelona conquistou Liga, Copa e Champions, é uma atualização da frase de Xavi em 2009. O Real Madrid continua sendo uma vítima do jogo catalão. Ancelotti é o técnico que deu a tão esperada décima Liga dos Campeões ao clube, mas não resistiu a um ano sem conquistas e foi consumido pelas expectativas inalcançáveis mencionadas por Pérez. É quase incompreensível que um técnico querido pelos jogadores e admirado pela torcida seja dispensado dessa forma, mas, por algum motivo, essa é a norma no Real Madrid. De fato, a norma para técnicos, além de comandar o time, é também administrar o presidente, responsável pela política de contratações que permite dizer que o Madrid de Florentino não é um clube de futebol, mas uma empresa de entretenimento que tem um time de futebol.

Essa política produz um ambiente interno eternamente volátil, cuja dinâmica é afetada pelas tensões entre pequenos grupos dentro do elenco. É assim desde a era dos primeiros galácticos, quando havia basicamente um ressentimento entre espanhóis e estrangeiros, por causa de remuneração, holofotes e lugares no time. Atualmente, há também o grupo dos jogadores que trabalham com o superagente português Jorge Mendes, uma herança do período de José Mourinho. O manejo de um time com essas características até um título como o da Liga dos Campeões é mais um testemunho da capacidade de Ancelotti, provavelmente o melhor técnico do mundo sob a ótica da adaptação às distintas condições e exigências de grandes clubes europeus. Ancelotti foi campeão com Berlusconi, com Abramovich, com os xeques catarinos e com Florentino Pérez. E com sistemas de jogo diferentes em cada clube. Não se demite um técnico capaz disso.

O simpático italiano tem passado o tempo pescando e esperando o momento de voltar ao futebol. Em seu lugar, Rafael Benítez mal começou a trabalhar e já sente a temperatura do banco. Seu Madrid foi destruído por 4 x 0 no último clássico, em casa e sem precisar enfrentar Messi por setenta minutos. O único argumento de defesa de Benítez foi ter escalado a formação preferida de Florentino e dos torcedores que dizem que ganhar não basta, pois querem ser entretidos. Talvez por isso o espanhol tenha conservado seu emprego após um resultado tão dramático. O que não impede, obviamente, que telefones toquem, mensagens de texto sobrevoem fronteiras e “soluções” sejam apresentadas às deliberações de Pérez. Uma delas responde pelo nome do homem que vitimou o Real Madrid. É como se Florentino estivesse dizendo: “Querem jogo? Querem beleza? Então preparem seus corações”.

Xavi estava certo.