O CHAMADO DA FORÇA

Por André Kfouri

 

“O medo é o caminho para o lado escuro.
O medo leva à raiva. A raiva leva ao ódio.
O ódio leva ao sofrimento"
Yoda

 

A noite que durou quarenta e cinco anos estava completa. Os milhares de italianos que viajaram a Madri se faziam ouvir no Santiago Bernabéu, enquanto os minutos que não importavam mais se consumiam em campo, antes da celebração. Diego Milito, autor dos dois gols que derrotaram o Bayern, viu seu número exibido pelo auxiliar no meio do campo, e iniciou a caminhada sob ovação total. À beira do gramado, Marco Materazzi o aguardava para saborear apenas alguns segundos da decisão da Liga dos Campeões, um presente oferecido pelo técnico que estava a seu lado. “Fica”, disse o zagueiro, “em nenhum outro lugar o amarão tanto como aqui”.

O troféu erguido naquela noite foi o terceiro da temporada. A Internazionale completou um ano glorioso, com Zanetti, Sneijder e Eto’o. Com o trio de brasileiros, Júlio César, Lucio e Maicon. Todos jogadores de pedigree mundial, reunidos em um time que superou expectativas e opiniões. Mas nenhum nome era dito com mais orgulho ou escrito em letras maiores do que o de José Mourinho. O treinador português era o arquiteto da tríplice coroa, o gênio tático que construiu um time vencedor, o líder venerado pelos jogadores que conduzia, protegia, encantava. A Inter campeã de tudo na Itália e campeã da Europa pela primeira vez desde la grande Inter de Helenio Herrera era uma obra de Mourinho.

“Fica”, pediu Materazzi.

Mourinho não podia ficar. Horas depois de vê-lo passear pelo gramado do Bernabéu carregando a segunda “orelhuda” de sua carreira, o mundo soube que o estádio do Real Madrid seria a futura casa do técnico considerado, à época, o melhor entre os melhores. A cena do abraço, com o mesmo Materazzi, em prantos, quando o zagueiro ia para o ônibus e Mourinho deixava o estádio em um carro, deve ter inspirado o torcedor madridista. Não era a despedida de um jogador a um técnico com o qual gostou de trabalhar. Era o adeus emocionado de um futebolista a uma época que não se repetiria. José Mourinho personificava a vitória. Foi a última vez.

Os anos em Madri o modificaram de tal forma que a percepção pública passou a tratá-lo como um personagem em crise de imagem. Mourinho rapidamente deixou o papel do vencedor nato que não se importava em ser querido fora do vestiário, e encarnou um vilão reticente que não era capaz de unir o próprio time em torno de suas ideias. Apenas dois títulos em três temporadas – a décima copa europeia, objetivo de sua contratação, seria conquistada no ano seguinte à sua saída – marcariam um período em que o Real Madrid teve de lidar com a elevada tensão interna e externa criada por Mourinho, expediente com o qual ele pretendia desestabilizar o Barcelona. Enquanto Mourinho tentava convencer elencos multimilionários a jogar futebol reativo e controlar a arbitragem, Pep Guardiola revolucionava o jogo no Camp Nou.

 

“Impressionante. Obi-Wan o ensinou bem.
Você controlou seu medo. Agora, libere sua raiva.
Só seu ódio pode me destruir”
Darth Vader para Luke Skywalker

 

Na saga de “Guerra nas Estrelas”, Darth Vader é o pai de Luke Skywalker. Transportando-a para a história de Mourinho e Guardiola, precisaremos de uma autorização para alterar as relações de parentesco: pensemos neles como irmãos. Mourinho é Vader, Guardiola é Luke. O pai deles, Obi-Wan, é Johan Cruyff. Apesar de à primeira vista soar estranho, é correto imaginar Mourinho como um técnico “cruyffista”. Simon Kuper fez essa observação em texto recente, no sentido de que enquanto os treinadores influenciados pelo gênio holandês enxergam o futebol como constante criação de espaço por intermédio da posse e da criatividade, Mourinho se especializou na ideia contrária: a negação do espaço ao adversário, com a consequente punição implacável ao erro de quem tem a bola. Dois lados da mesma filosofia. Não é coincidência que a maneira de treinar de ambos seja muito semelhante, em conceitos e prática.

Mourinho e Guardiola se conheceram e trabalharam juntos no Barcelona, muito antes de se transformarem em técnicos que representam vertentes de futebol que parecem conflitantes, mas que emanam da mesma fonte. Imagine-os como dois irmãos que cresceram sob os mesmos ensinamentos e os mesmos valores. Algo acontece no meio do caminho, um deles deixa a família e passa a cultivar a antítese do que aprendeu. Se a bola é a Força, é imediato notar Guardiola do lado claro e Mourinho do escuro, cada um alimentado por sentimentos distantes, que se negam, mas são igualmente poderosos. Mourinho tentou estimular o ódio de Guardiola durante o período em que habitaram a mesma liga, mas obteve, no máximo, uma entrevista coletiva mais inflamada, na véspera do jogo de volta das semifinais da Liga dos Campeões de 2010/11. É impossível – felizmente – que Pep seja convertido pelo lado escuro da Força, tal é sua convicção pelo jogo. Mas seria possível que Mourinho voltasse para casa?

Horas depois de sua demissão do Chelsea, essa parece a única solução para uma carreira que está diante de uma encruzilhada. As teses que tentam explicar o momento ruim de Mourinho – a síndrome do terceiro ano no mesmo clube, quando o desgaste se torna irrecuperável; e o fim do ciclo de cerca de dez anos no topo do futebol, algo que já se passou com outros treinadores renomados – merecem crédito, mas não o ajudarão a reencontrar seu caminho se Mourinho não passar pela transformação que se impõe a quem foi ultrapassado pelo jogo. Além dos métodos, da forma de se conduzir no ambiente privado e público, além de sua persona egocêntrica e fabricada para consumo, é a maneira de Mourinho praticar futebol que precisa de reforma. O jogo se encaminhou para o lado claro da Força e chegou a hora de engolir o orgulho e estender a mão.

Talvez o exemplo mais completo do que Mourinho é atualmente seja a forma como ele foi comunicado de sua demissão. Enquanto almoçava com funcionários do Chelsea e todo o elenco de jogadores, no tradicional encontro de fim de ano do clube, executivos acertavam os últimos detalhes para a reunião em que Mourinho seria dispensado. Ele se levantou da mesa, entrou em uma sala e saiu após dez minutos. De volta ao mercado. Tente combinar essa sequência de eventos com o José Mourinho pré-2010. Simplesmente não é possível. Jamais aconteceria com aquele treinador de vanguarda e adorado pelos jogadores, imagem que seus apologistas insistem em vender em dias atuais, em claro conflito com os fatos.

Mourinho também continua a se apresentar como se fosse sua versão de cinco anos atrás. Seja insuflando seu currículo ou expondo seus jogadores à execração, ele permanece em uma atitude superior que não convence justamente pela ausência do único pilar que lhe parece importante: o resultado. Se vencer é só o que interessa, não sobra nada quando não se vence, e essa é a mensagem que os jogadores do Chelsea têm enviado a aqueles que prestam atenção. Quando se compara a trajetória do time londrino na Premier League e na Liga dos Campeões, a diferença de postura é escandalosamente suspeita. E quando se adiciona ao debate a declaração do diretor técnico Michael Emenalo – “obviamente havia uma discórdia palpável entre técnico e jogadores, e era hora de agir” – , é fácil perceber um grupo de jogadores que virou as costas a seu técnico e tentava expressar esse descontentamento sem comprometer as duas competições que disputa. Nada pode ser mais anti-Mourinho (pensando no antigo Mourinho) do que isso.

O curioso é que Mourinho não está obsoleto. É a maneira como ele aplica seu conhecimento que está. A necessidade de estimular a tensão, o hábito de jogar joguinhos em vez de jogar o jogo, o desejo de ser o vilão charmoso e, acima de tudo, o investimento no futebol defensivo, opaco, resultadista. É possível que, sozinho, ao lembrar das conversas sobre futebol com seu irmão, há tantos anos, ele até sorria. Aí está o caminho para o lado claro. Ele será capaz?

 

“Talvez um covarde seja apenas um lutador
que ainda não foi provocado o bastante...
Ou que ainda não conhece o caminho”
Obi-Wan