OS CLUBES QUE SABEM REVELAR NO BRASIL

Por Dassler Marques

Você já ouviu falar em Marcelo Teixeira e Sandro Orlandelli?

É possível que não. Mas, entre muito que têm em comum, eles são os principais responsáveis por dois programas de talentos que dão certo no futebol brasileiro. No cenário de diretorias carentes de qualquer tipo de filosofia de trabalho, plantaram sementes que frutificam.

O encontro desses projetos - projetos de verdade - ocorreu domingo na Arena da Baixada. O Fluminense que tem Teixeira como gerente de futebol desde o início da gestão de Peter Siemsen venceu o Atlético-PR e chegou à vice-liderança do Brasileiro. Enderson, o treinador que Peter idealizava há anos, mandou cinco pratas da casa a campo.

Dois desses jogadores, Gustavo Scarpa e Marcos Júnior, são frutos do programa de empréstimos idealizado por Marcelo Teixeira. A ideia é que os jovens passem por outras equipes, amadureçam sua formação e voltem para o Flu.

Mesmo que o desempenho fora seja ruim, como foi com Marcos Júnior, eles podem retornar e ficar.  O Flu, ao contrário da maioria no Brasil, entende que a formação do jogador passa dos 20 anos, então oscilar até essa idade é natural. Wellington Nem foi o primeiro desses casos que deu certo. O mais novo é Biro Biro, que brilha cedido à Ponte Preta desde o início do ano.

O Atlético-PR foi outro a notar que o grande problema para os jovens jogadores no Brasil, mais que na formação, está na transição aos profissionais. Por isso, e também por crer que o atleta é formado até 23 anos, revolucionou a base com times Sub-18 e Sub-23 no lugar do tradicional Sub-20. Essa política aumentou de forma sensível a revelação de talentos desde 2013.  

Antes, o frágil Campeonato Paranaense servia para iludir os atleticanos nos primeiros meses da temporada. Há três anos, faz a transição base-profissional com o time sub-23 que abastece de jovens talentos ao time A. Léo, Zezinho e Douglas Coutinho (2013); Léo Pereira, Otávio, Hernani e Marcos Guilherme (2014). Todos passaram pelo último estágio da base, exatamente como pensava o diretor Sandro Orlandelli, que deixou o clube na temporada passada.

Teixeira e Orlandelli trouxeram da Inglaterra o conhecimento e a experiência para colocar esses programas em prática. Marcelo foi observador técnico do Manchester United, mesmo cargo ocupado por Sandro no Arsenal. No futebol inglês que hoje prefere comprar a revelar, os sucessivos empréstimos e os times sub-21 são os recursos mais comuns para fazer a transição.

No Brasil, quase ninguém tem pensado nesse processo como o Atlético-PR e o Fluminense, mas quem pensa há mais tempo ainda é o Internacional e seu time B. Diego Aguirre está a um empate de levar o Colorado à final da Libertadores -  a equipe ideal dele tem seis jogadores que passaram pelo time sub-23.

É lá, em partidas pelo interior gaúcho, que os talentos são lapidados e têm mais liberdade para errar. Há tempo para entender as diferenças entre o jogo da base e do profissional.

Com o chapéu na mão e a vergonha no chão, o futebol brasileiro precisa olhar mais para Fluminense, Atlético e Inter.

Firulas

#1

Entre os 11 clubes grandes da primeira divisão, só o Palmeiras não tem um jogador feito em casa com menos de 23 anos entre os titulares. Paulo Nobre prefere comprar pronto.

#2 
Um dos líderes da Série B, o Bahia é outro que aposta tudo em seu trabalho de base. Sérgio Soares põe em média seis pratas da casa em seu time titular.

#3
O Corinthians promoveu o centroavante Gabriel Vasconcellos e 35% do elenco já é formado pela base. Mas o único que Tite escala é Malcom, revelado por Mano Menezes.