CRUYFF E O BIG MAC

Por André Kfouri

Simon Kuper, co-autor de “Soccernomics”, escreveu há alguns dias um artigo para o ESPNFC (http://www.espnfc.com/blog/espn-fc-united-blog/68/post/2529129/johan-cruyff-influence-at-ajax-and-barcelona) sobre o declínio da influência de Johan Cruyff na rotina dos clubes nos quais o nome do genial holandês se tornou lendário. O inventor do futebol moderno – palavras de Kuper – hoje leva uma vida de aposentado, afastado do processo de tomada de decisões no Ajax e no Barcelona.

Os conceitos de Cruyff, no entanto, estão enraizados no futebol de forma tão profunda a ponto de marcar um período com impressões digitais inconfundíveis, como comprova uma declaração de Fabio Capello, reproduzida por Kuper ao final de seu texto. “A era de Guardiola é um dos três grandes legados da história moderna do futebol: a era de (Arrigo) Sacchi (no Milan), a era dos holandeses e a era do Barça”, disse o técnico italiano. Como salientou Kuper, nenhuma dessas três épocas existiria sem a influência de Johan Cruyff.

O “Cruyffismo” – se podemos utilizar o termo – é o futebol de posse, obcecado pela bola e pelo ataque. É o jogo de domínio posicional, em que os movimentos ofensivos devem ser construídos desde o campo de defesa. É o estilo mais bem definido pelo sistema 4-3-3. Marcação alta, pressão coordenada sobre a bola, criação de espaço e desorganização do adversário por intermédio da troca de passes. Uma visão de futebol que só é possível com supremacia técnica, o que determina a escolha de jogadores antes de aspectos como tamanho e força.

Há vários técnicos que aplicam as ideias de Cruyff em suas equipes, evidência do legado mencionado por Capello. Outros optam pelo antídoto a elas, o que também as corrobora. De forma bastante simplista, o futebol de hoje se divide entre dois tipos de estratégia: jogar com a bola e jogar com o espaço (o Barcelona de Luis Enrique é o único time atual capaz de apresentar essas duas personalidades, com a mesma eficiência). O futebol de posse é mais complexo, mais trabalhoso e mais arriscado. Times “cruyffianos” exigem treinadores obsessivos, jogadores inteligentes e treinamentos com demandas rigorosas dos pontos de vista físico e mental. Quando surge uma equipe que alcança o nível mais alto dessa escola de jogo (retorne à declaração de Capello), o futebol encontra sua versão do debate entre alta gastronomia e fast-food.

É curioso que não haja nenhuma equipe “cruyffiana” no Brasil, país que se acostumou a cultivar orgulho da qualidade técnica de seus jogadores. O motivo mais aparente é o fato de nossos técnicos, especialistas em sobrevivência, serem condicionados a montar times cujos alicerces são a capacidade defensiva e a transição rápida, intérpretes do que Louis Van Gaal (provavelmente não por coincidência um desafeto de Cruyff) chama de “futebol reativo”. Essas equipes, como o Big Mac que chega ao balcão em trinta segundos e mata sua fome em pouco mais do que isso, têm um período de formação mais curto e apresentam resultados mais rapidamente. Assim, satisfazem dirigentes que não se preocupam com o processo, preservam ambientes e empregos. O método também favorece a adaptação às mudanças constantes, muitas vezes dentro da mesma temporada.

Um bom exemplo é o Corinthians de 2015, que começou o ano exibindo um futebol vistoso que evocava conceitos modernos e a intenção de jogar bem. Os conhecidos problemas estruturais do futebol brasileiro causaram a erosão do que se construía, seja pela incapacidade de honrar compromissos ou pela necessidade de se desfazer de jogadores. Tite se viu obrigado a reformar seu time durante o voo, e o que se vê hoje é uma equipe essencialmente defensiva, distante da fluidez demonstrada no início, mas que ainda assim ocupa os primeiros lugares da tabela do Campeonato Brasileiro. Tal qual o chef que abriu um restaurante com planos de oferecer uma cozinha autoral, mas por conta de dificuldades financeiras teve de alterar o rumo e passou a servir kebabs. A fila é grande na hora do almoço, o negócio paga as próprias contas, o chef se contenta por fazer o melhor com o que tem disponível.

Os times brasileiros mais bem sucedidos dos últimos anos são o Corinthians de Tite (passagem anterior, obviamente) e o Cruzeiro de Marcelo Oliveira. Ambos tinham muitas qualidades em comum, como virtudes táticas que saltavam aos olhos e evidenciavam tanto o trabalho dos técnicos quanto o nível dos jogadores. Como equipes, eram mais do que a soma de suas peças, algo que não ocorre por sorte ou acaso. Mas foram dois prodígios do espaço, que não se caracterizavam pelo que se chama de futebol de posse. Saborosos kebabs, por assim dizer.

Até a décima-quinta rodada do Campeonato Brasileiro de 2015, as equipes que lideram os índices de posse de bola (números da Footstats) são o São Paulo e o Cruzeiro, ambas com 54% e fora do G4. O Atlético Mineiro, primeiro colocado, fica com a bola por 53% do tempo em média. O Corinthians é o vice-líder em pontos, com 48% de posse. Como Cruyff diria, o futebol que ele criou vai muito além da quantidade de tempo em que uma equipe tem a bola em seu poder. A bola é a ferramenta para desenvolver ideias e apresentar argumentos. Os sanduíches do McDonald’s e os pratos que estrelam o cardápio de restaurantes do Guia Michelin têm muitos ingredientes em comum.