O PARADOXO DA PRESSA QUE TRAVA O FUTEBOL BRASILEIRO

Por André Rocha

Não é raro no Brasil nos depararmos com a seguinte cena: time A ataca o B lançando a bola para um dos lados do campo e acelerando a jogada. Sai o cruzamento e o atacante, mesmo dividindo com o zagueiro, consegue finalizar. Ainda que o chute ou o golpe de cabeça passe longe da meta adversária, a torcida faz o tradicional “Uhhh!”, vibra e canta. Muitas vezes regida pelo próprio jogador que isolou a bola.

Agora imagine que o lateral ou meia, antes de cruzar, concluísse que não seria a melhor jogada e voltasse para trabalhar melhor a bola. Se fosse necessário, até recuaria para o goleiro com o objetivo de ficar com a bola, criar espaço e aguardar a oportunidade mais clara para finalizar. Não é absurdo concluir que na maioria dos nossos campos esse time levaria uma vaia ensurdecedora.

Porque o futebol brasileiro tem pressa. Um ciclo imediatista que parte do dirigente que contrata o treinador exigindo uma resposta instantânea em resultados. Muitas vezes acontece, por despertar reservas e acomodados com um “fato novo”. Mas pode não durar, exatamente pela dificuldade de “trocar o pneu com o carro andando”.

Bem diferente do cenário ideal, que seria escolher o profissional na virada do ano, de acordo com as características da base do elenco disponível e deixar trabalhar por toda a temporada.

Faltam tempo e convicção. Por isso as 13 demissões de técnicos na Série A em 17 rodadas. O último, Diego Aguirre, dispensado pelo Internacional depois de um título estadual e a melhor campanha do país na Libertadores. A cobrança é ainda mais cruel com os estrangeiros quem ainda estão se adequando ao idioma e à cultura e já caminham hesitantes na corda bamba.

A pressa. De vencer, de finalizar o lance. Do jogo de “trocação” de golpes, como uma luta de Rocky Balboa. Com guarda baixa, briga de rua. Por isso, Juan Carlos Osório, técnico colombiano do São Paulo, já detectou que o brasileiro é mais emocional e menos inteligente.

Uma coisa necessariamente não exclui a outra. Mas atrapalha a tomada de decisão. A incoerência: por aqui se valoriza o lado lúdico, romântico e dramático como uma crônica de Nelson Rodrigues. Mas a cobrança por resultado é fria, pragmática. Análise de placar.

Há medo. Do erro, da derrota, da perseguição, do desemprego. Para que correr riscos? Um técnico campeão brasileiro disse certa vez a este que escreve: “o problema é quando você tem a bola”. Parece mais prudente deixá-la com o oponente e esperar ele errar.

Por isso a pelota bate e volta. Mesmo Atlético Mineiro e Corinthians, os times no topo da tabela da primeira divisão, não controlam as partidas. Com o passe horizontal que cadencia, muda a rotação, dita o ritmo. Aguarda a oportunidade mais cristalina.

Andrade, volante do Flamengo multicampeão nos anos 1980 que envolvia o adversário na base do toque refinado, explica que rodar a bola com calma faz o adversário cansar ou desconcentrar e deixar alguém livre para receber o passe limpo e finalizar com liberdade e mais chances de acerto.

Paciência que termina em gols, vitórias e taças. Um bom exemplo para o nosso futebol que trava porque tem pressa. O maior e mais complicado de nossos muitos paradoxos.