QUESTÃO DE CONVICÇÃO

Por André Kfouri

O que está acontecendo no São Paulo é um sintoma de um problema crônico do futebol brasileiro: somos refratários ao que é diferente; enxergamos quem não é “um de nós” como um forasteiro com quem não se deve perder tempo. Em parte é porque “somos pentacampeões” e achamos que, em qualquer conversa sobre futebol, falamos primeiro e só ouvimos se o papo estiver muito interessante. Em outra parte, por causa de um sentimento de proteção territorial que não é exclusivo de nossa terra.

Pep Guardiola, acredite, tem enfrentado problemas no Bayern de Munique por entender que só um elenco mais latino pode entregar o tipo de futebol que ele pretende. Ele está substituindo jogadores alemães no clube que se orgulha de sua identidade nacional, uma atrocidade para mentes tradicionalistas. E as críticas não se fazem ouvir porque o Bayern não ganhou a Liga dos Campeões com Guardiola (quem leu “Guardiola Confidencial” sabe que ele não foi contratado para conquistar um título, mas para moldar um caráter). O problema é que um Bayern miscigenado é uma afronta para muitos alemães.

Se um técnico como Pep Guardiola sofre resistência – fora do clube, não dentro – porque está alterando a mentalidade germânica do Bayern, a vida de nomes menos estrelados realmente não deve ser fácil em certos países. Especialmente aqueles em que, como aqui, a primeira pergunta que se faz sobre a possibilidade da chegada de um treinador estrangeiro é: ganhou o quê? Mas esta coluna não é sobre Guardiola ou sobre a Alemanha. É sobre o dilema Juan Carlos Osorio no São Paulo, e nossa resistência ao engajamento sincero na troca de conhecimento no futebol.

No plano teórico, parece óbvio que o ambiente do futebol de qualquer país só tem a ganhar ao receber treinadores estrangeiros. A exposição a novos métodos amplia a capacitação de profissionais, em uma relação benéfica para os dois lados. Especificamente em um país como o Brasil, em que o carrossel dos técnicos gira com os mesmos nomes trocando de lugar, às vezes, com horas de diferença entre a demissão e o novo emprego, o arejamento do mercado é ainda mais importante. Mas os obstáculos se manifestam, na prática, quando o recém-chegado é submetido ao mesmo rigor imediatista que ceifa trabalhos com pouco tempo de duração. Seguimos preocupados com o produto final, ignorando o processo. E quando surge uma voz que evoca outra metodologia e promete paciência, não cumpre, porque a questão principal nada tem a ver com paciência, mas com convicção.

O caso do São Paulo é exemplar. Em abril, quando o clube procurava treinadores para substituir Muricy Ramalho, Carlos Miguel Aidar deu uma entrevista em que declarou textualmente que procurava um profissional com “conhecimento científico”. O nome de Osorio ainda não aparecia na pauta, concentrada nos argentinos Alejandro Sabella e Jorge Sampaoli. Não há como interpretar a ideia de outra maneira: o São Paulo buscava um jeito diferente de fazer as coisas, outro regime de treinamentos e gerenciamento do elenco, enfim, outra visão de futebol. Por razões distintas, as conversas com Sabella e Sampaoli não frutificaram, e Osorio chegou. Ele descobriria em menos de três meses que as ameaças a seu trabalho não se resumem à diferença entre as condições que lhe foram oferecidas e o que, de fato, ele tem em mãos.

O êxodo de jogadores do Morumbi desde a contratação de Osorio – oito, e em alguns casos, o titular e também o reserva – é algo tão constrangedor que até a diretoria reconhece publicamente que “falhou com ele”. Mas concordemos, por um instante, que ainda mais dramática é a situação financeira dos clubes brasileiros, de modo que o comando são-paulino goza do benefício da dúvida de ter depenado o elenco por uma questão de sobrevivência. E lembremos, por óbvio, que esse aspecto não tem absolutamente nada a ver com a nacionalidade do treinador. Trata-se de um armageddon técnico que prejudicaria a qualquer um.

A questão principal é que o compromisso com o novo exige um posicionamento compatível. Osorio deveria usufruir da garantia de que seu trabalho não será minado, de nenhuma forma, a médio prazo. Que só será cobrado na próxima temporada, e que o clube não dará ouvidos ao potencial descontentamento da torcida ou, muito menos, tolerará o fogo amigo que já atormentou tantos treinadores. Seja de dentro do vestiário ou dos gabinetes. Mas o futebol brasileiro é tão peculiar que, em um clube com o São Paulo, após um resultado frustrante, o técnico pode receber uma mensagem por WhatsApp de um conselheiro. Ainda se fosse uma demonstração de apoio, ok. Mas pelo que Osorio disse no domingo passado, o teor da comunicação foi bem diferente.

Juan Carlos Osorio está habituado a enfrentar resistências. Quando foi trabalhar no Millonarios de Bogotá, em 2006, chegava de seis temporadas como membro da comissão técnica do Manchester City, na preparação física. Seu método de treinamento, sempre envolvendo a bola durante os exercícios, incomodou os especialistas locais e chamou a atenção para o que era “uma invenção”. Ele afirma que a experiência o ensinou a não levar tais dificuldades para o lado pessoal, o que talvez seja uma proteção para seguir aplicando os conceitos nos quais acredita. Ao dizer ao São Paulo que continuará no Morumbi, apesar do assédio da seleção mexicana, Osorio age como alguém que tomou a decisão profissional e familiar de viver no Brasil. Seus filhos adolescentes já foram aceitos em uma escola paulistana. Falta ele ser totalmente aceito pelo clube que o contratou.