A ERA DOS INTERMEDIÁRIOS

Por Rafael Oliveira

No futebol, como em qualquer outro universo, nem sempre é fácil compreender a dimensão de um momento histórico no exato período em que ele ocorre. Na Inglaterra, a temporada 2015/16 é encarada com essa importância pelos clubes.

A última grande transformação do futebol inglês foi a criação da Premier League. Desde 1992/93, o Manchester United venceu 13 dos 23 títulos disputados. Apenas outros quatro foram campeões (Chelsea 4, Arsenal 3, Man City 2 e Blackburn 1) - dois deles como consequências do enorme investimento estrangeiro, outra novidade determinante no século XXI.

O melhor jogador do último Campeonato Holandês (Wijnaldum), o artilheiro do Belga (Mitrovic), o líder de assistências do Francês (Payet), um meio-campista da seleção francesa (Cabaye), outro da seleção holandesa (Clasie), e por aí vai... O que há em comum? Todos foram contratados por clubes intermediários da Inglaterra: Newcastle (15º), West Ham (12º), Crystal Palace (10º) e Southampton (7º), no caso.

O fenômeno é consequência do novo contrato de televisão assinado no início de 2015. Com os mais de 5 bilhões de libras (£) pagos pelos direitos de transmissão no triênio 2016-19, cada partida terá um preço médio superior a £10 milhões para as emissoras britânicas. O salto é de 70% em relação ao triênio anterior.

Na Premier League, metade do dinheiro de tv é dividido igualmente entre os clubes, com 25% variando de acordo com a classificação do ano anterior e outros 25% de acordo com fatores como o número de transmissões. Em 2014/15*, convertendo para Euro (€), o campeão Chelsea recebeu €139 milhões, enquanto o lanterna QPR ganhou €91mi. Para ter uma ideia, a Juventus, campeã italiana, faturou €94mi. Campeões na Alemanha e França, Bayern e PSG receberam €51mi e €45mi, respectivamente. Apenas Barcelona (€160mi) e Real Madrid (€157mi) estão acima, mas a distribuição espanhola é a mais desigual, com o Valencia, terceiro em arrecadação, faturando €48mi, e o caçula Eibar apenas €14mi.

Com a estimativa de um salto de 67%, o lanterna da elite inglesa ganhará pelo menos €140mi, muito mais do que quase todos os clubes do continente. Os números assustadores consolidam a Premier League em um patamar econômico apenas comparável ao das ligas americanas, mas com uma diferença fundamental e perigosa: o rebaixamento.

O dinheiro só entra a partir de 2016/17, mas os clubes sabem a importância de antecipar o que pode ser um novo capítulo na história do futebol inglês. É estar no lugar certo na hora certa. E isso vale ainda mais na segunda metade da tabela, já que o abismo financeiro para a Championship também crescerá. Na segunda divisão, cada clube atualmente recebe da tv cerca de £2mi por temporada. Mesmo com o "sistema paraquedas" (os rebaixados ganham um bônus para amortecer o impacto da queda), o buraco entre os mundos pode causar graves consequências para quem não retornar imediatamente para a elite (casos recentes de Blackpool, Wigan, Wolves, Birmingham, Bolton, entre outros).

No novo cenário, importantes ligas nacionais se tornam economicamente secundárias. E no "mercadão europeu", mais do que nunca o desafio é saber gerir. Se todos têm recurso financeiro, a capacidade de observação vira a chave para fortalecer o time e gerar novas receitas com transferências futuras. O principal exemplo é o Southampton. Não por acaso, foi quem mais subiu degraus desde 2011, quando estava na terceira divisão. Novamente com bom mercado, pensa alto ao adotar o discurso de luta por Champions League. Referência nacional na transição da base para o elenco principal, o clube cria opções caseiras para o elenco, preenche o requisito de jogadores formados em casa e ainda colhe os frutos com as vendas no inflacionado mercado interno.

Mas nem só dos intermediários vive a Premier League. Enquanto os números reafirmam o poder da liga, o desempenho internacional despencou desde o domínio no fim da década passada. Nas últimas quatro edições da Champions League, apenas o Chelsea se destacou, com um título e uma semifinal. Em dois dos últimos três anos, o país sequer teve representante nas quartas. O reflexo é a queda no ranking de coeficientes da Uefa, que define o número de vagas por campeonato. Seria uma enorme contradição perder uma das vagas no momento de maior valorização da competição nacional. Ou nem tanto? Na Inglaterra, já se discute o impacto que a competitividade interna pode causar no calendário, e até qual merece maior peso. Justificativas – ou desculpas - à parte, o fato é que, hoje, os gigantes nacionais não são dominantes como as principais potências do continente (Barcelona, Real Madrid e Bayern). Um desafio a mais é diminuir a diferença.

Líder de investimento na janela de transferências, o Manchester United é quem gera maior curiosidade. Mesmo mais pronto, o tamanho do favoritismo do Chelsea é inferior ao do início de 2014/15. Man City e Arsenal também são candidatos. Desde a explosão global do Campeonato Inglês no início dos anos 2000, um clube nunca foi campeão com menos de 70% de aproveitamento: o último a fazer menos de 80pts foi o Man Utd em 1998/99, com 79. Equilíbrio nem sempre significa qualidade, mas, nivelada por cima, a expectativa para a Premier League 2015/16 está no tamanho do desafio que os favoritos terão a cada rodada diante dos novos milionários do resto da tabela.

* Valores do levantamento de @RobertoBayon_