E SE OS NÚMEROS DOMINAREM O FUTEBOL?

Por Rafael Oliveira

Para muitos, Midtjylland é apenas uma palavra difícil e cheia de consoantes. Mas em um mercado europeu que encerrou a janela de transferências com bilhões gastos, são os clubes menos badalados que muitas vezes apresentam os casos mais interessantes.

Na última semana, um papo rápido de redação levantou a curiosidade sobre a facilidade no acesso a números antes vistos apenas em esportes americanos. É fato: a cultura de esportes como beisebol ou futebol americano é totalmente voltada para a análise através de estatísticas. Até por ser algo mais recente e pela diferença na dinâmica do jogo, ainda não existe tamanha naturalidade por aqui. Pelo contrário: há uma resistência.

A pergunta do título é retórica. O futebol já foi dominado pelos números há algum tempo. A questão é quem tira melhor proveito deles, e como. Para muitos, ainda existe um pecado em enxergar de uma forma mais científica ou matemática.

É óbvio que o esporte não é uma ciência exata, até porque envolve diversos fatores fundamentais, como físico, técnico, tático e psicológico. São infinitas as variáveis dentro de uma partida e, ao contrário de outros esportes, não há interrupção a cada jogada ou troca de posse de bola. Com menos recomeços programados, o universo de possibilidades só aumenta a cada ação ou movimento.

Mas nem por isso todo o volume cada vez mais complexo de informações pode ser simplesmente descartado. As estatísticas nunca tornarão o jogo previsível, mas ajudam a entender, analisar e até antecipar aspectos que podem ser decisivos. Logo, não se trata de violar o imaginário do esporte, mas de preparar-se melhor enquanto clube, time ou jogador. Basta comparar o nível de detalhe de uma análise atual com 10 ou 15 anos atrás para notar a enorme transformação.

FC Midtjylland é um clube dinamarquês que, em 2015, conquistou a principal divisão nacional pela primeira vez. Após cair nas fases preliminares da Champions League, eliminou o Southampton e garantiu a inédita participação na fase de grupos da Liga Europa 2015/16. O feito do clube de apenas 16 anos de existência chama mais atenção pela filosofia de seu sócio majoritário. Matthew Benham personifica o outro extremo na discussão sobre números no futebol.

Para o milionário que construiu sua fortuna através de apostas, a informação é a base. Ele inclusive criou uma empresa de estatísticas para abastecer o mundo dos apostadores profissionais. E transportou toda a complexidade de seus dados para a gestão de um clube.

Um não, dois. Em 2012, Benham comprou o modesto Brentford, seu time de infância. Em 2014/15, além do título na Dinamarca, obteve uma campanha fantástica logo na primeira temporada na segunda divisão inglesa, parando apenas nos playoffs do que seria um meteórico salto para a Premier League. Coincidência?

Parte da filosofia dos clubes está na busca por aspectos objetivos. Tudo o que pode ser transformado em número para análise é tratado como prioridade. Obviamente com recursos extremamente elaborados, e não de uma forma simplista. O que interessa para ele é como cada jogador desempenha em determinada situação ou setor de campo.

O limite da mentalidade foi testado no início de 2015, quando o Brentford fazia grande campanha e anunciou a saída do treinador Mark Warburton para o fim da temporada. Era o passo seguinte: estabelecer uma hierarquia em que a matemática está acima da comissão. Os números tomam decisões técnicas, como na busca por reforços viáveis no mercado, sem a subjetividade da emoção, que superdimensiona o momento e “cega” aos olhos da ciência fria da estatística.

A política de transferências foi a justificativa oficial para o fim da relação com o treinador que havia subido da terceira para a segunda divisão. Um exemplo: Andre Gray, artilheiro do time em 2014/15, chegou da quinta divisão e um ano depois saiu como a maior venda da história do Brentford.

Para todos, jogador ou elenco, existe uma análise de dados que produz uma expectativa de desempenho (individual e coletivo), consciente de que o resultado no futebol muitas vezes é mais aleatório do que lógico. Para esse tipo de lacuna, entra o papel da comissão e da convicção. Mas Benham já declarou: em caso de dúvida, confia nos números.

Não é a primeira e tampouco será a última vez que o assunto “Moneyball” ganha espaço no futebol. Ao mesmo tempo, desumanizar a gestão e o olhar de forma tão radical chega a ser assustador. Não existe fórmula exata para obter sucesso em campo, pois é um universo distante da certeza matemática dos computadores. O curioso é ver a filosofia ser implantada pelo próprio dono, o que garante continuidade no projeto.

Mesmo entendendo o caso como extremo na relação entre a frieza da análise e o calor do jogo, será interessante observar o desenvolvimento da ideia nos resultados dos dois clubes nos próximos anos. Na Dinamarca, o Midtjylland já largou na frente em 2015/16. Será o início de uma hegemonia nacional?