O FUTEBOL SEM SISTEMA

Por André Kfouri

O Bayern de Munique jogou sem zagueiros outro dia, pelo Campeonato Alemão. Ganhou do Bayer Leverkusen por 3 x 0. Ao ler “sem zagueiros”, obviamente, deve-se entender que não havia na escalação nenhum jogador que fosse zagueiro por formação. Ou por posição, essa palavra antiga. Lesões dos especialistas do elenco obrigaram Pep Guardiola a escalar Xabi Alonso e David Alaba para jogar como zagueiros, algo que eles evidentemente sabem fazer. Na verdade, mais correto seria dizer que Alonso e Alaba jogaram como defensores, na área do campo normalmente ocupada por zagueiros.

Só que era uma linha de três. Bernat atuou pelo lado esquerdo, bem alto em relação a Alaba. Ou será que era uma linha de quatro, com Lahm à direita em caráter mais defensivo, na mesma altura do austríaco, permitindo que Alonso se aproximasse do meio de campo para controlar o fluxo de passes? Ou talvez não fosse nem uma coisa e nem outra, pois o desenho da defesa no início do jogo era assimétrico a ponto de sugerir uma linha de quatro jogadores em que o lateral-direito desapareceu, pois Lahm surgia ao lado de Alaba, onde, em tese, Alonso deveria estar. (para o deleite dos amantes dos diagramas, com o devido pedido de desculpas aos que não gostam tanto: era um 3-3-1-3 que passava a 3-4-3 que passava a 4-3-3 quando Alonso recuava).

Ok. O Bayern controlou o jogo com impressionante fluidez. Teve 66% de posse, com 738 toques (96 de Alonso e 77 de Alaba) na bola, que produziram 87% de passes curtos. Douglas Costa e Arjen Robben atormentaram seus marcadores pelos lados, Lewandowski teve fartura de espaço pelo centro do ataque. Jogadores em constante movimentação e trocando posições levaram os mais entusiasmados a evocar o Futebol Total holandês. Para quem entende o jogo como um exercício de circulação da bola para gerar dúvidas e enganos, foi uma exibição digna de documentação para fazer parte de qualquer manual. E repetindo: o placar – porque sempre haverá quem mantenha vivo o argumento de que nada mais tem importância – foi 3 x 0.

O bom desempenho do Bayern sem zagueiros formais sustenta os conceitos de Guardiola quando o assunto é escolha de jogadores: a tese de que sempre devem jogar os melhores, que os melhores são aqueles que têm coragem e não perdem a bola, e que o ideal seria formar uma equipe com onze meio-campistas. Sim, onze, porque o goleiro também precisa saber jogar com os pés em um time que pretende ocupar o campo do adversário e não sair de lá. A montagem de elenco segue o mesmo raciocínio. Em vez de ter um titular e um reserva para cada posição, enfatizando a especialidade, Guardiola prefere jogadores capazes de executar dois ou até três papéis. Além de oferecer soluções e possibilidades de alterar o caráter do time durante um jogo, sem que seja necessário fazer substituições, reunir futebolistas camaleônicos permite a Guardiola satisfazer o desejo de trabalhar com elencos enxutos.

Ele agia da mesma forma nos anos de Barcelona, onde também venceu jogos com escalações pouco convencionais, nas quais o improviso não era uma obrigação, mas uma opção. Um desses jogos foi a abertura do Campeonato Espanhol da temporada 2011-12, quando o Barcelona atuou com apenas um defensor puro contra o Villarreal. Sem Dani Alves, Puyol e Piqué, Guardiola montou a defesa com Abidal, Busquets e Mascherano. O time iniciou o jogo em um 3-4-3 bem claro, com os quatro do meio (Keita, Iniesta, Thiago Alcântara e Fàbregas) formando o célebre diamante. Mas apenas dois jogadores de linha mantiveram suas posições durante todo o tempo: Busquets, na função de central, e Keita, o vértice mais baixo do diamante. No ataque, Aléxis Sanchez e Pedro abriram o campo pelas laterais, com Messi pelo meio. Setenta e quatro por cento de posse, 766 passes, 18 chutes a gol e vitória por 5 x 0 no Camp Nou. Um monólogo.

Essas duas partidas não podem ser explicadas, e por consequência, compreendidas, sem mencionar a organização dos jogadores em campo e de que forma suas interações construíram os movimentos desejados por Guardiola. Ao mesmo tempo, a tática não é a principal responsável por tudo o que acontece no gramado. O foco exagerado em sequências de números e esquemas pode levar à desvalorização de outros aspectos que também nos contam, com o mesmo grau de relevância, as histórias desses encontros. As equipes de Pep Guardiola são especialmente interessantes neste contexto, por partirem de uma ideia organizada que se move em constante alteração durante o curso de um jogo, comportamento que justifica a frase do catalão sobre sistemas serem “números de telefone”. O que importa de fato é como as peças abandonam essa configuração estática para ganhar vida – e jogos e títulos – com a bola.

Menotti, um pensador do jogo, explica as confusões de maneira peculiar: “Uma vez fui dar uma palestra e um garoto me perguntou de qual sistema eu gostava mais. Respondi: ‘o 4-5-1’. Fez-se um silêncio tremendo: ‘Ninguém vai me perguntar nada?’ Outro garoto levantou a mão e disse: ‘César, é muito defensivo...’ Perguntei a ele: ‘Te parece?’ Agora vou nomear os cinco [do meio]: Gérson, Clodoaldo, Pelé, Rivellino e Tostão... e o ponta é Jairzinho. E mais Carlos Alberto e Everaldo, que eram mais atacantes do que laterais’. Então... diga-me seu nome e te direi quem és. Quando você vê uma escalação em campo e os jogadores que estão no banco, se dá conta do que o técnico pretende. Porque se você diz ‘doble cinco’ [dupla de volantes] e os dois ‘cinco’ são Riquelme e Messi, não são os ‘cinco’ que querem para essa definição...”.

Alguém já disse (me penitencio aqui por não recordar quem foi) que a tática é como a roupa: pode ser diferente em vários aspectos, mas o que lhe confere personalidade é a pessoa que está por dentro. O sistema de uma equipe é uma declaração de intenções, a maneira como ela pretende superar o oponente levando em conta virtudes e defeitos de ambos os lados. Nenhuma disposição fixa de jogadores em campo jamais explicará como um chute da entrada da área desviou na perna de um zagueiro e surpreendeu o goleiro no contrapé. Mas é possível entender como o lance se desenrolou até o instante do chute, se o posicionamento da defesa estava correto, etc, por padrões de interações que compõem as ideias de atuação de cada time. Isso é tática.

A posição, como algo rígido, deixou de existir faz tempo. Foi substituída pela função, um conjunto de ações com e sem a bola que um determinado jogador precisa ser capaz de executar – independentemente de sua formação e do número de sua camisa – para ocupar um lugar em organismos chamados times de futebol. Mas as equipes mais modernas na interpretação do jogo coletivo têm nos apresentado a evolução da função: deixa-se de considerar apenas o papel isolado de um jogador para investir nas associações entre ele e aqueles com quem mais interage. Talvez isso não tenha nome, o que importa menos do que seu efeito. Para times que se movem como se fossem apenas um ser, como o Bayern de Guardiola, não fará sentido falar nem mesmo em sistema. O futebol caminha para esquecer as convenções.