LUCAS LIMA, O MEIA ACELERADOR

Por André Rocha

Mundial de 2006. Não de futebol, na Alemanha. Vôlei masculino, no Japão. A seleção brasileira, dominante à época comandada por Bernardinho, se reinventa para ganhar mais um título e assombra o planeta com o levantador Ricardinho acelerando todas as bolas, mesmo as de passe “quebrado”. O distribuidor se lançava na direção da bola e com um toque rápido fazia chegar em alta velocidade para o companheiro.

Três sets a zero na final sobre a Polônia com um voleibol de sonho que se dissipou pelos problemas pessoais entre treinador e líder da equipe no ano seguinte. Nunca saberemos o que poderia ter saído dali na sequência.

Guardando todas as diferenças entre os esportes e proporções, sem nenhuma pretensão de comparar, também vemos no futebol brasileiro um articulador que faz a transição ofensiva ficar ainda mais rápida, alimentando a velocidade dos atacantes.

Lucas Lima, meia do Santos. Camisa dez que não lembra Pita, muito menos Pelé. Chamou atenção do Internacional jogando pela Inter de Limeira, passou pelo Sport em 2013. Mas seu futebol só foi explodir mesmo na Vila Belmiro ano passado. Aos 24 anos.

Assim como Phillipe Coutinho e Felipe Anderson, Lucas é da nova estirpe de meias que pensam correndo. Circulam pelo campo todo em velocidade, sempre dão opções para os companheiros e não esperam que o time jogue em função deles. Adaptam-se. O inverso do estilo clássico (e lento) de Alex, ex-Cruzeiro e Palmeiras, para citar apenas um exemplo.

No futebol de pressão e compactação, o meia que não recua como volante – Pirlo e Toni Kroos são os melhores exemplos – precisa ter mobilidade para se mexer entre as linhas. Saber recuar para receber ou infiltrar como atacante. Procurar os flancos para tabelas e triangulações, evitando a superioridade numérica da marcação adversária. Enfim, ser inteligente. Um facilitador.

Raciocínio rápido e dinâmica não faltam a Lucas Lima. Chamou atenção no último Brasileirão a ponto de despertar interesse em alguns clubes europeus e também no Flamengo. Em janeiro deste ano, enquanto o argentino Dario Conca era o principal nome especulado para ser o novo camisa dez da Gávea, a diretoria rubro-negra chegou a cogitar fazer uma loucura financeira pelo meia santista.

Não fez. Até pela decisão do jogador e do Grupo Doyen de só sair do Santos para o exterior. Um acerto, já que em 2015 o meia evoluiu ainda mais. Seu toque na bola parece cada vez mais uma jogada de sinuca. O passe sai rápido e preciso. Seja na ultrapassagem do lateral, na infiltração dos ponteiros Gabriel e Geuvânio em diagonal ou acionando diretamente o artilheiro Ricardo Oliveira.

Segundo o Footstats, é o terceiro que mais dá passes para finalizações, embora apenas três tenham terminado em gols. Os 91,5% de aproveitamento nos passes são um índice mais que respeitável para o meia que arrisca mais, tenta normalmente a jogada mais difícil. Sem contar a média de três lançamentos corretos por jogo. Mesmo descontando o nível da liga brasileira, não é pouco.

Por isso a primeira convocação para a seleção brasileira e boa atuação na estreia – vitória por 1 a 0 sobre a Costa Rica, gol de Hulk. Ao menos no primeiro tempo, antes das muitas substituições que descaracterizam qualquer amistoso. A mesma dinâmica para fazer o time jogar, apesar do natural desentrosamento. Uma boa notícia para Dunga: camisa dez moderno, mesmo que o número fique com a estrela Neymar, não vai faltar. Mesmo que um teste mais forte num centro de ponta ainda não tenha vindo.

Se há nove anos Ricardinho concebeu um estilo rápido e espetacular para o vôlei, o futebol brasileiro conta com Lucas Lima para ser o meia acelerador que ajudará a construir, enfim, um jogo nosso mais atual. Ainda plástico, mas competitivo e moderno. É possível.