O INÍCIO DA ERA MESSI*

Por Editora Grande Área

 

“Leo, é o Pep. Tenho uma
coisa muito importante para
lhe mostrar. Venha agora!”

 

Eram dez da noite, sexta-feira, feriado de Primeiro de Maio. Guardiola permanecera no centro de treinamentos do Barcelona para, fechado em sua sala e ao som de música suave, estudar mais a fundo as virtudes e fraquezas de seu próximo adversário. Como costuma fazer até hoje, Pep passou algumas horas analisando o time que estava prestes a enfrentar, revendo jogos inteiros e trechos em vídeo preparados por seus auxiliares.

O duelo que estava marcado para o dia 2 de maio de 2009 seria no Santiago Bernabéu. O oponente, um Real Madrid que, sob a batuta de Juande Ramos, não perdia havia dezessete rodadas. Naquela ocasião, o que estaria em jogo na prática era nada menos que o título do Campeonato Espanhol. E, sem ninguém por perto, o comandante catalão se perguntava como iria criar a superioridade numérica que lhe permitiria derrotar o rival.

A sensação de ter encontrado a resposta para os problemas que iriam se apresentar no dia seguinte só se insinuou depois que Guardiola reviu um jogo entre as duas equipes. Ele percebeu que a pressão dos meio-campistas madrilenhos Guti, Gago e Drenthe sobre Xavi e Yaya Touré era muito intensa, mas que Cannavaro e Metzelder, os dois zagueiros, permaneciam muito atrás, bem perto da área defendida por Casillas. Nesse ponto, começou a imaginar Messi se movimentando por aquele gigantesco espaço vazio às costas dos volantes do Real, avançando sozinho em direção a uma dupla de zaga que, petrificada sobre a linha da grande área, estaria em dúvida sobre como investir contra o argentino.

Pep viu a jogada com tanta clareza que pegou o telefone. Não ligou para nenhum de seus assistentes, nem para Xavi, o cérebro do time. Ligou diretamente para Messi: “Leo, é o Pep. Tenho uma coisa muito importante para lhe mostrar. Venha agora!”. Meia hora depois, Messi, à época com 21 anos, bateu à porta da sala. Guardiola lhe mostrou o vídeo e congelou a imagem que exibia o tal espaço vazio. No dia seguinte, aquele espaço seria dele: a zona Messi.

“Amanhã, em Madrid, você vai começar no lado do campo, como sempre”, explicou. “Mas, se eu fizer um sinal, você procura as costas dos volantes e passa a se movimentar por essa área que acabei de mostrar. É a mesma coisa que fizemos em setembro passado, em Gijón. Quando Xavi e Iniesta romperem a linha adversária e lhe passarem a bola, vá direto até o gol. Até o Casillas.”

Algum tempo antes em Gijón, no dia 21 de setembro de 2008, com a água batendo no pescoço após ter perdido a primeira partida da Liga diante do Numancia e empatado a segunda contra o também modesto Racing Santander, Guardiola colocava em jogo o seu futuro como técnico do Barça. Decidiu mandar Eto’o para a ponta direita e posicionar Messi no espaço do falso 9, como o argentino jogara muitas vezes nas categorias de base. O Barça goleou por 6 a 1 e deu início a uma caminhada triunfal. Sete meses mais tarde, a ideia era resgatada.

O episódio acontecido à noite ficou em segredo. Até a bola rolar, ninguém mais soube da conversa entre Guardiola e Messi – exceto o auxiliar Tito Vilanova, mas já no dia do jogo, no hotel da concentração. Minutos antes do clássico, Pep chamou Xavi e Iniesta e lhes disse: “Se vocês virem Leo pelo meio, entre as linhas do Real, não tenham dúvida: passem a bola para ele. Será como em Gijón”.

Em campo, o Barça massacrou o Real Madrid e venceu por 6 a 2. O sinal do banco de reservas para Messi veio aos seis minutos, e nem mesmo o gol dos mandantes, aos treze, foi o bastante para impedir a festa catalã. Antes dos vinte, o time que vencia o confronto já era outro.

A partir dali, três coisas começaram a acontecer: o Barcelona de Pep deixou de ser apenas o melhor time do momento para passar a figurar nas listas de melhores de todos os tempos; Guardiola deixou a disputa com José Mourinho pela alcunha de melhor técnico contemporâneo para elevar-se ao nível de revolucionário do futebol moderno; e Messi saiu da discussão com Cristiano Ronaldo sobre quem seria o melhor jogador de sua geração para se intrometer em uma conversa que, até então, estava restrita a Pelé, Maradona, Cruyff, Di Stéfano e alguns outros poucos nomes.

Messi e Guardiola não sabiam, mas o telefonema daquela noite de 1º de maio de 2009 marcava o início de uma nova era do futebol mundial. A quinta Bola de Ouro do gênio argentino, recebida nesta segunda-feira, na Suíça, parece ser apenas o mais novo capítulo dessa história, que não dá mostras de estar perto do final.


*Esta e tantas outras histórias imperdíveis estão contadas no livro “Guardiola Confidencial”, de Martí Perarnau, publicado no Brasil pela Editora Grande Área. Para mais informações, clique aqui.