O SILÊNCIO DOS ROMÂNTICOS

Por André Kfouri

A Muralha Amarela gerou manchetes diferentes no último domingo. As cores amarela e preta estavam lá, preenchendo o colossal espaço da Tribuna Sul do Signal-Iduna Park. As bandeiras, as faixas, os cachecóis, também, montando o fabuloso mosaico que os torcedores do Borussia Dortmund tornaram famoso no mundo do futebol. Se fosse possível tirar o som e apenas ver o espetáculo, não se notaria nada fora do normal no comportamento das pessoas que dão vida ao estádio do Borussia Dortmund. A diferença estava exatamente no barulho que emanava dali.

Dois torcedores do Dortmund sofreram paradas cardíacas durante o jogo contra o Mainz. Um deles não sobreviveu. Tinha oitenta anos e estava sentado na Tribuna Sudoeste do estádio, à esquerda da Muralha. O episódio poderia ter acontecido em qualquer lugar. Não seria menos trágico, mas certamente teria menos repercussão. Ali, em meio a mais de oitenta mil pesssoas, converteu-se em uma das mais tocantes cenas já vistas em um jogo de futebol. Foi o dia em que a Muralha Amarela silenciou-se em respeito a um dos seus, e depois cantou em sua homenagem.

Os telões do Signal-Iduna Park informaram os presentes sobre o falecimento do torcedor (aconteceu um segundo ataque cardíaco durante o jogo, mas felizmente o torcedor foi levado para a ambulância e reanimado a caminho do hospital). O luto envolveu a torcida, que passou a acompanhar a partida em tal quietude que alguns jogadores do Dortmund, habituados ao apoio ruidoso, irritaram-se em campo. Mas a comemoração contida do gol de Shinji Kagawa, o segundo da vitória por 2 x 0, sugere que o time também se juntou ao clima de consternação.

Ao final, com os jogadores abraçados e próximos à Muralha, uma versão diferente de “You Will Never Walk Alone” tomou conta do ambiente. Um pouco mais lenta, um pouco mais solene, um pouco mais triste. Em tom de despedida, como que para consolar um torcedor que se foi, mas também para celebrar o sentimento que os unia e assim permanecerá. Uma demonstração coletiva de solidariedade e respeito, à qual os torcedores visitantes se uniram. O maior “terraço” do futebol europeu, que amedronta adversários com volume e ruído, mostrou que também sabe ser sensível.

A Muralha Amarela é muito mais do que a visão grandiosa de uma torcida em seu estado mais puro. Na gigantesca e íngreme seção atrás de um dos gols da casa do Dortmund, cabem pouco mais de 24 mil pessoas. A Tribuna Sul é o motor do estádio, do time e uma prova de que, na era do futebol-negócio e das selfies, é possível acomodar todos os bolsos e setores de uma sociedade ao redor de um campo de futebol. Para isso, é preciso cultivar princípios valiosos e preservar a razão de ser de um clube, ao invés de relacionar estritamente a ocupação de um estádio à caixa registradora. É possível que nenhum outro clube no mundo aplique essa estratégia tão bem.

O Borussia é uma paixão de Dortmund e região, assim como acontece em milhares de outros casos. O que o diferencia é a maneira como trata essa paixão. O slogan “echte liebe” – “amor verdadeiro” – rege a relação do clube com seus torcedores, em vez de ser apenas uma isca para a exploração comercial que transforma sentimento em dinheiro. São numerosos os exemplos de situações em que o Dortmund colocou o torcedor à frente do negócio, o que se reflete no fortalecimento dos laços que sustentam o futebol e mantém a presença de público no Signal-Iduna Park (nome atual do icônico Westfalenstadion, pelo menos até 2021) em percentuais altíssimos.

Um artigo publicado em 2014 no site da BBC revelou um número impressionante: após a chegada do Borussia Dortmund à final da Liga dos Campeões da Uefa, na temporada 2012-13, o clube recebeu 502.567 pedidos de carnês anuais para os 24.042 lugares da Tribuna Sul. À época, a população da cidade era de 580.956 habitantes. A Muralha Amarela não é apenas o lugar mais cobiçado pelos torcedores em Dortmund, mas o espaço mais barato, capaz de reunir todos os tipos de pessoas que vivem na cidade. É onde a “cultura do torcedor” se mostra mais verdadeira, no país que tem a conexão clube-fã mais sólida do mundo do futebol.

Em valores atuais, um carnê para assistir a uma temporada de jogos na Muralha Amarela, em pé, custa 207 euros. Com os descontos aplicáveis, por exemplo, para estudantes, o preço pode cair para 130,50 euros. Esse montante dá direito a todos os jogos em casa do Borussia Dortmund no Campeonato Alemão, na Copa da Alemanha e, se o clube conseguir a classificação no ano anterior, na fase de grupos da Liga dos Campeões da Uefa. Há um acréscimo de 20% nos jogos contra o Bayern, Schalke 04 e nos encontros a partir das oitavas de final da Liga dos Campeões. Tudo computado, o custo médio por partida gira em torno de 18 euros.

A Tribuna Sul é o lugar dos jovens que ainda não entraram no mercado de trabalho, dos idosos que já o deixaram, e de quem mais quiser experimentar a sensação de fazer parte de um monstro de 24 mil cabeças. Quem optar por serviços como entrega de comida e bebida, com pedidos feitos pela internet, paga até 717 euros por temporada em camarotes confortáveis. Não se esqueça de que a ideia do Dortmund é ter um estádio que represente a sociedade local, e há muita gente que prefere assistir a jogos longe da Muralha Amarela – para poder admirá-la, entre outras coisas – com acesso a comodismos que custam mais. O amor verdadeiro não tem preço.

O Borussia Dortmund ganharia alguns milhões de euros a mais por ano se instalasse cadeiras na Tribuna Sul e cobrasse preços mais altos. Assim como lucraria um pouco mais se aumentasse o preço das bebidas vendidas no estádio ou das camisas do time disponibilizadas nas lojas. Os fornecedores e a Puma, que confecciona o uniforme do clube, ficariam satisfeitos. Mas o torcedor, não. O objetivo do Dortmund é ver seu estádio cheio e a Muralha Amarela regendo o espetáculo a cada vez que o time se apresentar. É ser um modelo da simbiose entre o futebol e as pessoas. Mesmo quando a noite é triste e o silêncio fala mais do que 80 mil vozes.