O QUE FAZ DE UM CAMPEONATO O MELHOR?

Por Rafael Oliveira

É quase unânime: atualmente, o símbolo de campeonato nacional bem sucedido no futebol mundial é a Premier League. A incrível saga do Leicester é a história da temporada 2015/16 e reforça todos os argumentos sobre divisão de direitos de tv e o impacto do crescimento coletivo. Em termos de organização e venda, não há dúvidas sobre o modelo inglês. Em campo, o ritmo alucinante dos jogos valoriza cada rodada da mais imprevisível temporada dos últimos tempos. No entanto, ao olhar para o cenário europeu, um fenômeno se repete: a fragilidade dos ingleses nas competições internacionais.

Julgar os elementos que compõem um torneio forte não é tão simples. Equilíbrio ajuda, desde que em bom nível. Afinal, de que vale uma classificação apertada sem duelos de qualidade? Por outro lado, um desnível acentuado tira a emoção da imprevisibilidade. Exemplos: o Brasileirão algumas vezes tem classificação mais empolgante que os jogos, enquanto o Espanhol tem partidas melhores do que o abismo na tabela sugere.

Uma estatística talvez sirva como melhor termômetro: o enfrentamento de equipes de diferentes países nas principais competições europeias. Desde o início de 2013/14, a Espanha venceu 41 dos 44 confrontos de mata-mata (Champions ou Europa League) contra adversários estrangeiros. No mesmo período, os clubes ingleses levaram a melhor em apenas 19 dos 37 confrontos disputados.

A enorme diferença de aproveitamento (93% a 51%) prova que a questão vai muito além da força de Barcelona e Real Madrid, ou do suposto desinteresse inglês pela Europa League. E para tentar entender é preciso olhar especificamente para campo e bola. Choques internacionais testam a capacidade de imposição e adaptação de estilos de jogo. Cada país tem suas características. Na Inglaterra, a definição mais óbvia é a dinâmica. Como não gostar de jogos disputados em tão alto ritmo? Mas o que fazer quando não é possível atuar assim? É a pergunta sem resposta para a maioria dos clubes.

Quique Sánchez Flores, melhor treinador da Premier League no mês de dezembro e atual semifinalista da FA Cup com o recém-promovido Watford, já deu boas entrevistas sobre o assunto. Segundo ele, “o ajuste mais importante por lá é manter a compactação para impedir as transições do jogo geralmente aberto”. Parece óbvio, mas não é. O ritmo alucinante só é possível porque a “caótica” ida e volta das transições interessa aos dois lados.

"O jogo na Espanha é indiscutivelmente mais tático, pausado, e é infinitamente mais pensado e mais estratégico do que na Inglaterra. Na Inglaterra, as estratégias são simples, o jogo é muito mais selvagem, rudimentar. A velocidade é muito maior e o contato mais constante. É um jogo muito aberto, em que os times acabam expostos e sobram espaços por todos os lados." (Quique Sánchez Flores no programa "Fiebre Maldini" – trecho retirado do site MarcadorInt)

Falta pausa. E quando o jogo pede, geralmente em duelos internacionais, falta o hábito de atuar fora da bolha tática e da zona de conforto. O modesto Watford não é a terceira melhor defesa da Premier League por acaso. O destaque do time é a potência física dos volantes na proteção da defesa. O ataque sofre pela dependência da dupla Ighalo-Deeney, é verdade, mas o sistema defensivo impõe uma dificuldade incomum para os adversários ingleses.

O fato é que, em termos táticos, o Campeonato Espanhol apresenta repertório bem mais vasto. Basta deixar o preconceito de "torneio de dois times" de lado e focar nas ideias de futebol. E não só nas referências ofensivas e defensivas que são Barcelona e Atlético de Madrid. A temporada 2015/16 apresenta a posse do Las Palmas de Quique Setién, a pressão do jogo físico do Athletic Bilbao de Ernesto Valverde, a organização e as transições do Villarreal de Marcelino, a linha alta quase suicida do Rayo de Paco Jémez, a movimentação agressiva do Celta de Berizzo, a disciplina defensiva do Málaga de Javi Gracia, entre outros. Não há tamanha variedade na Inglaterra ou em qualquer campeonato do planeta. E isso certamente contribui para o bom desempenho espanhol na Europa.

A maior curiosidade para 2016/17 é saber qual será o impacto da chegada de Guardiola para a liga mais rica do mundo. Liga que, apesar de todo o investimento, pode ter um campeão que no momento tem a terceira menor média de posse e o pior índice de acerto de passes da competição. Números que não diminuem o feito do Leicester. Apenas reforçam a ideia da simplicidade em um país que ainda carrega muito do frenético jogo direto que historicamente o caracterizou, mesmo que não mais com os chutões do antigo “kick and rush”.

Não existe fórmula certa ou errada no futebol. O desafio é encontrar o equilíbrio suficiente para conseguir cadenciar partidas no torneio do descontrole. A maior característica de Guardiola é a obsessão pelo jogo coletivo em busca de soluções na construção de jogadas ofensivas. Hoje, a Inglaterra não tem isso (tem eventualmente com Man City e Arsenal, mas não em nível europeu) e tampouco sabe lidar com isso.

O que faz um campeonato ser o melhor? Não há uma resposta objetiva. No fim, vira uma questão de gosto. Como produto de puro entretenimento mundial, a Premier League segue imbatível e, em sua realidade paralela, tende a se fortalecer ainda mais com o novo contrato de tv. Como nível de jogo e referência tática, a Espanha não é líder isolada no ranking de coeficientes da Uefa por acaso. E o fato da Itália ameaçar uma das vagas de Champions League da Inglaterra é um alerta que não pode ser ignorado.