CONCENTRAÇÃO, A NOVA PALAVRA-CHAVE DO FUTEBOL

Por André Rocha

 Nos anos 1980, o sul-coreano Young Wan Sohn fez sucesso como treinador de vôlei masculino ao levar a seleção argentina ao terceiro lugar do Mundial de 1982 e, no Brasil, conquistar o tricampeonato nacional como o extinto Fiat/Minas em 1984-85-86, sem as grandes estrelas da geração de prata, a primeira a ter destaques no país.

O grande lema do técnico, falecido em 2011, era a concentração na execução do plano de jogo e de todos os fundamentos, especialmente o bloqueio. Atenção absoluta nas ações de ataque e defesa.

Corte para 2016. Estádio Batistão, Aracaju. Jogam Confiança e Flamengo pela Copa do Brasil. O time rubro-negro disputando Carioca e Copa Sul-Minas Rio, sem estádio na cidade do Rio de Janeiro que, a rigor, só tem São Januário. O técnico Muricy Ramalho reclamando do desgaste das viagens sucessivas para um time em busca da assimilação de uma nova filosofia de jogo.

Oito minutos de partida, Elielton, capitão do time sergipano, desfere um chute no rosto do meia Ederson e leva cartão vermelho direto. O cenário parecia claro: o Flamengo construiria com facilidade a goleada que eliminaria o jogo de volta.

Só que nitidamente a equipe de Muricy Ramalho se desligou do jogo. Instintivamente, os atletas trataram a partida como uma mera formalidade ou treinamento com uniformes oficiais. Um momento de “descanso” neste início de temporada.

Até criaram naturalmente as oportunidades, mas o time disperso e ainda à procura da afirmação não concretizou. Na defesa combateu à distância e pagou com derrota no final com o belo chute de Everton que definiu um triunfo histórico.

Poucas horas antes na mesma quarta-feira, em Barcelona, o melhor time do planeta também relaxou com o gol de Neymar que tornava a missão do Arsenal quase impossível nas oitavas de final da Liga dos Campeões.

Com um estilo que se caracteriza pela valorização da passe, mas também a pressão sobre o adversário assim que perde a bola, o relaxamento atraiu para o próprio campo um Arsenal desfigurado, mas ainda intenso. Habituado com a exigência absoluta da Premier League.

O golaço de Mohamed Elneny que empatou o jogo foi a conclusão mais feliz das 19 dos comandados de Arsène Wenger. Em média, o Barcelona cede não mais que dez. Mesmo com algum respiro no Espanhol. O toque no “off” fez sofrer até Suárez e Messi definirem e fazerem o trio MSN chegar a 106 gols na temporada. Nem todos têm essa reserva de talento.

Nem o Bayern de Munique, que entrou na Allianz Arena aparentemente preparado apenas para atacar a Juventus. O time italiano, concentradíssimo na execução do 5-4-1 planejado por Massimiliano Allegri, abriu 2 a 0 e poderia ter definido o jogo e o confronto na primeira etapa. Com apenas 27% de posse.

Depois pecou por se concentrar apenas no momento defensivo. Abdicar do ataque diante de um time que combina bola no chão, jogadas aéreas para Muller e Lewandowski, mais a persistência do espírito alemão, foi fatal. Empate no tempo normal, virada na prorrogação e volta frustrada para a Itália.

Ter a bola deixou de ser o paradigma no futebol atual, ainda que Barça e o time de Guardiola – hoje o Bayern, amanhã o Manchester City – mantenham o protagonismo com média de 60% de controle da pelota.

Na Inglaterra, o já lendário Leicester City de Cláudio Ranieri vê o título improvável cada vez mais perto sem os melhores índices de posse e de acerto no passes. O foco absoluto é no trabalho sem a bola e na objetividade dos ataques que procuram Mahrez e Vardy. Ou surpreendem na bicicleta de Okazaki que garantiu três pontos essenciais contra o Newcastle.

Na certeza de não ser melhor e com apenas o campeonato inglês para disputar, o Leicester entrega 100% e se impõe diante dos concorrentes esfalfados com Champions, Liga Europa e as Copas nacionais com sua tradição e jogos “replay”.

Voltando ao Brasil, não por acaso o Corinthians de Tite é a experiência mais bem sucedida dos últimos anos. Time intenso e atento, com volume de jogo porque oscila menos mentalmente. Multicampeão.

Porque leva a taça quem não tira os olhos dela. No vôlei dos anos 1980, principalmente no futebol que não para de evoluir e ficar mais complexo. Concentração é a nova palavra chave. Em Barcelona ou Aracaju.