LEITURA DE CRUYFF

Por André Kfouri

O primeiro jogo oficial de Pep Guardiola no comando do Barcelona foi uma derrota no campo do Numancia (estádio Los Pajaritos, na cidade de Soria), por 1 a 0. Era a primeira rodada do Campeonato Espanhol da temporada 2008-09, e aqueles que se acreditavam leitores do futuro saíram de casa com um “eu avisei” escrito na testa, pois era óbvio que um ex-jogador de trinta e sete anos, com experiência restrita ao Barcelona B, jamais deveria ter recebido o comando da equipe principal.

O time somou vinte e sete finalizações no jogo, seis no alvo, e chutou duas bolas na trave. Em “Barça – The Making of the Greatest Team in the World”, Graham Hunter escreve que a reação de Guardiola à derrota foi de incredulidade. “Existem regras no jogo de posição. Todos nós as conhecemos e durante todo o verão, até agora, nós as aplicamos. Por isso estou surpreso por termos jogado desse jeito”, disse Pep. “Deveríamos ter vencido, jogamos mal. Foi culpa nossa, mas podemos corrigir os erros”.

A correção teve de esperar, porque houve uma data-Fifa logo depois e muitos jogadores do Barcelona ficaram ausentes por dez dias. Quando voltaram, vários não fizeram parte do time titular que enfrentou o Racing Santander, no Camp Nou, pela segunda rodada da liga. O Barcelona empatou por 1 a 1 diante de apenas 54.678 torcedores. Ao final da rodada, com um ponto em seis disputados, o time de Guardiola estava em décimo quinto lugar e as cornetas catalãs soavam em volume máximo.

Mas se pôde ouvir uma voz em defesa de um projeto que ainda era muito jovem para ser julgado. Na verdade, pôde-se ler a opinião de um colunista do diário El Periódico, que tinha enxergado um jogo completamente diferente da maioria. Seu nome era Johan Cruyff, e isso foi o que ele escreveu em 15 de setembro de 2008:

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“ESTE BARÇA PARECE MUITO, MUITO BOM”

Não sei que jogo vocês viram ontem. O que eu vi, há muito tempo não acontecia no Camp Nou. Faltou gol, é verdade. Uma ou outra atuação individual pode ter sido ruim, ou até mais do que isso. Mas, em nível coletivo, o Barça esteve à altura.

Cada um tira suas próprias conclusões. O pior início de liga em muitos anos. Um gol a favor em dois jogos, e de pênalti. Duas ocasiões para o rival e dois gols sofridos. Numericamente, verdades absolutas. Futebolisticamente, a leitura deve ser outra.

A minha – e aqui não falo de sensações, mas, sim, de fatos – é que no sábado o Barça jogou sua melhor partida em muitas temporadas. Excelente no jogo de posição e admirável no ritmo das trocas de bola. Bem na pressão e com boas cifras no balanço das bolas perdidas e recuperadas. Pode melhorar? Claro. Oito chutes a gol é pouco para tanto domínio. Falta polir o último passe – o mais difícil –, e falta polir o decisivo arremate final. Mas eu não tenho dúvidas: os gols e os resultados sempre chegam se você joga bem. E este Barça vai jogar muito, mas muito bem.

E o primeiro a se apresentar para o trabalho que deve ser feito é Guardiola. Nem inexperiente, nem suicida, ele vê, analisa e toma decisões. E tomou muitas no segundo jogo da liga. E todas dirigidas a melhorar o desempenho do time em relação à partida de Soria. Para começar, jogam os que estão melhores. Tenham a idade que tenham, sejam quais forem os nomes. Elenco curto? Elenco tensionado ao máximo.

BUSQUETS, O DESTAQUE

Aos que já estavam no time principal – mais Pedro e Víctor Vázquez – já se pode somar Sergio Busquets. Tecnicamente superior a Touré e Keita. Posicionalmente, aparência de veterano. Com e sem a bola. Com a bola fez o difícil parecer fácil: a saída para o jogo com um ou dois toques. Sem a bola, outra lição: a de estar no lugar certo para recuperar e interceptar, correndo apenas o necessário. E isso sendo jovem e inexperiente. Os mesmos pecados de seu técnico.

Já expliquei muitas vezes que uma partida não se joga com onze, mas com quatorze. Que tão importante quanto as armas usadas no início é a pólvora (desta vez, Iniesta, Messi, Bojan) que você guarda para provocar o incêndio. Isto, em só um jogo. A médio prazo, os técnicos têm de tomar outras decisões olhando mais adiante. O que jogo hoje, o que já joguei e o que falta jogar. E, com a liga, a Champions e os jogos de seleção, tem jogador que pode fazer dez partidas em um mês.

Aqui entra a gestão do vestiário. A dosificação de suas forças e, com ela, o envolvimento de todos. A mensagem final de Guardiola: aqui, ninguém é melhor do que ninguém. O descanso não é um castigo, mas um caminho para o time render melhor quando voltarem a escalar você.

Metade da equipe é diferente de um jogo para outro na liga? Sim. Mas as mudanças têm um sentido. Henry, Messi, Iniesta, Márquez, Touré… os cinco que jogaram como titulares em Soria podiam ter atuado também contra o Racing. Não se trata de estarem desgastados por conta do calendário. Ainda não, mas depois de um começo sempre há um final de temporada. Ao cuidar deste detalhe, Guardiola apostou forte em outro: vou escolher muito bem as peças para, no quadro negro, jogar infinitamente melhor do que em Los Pajaritos.

ABRIR O CAMPO

E o que foi desenhado no quadro negro se transformou em carne, chuteira e bola no gramado. Poucas vezes acontece de forma tão evidente. Sei que o rival vai estacionar o ônibus. Que vai dar pancadas se for encurralado, e que fará o tempo passar sob qualquer pretexto. Apesar disso, o que posso fazer para traduzir a posse da bola em chances de gol? O que fazer para que Dani Alves dê profundidade pelo lado do campo, onde aparentemente ela não existe? Campo aberto ao máximo (Hleb e Pedro, Iniesta, Messi e de novo Pedro), circulação veloz da bola, e alguém que a receba, controle e passe rapidamente na frente da defesa (Busquets). Assim terei Xavi como gosto, mais como meia-atacante, mais como assistente, mais chutador, e podendo se apoiar melhor em Dani Alves.

ALVES DÁ QUALIDADE

Seria injusto não notar a melhora do brasileiro de um jogo para o outro. Menos aparições, mas mais determinantes – o pênalti marcado foi depois de um cruzamento dele. Menos quantidade e mais qualidade.

Porque Alves teve clareza para saber que o caminho é abrir na lateral, e não se somar ao centro, e porque seus companheiros (Busquets, Xavi, Messi) também souberam ver e esperar que ele chegasse para lhe dar a bola, e assim assegurar um bom número de cruzamentos vindos do fundo. Se terminam em gol ou não, já é outra história.

Como amanhã também é. Liga dos Campeões e Camp Nou. Eu, visto o que vi, não perco. E digo isso porque quero desfrutar, não ter uma dor de barriga. Quem quiser se agarrar aos números para se amargar (só um dos seis pontos disputados, dois gols sofridos em duas chances concedidas, estreia horribilis…), que o faça. Pelo que eu vi, tudo pareceu muito, mas muito bom.

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Naquela semana, o Barcelona venceu duas vezes. Fez 3 a 1 no Sporting Lisboa, pela Liga dos Campeões da Uefa, no Camp Nou. E 6 a 1 no Sporting Gijón, fora de casa, pelo Campeonato Espanhol.

O resto, como se sabe, é história.