TEMPO PERDIDO

Por Rafael Oliveira

Mais uma vez o futebol brasileiro passa por um detalhado raio-X. É aquele momento de reflexão pós-desastre, que levanta questionamentos sobre escolhas e o funcionamento de tudo que envolve a Seleção e o esporte no país. Momento que tem sido cada vez mais frequente e que dificilmente vai durar mais do que algumas semanas ou gerar mudanças reais.

Por um motivo simples: a resistência está em todos os lados. Começa na estrutura dos próprios clubes, que não têm real interesse em mudar o poder da CBF ou devolver credibilidade ao futebol nacional. Se a Seleção virou “inimiga” dos times, a Confederação nada faz para mudar o calendário, ampliando o sentimento de briga por espaço. Uma briga em que naturalmente o clube do coração levará vantagem. Resta ao torcedor esperar a eliminação do Brasil para voltar a ver a força máxima do seu time o quanto antes.

Julgar a segunda "era Dunga" vai além da avaliação do desempenho em campo. Muito antes, é necessário questionar qual solução alguém buscava quando respondeu ao “7 a 1” com tal escolha para o comando do Brasil. Do ponto de vista técnico, nunca fez sentido. O ano de 2014 era a hora para transformações profundas, e não o resgate de um perfil que só se sustentaria pelos resultados.

Não há projeto ou plano. Há apenas a teimosia ou o descaso. Prova disso é a recorrente necessidade de mudança total. Um coordenador de seleções deveria ser o responsável pela elaboração e continuidade de um modelo a ser seguido, avaliando o trabalho do treinador escolhido para complementar tais ideias. Parece utópico na CBF, onde o coordenador dura até quando cair o próximo técnico. E que venha outro recomeço do zero – ou sem ser do zero, já que a estrutura viciada permanece, só que com novos nomes.

Mais uma vez, o jogo em si é ignorado. E aí entra a parcela de culpa da visão geral sobre futebol que está impregnada na cultura nacional. Seja para torcedores ou imprensa. No dia a dia, é rotina ofuscar reais debates aprofundados sobre o jogo com polêmicas vazias e assuntos periféricos. E vai muito além dos esporádicos períodos no ano em que a seleção está em pauta.

Basta olhar para oportunidades perdidas. O quão irônico é ser eliminado da Copa América por um treinador que durou nove rodadas no Campeonato Brasileiro de 2014? Ricardo Gareca, hoje no Peru, foi uma aposta sem respaldo suficiente para durar três meses no Palmeiras. Não que fosse um revolucionário, mas tempo, de fato, é um problema por aqui. Gera ciclos em que todos os treinadores são bombeiros e poucos conseguem desenvolver um trabalho. O impacto precisa ser mais psicológico do que tático, pois o chacoalhão garante mais rodadas do que uma metodologia promissora sem resultados imediatos.

A Copa América de 2016 também reserva outro exemplo ainda maior de desperdício de oportunidade. Juan Carlos Osorio, questionado no Brasil por ser fiel a suas ideias ousadas e bem sucedidas na Colômbia, já tem o melhor começo da história da seleção mexicana. E seu repertório de ideias mostra um perfil dos mais interessantes que o Brasil poderia absorver para o futebol de clubes. Mas foi perseguido por muitos que preferiam criticar em vez de tentar entender as opções do então treinador do São Paulo.

Sempre há resistência. Não é acreditar que treinadores estrangeiros são a solução para o futebol nacional. Ou que qualquer estrangeiro é melhor que qualquer brasileiro. Longe disso. Há treinadores brasileiros extremamente bem preparados. E muitos deles também sofrem preconceito quando “falam difícil”. O intercâmbio é saudável. E mais importante ainda seria permitir tempo para a implantação e a troca de ideias, estilos e métodos.

No momento, Belo Horizonte possui dois portugueses: Paulo Bento e Sérgio Vieira. Por se tratar do Brasil, impossível saber quanto tempo aguentarão no cargo. Não há tal garantia. De qualquer forma, Portugal é um caso interessante para analisar. Se no Brasil muitos alegam a barreira do idioma como obstáculo para a entrada de treinadores na Europa, Portugal desmente ou enfraquece o argumento.

A fase de grupos das competições da Uefa em 2015/16 começou com onze treinadores portugueses, sendo sete em clubes de fora do país. 2014/15 já tinha visto José Mourinho, André Villas-Boas, Vitor Pereira e Paulo Sousa como campeões nacionais em Inglaterra, Rússia, Grécia e Suíça. Fora nomes importantes como Nuno Espírito Santo no Valencia e Leonardo Jardim no Monaco. Em 2015/16, Marco Silva foi o sucessor de Vitor Pereira no Olympiacos, enquanto Paulo Sousa foi sensação do início de temporada na Fiorentina. Carlos Carvalhal também ganhou destaque com o surpreendente quase acesso do Sheffield Wednesday para a Premier League.

Não é apenas Mourinho, agora no Manchester United, ou outro caso isolado. Portugal hoje é referência na exportação de treinadores pela Europa. É formação – e no mais alto nível. É a cultura de entender que o futebol precisa ser estudado e tratado como ciência, e não apenas um jogo em que se espera que o mais talentoso em campo desequilibre a qualquer momento. Não mais.

Enquanto isso, o Brasil ainda enxerga tática como uma parte responsável por engessar um time, "a parte chata". De novo, a resistência está nos discursos que opõem tática e técnica ou tática e talento. Com a mentalidade de que uma equipe não precisa de estratégias coletivas para saber o que fazer com a bola ou que tais ideias surgem do improviso, e não do trabalho diário nos treinos. Portugal, como outros países até mais próximos (a Argentina, por exemplo, teve quatro treinadores na Copa América 2016 e três na Copa de 2014 - fora Simeone e Pochettino, em evidência nos principais campeonatos europeus), entende melhor o quão importante é enxergar o futebol como uma ciência de infinitas variáveis e jamais exata ou previsível, mas que requer estudo.

Se confirmado, Tite na seleção será a escolha mais correta. Impossível prever se terá sucesso, mas é indiscutível o nível de conhecimento, preparo e merecimento para chegar até o cargo, que já deveria ter sido dele em 2014. Só que não é esse sucesso ou fracasso que vai definir a transformação do futebol brasileiro. Tite pode (e deve) ser capaz de transformar a Seleção Brasileira em um time mais forte e condizente com a qualidade individual dos jogadores que o país possui. O desafio para mudar o futebol brasileiro já é bem maior: é mudar a maneira de pensar o jogo, ter mais “Tites” espalhados em ligas importantes pelo mundo e tirar o poder de pessoas que pensem em soluções inaceitáveis como as de 2014. Pois, no país que se caracteriza por não dar tempo aos treinadores, a seleção nacional jogou dois anos fora.