A POBREZA DO DEBATE SOBRE FUTEBOL NO BRASIL

Por André Rocha

Há uma grande distorção em curso no país. As redes sociais mostram que nunca se falou tanto sobre política. Mas sem o mínimo debate de ideias. A maioria só quer ter razão e atacar quem pensa diferente. O período eleitoral revela que isso acontece inclusive entre os próprios agentes e candidatos.

O mesmo vale para o futebol. A discussão sobre o “Cucabol” fomentada pelo colega Mauro Cezar Pereira, da ESPN Brasil, mostrou que criticar o líder de um campeonato é quase proibido. Não houve a compreensão por grande parte dos palmeirenses e até de torcedores de outras equipes e colegas de imprensa que a cobrança era por melhor futebol.

Ora, se o alviverde conta com um elenco robusto e Gabriel Jesus, o grande talento a ainda jogar em nossos campos, é ao menos compreensível que se espere uma ideia de jogo mais elaborada, que aproveite melhor as qualidades dos atletas e recorra menos às jogadas aéreas quando atua em seus domínios e precisa do resultado e não especule e sofra tanto para se impor fora de casa. Ou seja, entregar mais desempenho.

Tudo foi reduzido a clubismo, bairrismo e perseguição por parte do jornalista. Poucos tentaram refletir e admitir que mesmo vencendo com ótima campanha é possível fazer mais e melhor. Combinar resultados e atuações consistentes.

Curiosamente, o tempo mostra que os que não admitem críticas durante a campanha vencedora ou pouco depois do título normalmente são os mesmos que surtam quando mais à frente este mesmo estilo não consegue vencer. Exemplos não faltam: o “Muricybol” do São Paulo tricampeão brasileiro de 2006 a 2008 foi atacado por não conquistar a Libertadores e hoje muitos são-paulinos responsabilizam esta ideia de jogo e o modelo de gestão ultrapassados pela estagnação do clube.

O mesmo vale para Marcelo Oliveira, no Cruzeiro e no Palmeiras. Quando bi brasileiro e campeão da Copa do Brasil, o treinador era imune a qualquer questionamento às suas equipes espaçadas, sem controle de jogo e muito dependente das jogadas aéreas. Ao sair dos dois clubes, também por fracassar na Libertadores – torneio mais complicado, com equipes sul-americanas mais atualizadas em tática e estratégia – veio a chuva de protestos, inclusive minimizando e atribuindo as conquistas anteriores à sorte. Uma espécie de “crítica retroativa”.

É aí que entra o trabalho do comentarista, do formador de opinião. Por conta da guerra de audiência e da busca desesperada por cliques independentemente do conteúdo, alguns colegas preferem o caminho mais simples e menos desgastante: falam o que o torcedor quer ouvir. Como numa relação entre prestador de serviço e cliente.  Então se o fã do líder do campeonato espera só elogios, lá vem o textão exaltando os feitos e ocultando os problemas.

Crítica? Só ao clube que despenca na tabela. E aí se carrega nas tintas também. Nada há de positivo e os motivos para a sequência de resultados ruins são elencados detalhadamente. Porque a crise, ainda mais se acontecer num gigante de enorme torcida, também vende. Em resumo, o público e a crítica, a rigor, só analisam a tabela. Resultados e colocações. Quem vence vive “grande fase”. Se perde está num “período turbulento”. Quem pensa diferente é tratado como um lunático. Ou mal intencionado.

Pouco se olha para o campo. Para a bola jogada que muitas vezes sinaliza que quem está no topo da tabela pode cair e o time na rabeira está em evolução e tem grandes chances de recuperação. Entre o pragmatismo simplista do “futebol é resultado” e a hipocrisia do “futebol é entretenimento”, que normalmente é a senha para tratar o espectador como uma criança ou um imbecil, existe a verdade: o futebol é um jogo.

Jogo que não é pensado, muito menos estudado. Por isso o debate é tão raso e o pensar futebol tão pobre no Brasil.