A TRÊS PASSOS DO OBJETIVO FINAL

Por Rafael Oliveira

Três jogos. É o que separa cada um dos semifinalistas da Champions League do título mais importante da Europa. Uma taça que redefine trabalhos e mexe com qualquer avaliação sobre treinadores e jogadores.

No caso de Guardiola, significa a última chance com o Bayern. Três semifinais em três temporadas. Em um clube de tamanha ambição, é difícil falar em missão cumprida sem o torneio continental, ainda mais para o treinador mais badalado do planeta. A pressão da tríplice coroa de Jupp Heynckes também não ajuda nas comparações, mas a avaliação vai além dos resultados. Dentro do projeto de construção de um período hegemônico do Bayern, a estabilidade de ficar a cada ano entre os quatro finalistas de um torneio que nunca teve um bicampeão consecutivo em sua era moderna deve ser valorizada. E a provável terceira conquista da Bundesliga, sem sustos, ajuda a provar a regularidade de um time que sobra no cenário nacional, embora seja necessário destacar a excelente temporada inicial de Thomas Tuchel com o Borussia Dortmund.

O trabalho de Guardiola inevitavelmente será rotulado, como costuma acontecer com qualquer um. Sem o título de Liga dos Campeões, será tratado por muitos como um fracasso. Palavra que talvez seja forte demais para resumir o processo de transformação feito em um time já campeão de tudo. A semifinal de 2015/16 é a chance de reduzir o peso das eliminações para Real Madrid e Barcelona nos dois anos anteriores. Agora com favoritismo mais destacado (sem Barcelona e com o ainda instável Real de Zidane), mesmo sendo o Bayern menos empolgante dos três anos de Pep.

Exceção feita ao primeiro tempo do jogo de ida das oitavas contra a Juventus - uma exibição de gala -, o atual Bayern não assustou o mundo como em temporadas anteriores. Talvez seja até um time mais maduro, mas em 2016 tem vencido seus jogos de forma mais discreta. O curioso é saber que Guardiola novamente começará um trabalho diante da pressão do melhor resultado da história de um clube. Se no Bayern foi pós-tríplice coroa, no Man City será após a melhor campanha europeia do time inglês.

Mas precisamos falar sobre o Atlético de Madrid. Se a avaliação final de Guardiola passa pelo título da Champions, a de Simeone pede desesperadamente pelo principal troféu europeu como recompensa. Treinadores totalmente diferentes, mas que personificam os dois maiores exemplos de futebol coletivo atualmente. O técnico argentino transformou o Atlético na maior referência defensiva do planeta. E a revolução iniciada em dezembro de 2011 não pode ser ignorada.

Segunda semifinal de Liga dos Campeões em três anos. Desde 2013/14, o Atleti eliminou duas vezes o Barcelona e só parou no Real Madrid (final em 2014 e quartas em 2015). No caminho, entre outros, eliminou o Chelsea e goleou o Milan. Hoje, é indiscutivelmente uma das principais forças da Europa.

E, se o Real Madrid é a pedra no sapato na Champions, as competições nacionais mostram a inversão do que foi uma freguesia de anos, com direito a título de Copa do Rei dentro do Santiago Bernabéu. Com Simeone, o Atlético saltou de coadjuvante para competitivo e chegou ao ápice com o título nacional de 2013/14. Afinal, bater de frente com Real e Barça em confrontos de mata-mata já é uma missão complicada, mas superá-los em regularidade é algo surreal e quase impossível dentro do modelo espanhol. Não para o time da defesa, da bola parada, das transições e acima de tudo da concentração para executar cada plano com um índice baixíssimo de erros.

Dois anos após perder meio time e já sem peças como Courtois, Diego Costa, Miranda, Arda Turan e David Villa, o time chega ao fim da temporada vivo na Liga dos Campeões e no campeonato. Hoje, o Atlético é um modelo de jogo. Pode não ser o mais bonito, mas representa um dos maiores trabalhos coletivos do futebol mundial nos últimos anos.

Se para Guardiola são três jogos para encerrar um ciclo com a missão cumprida, Simeone vê três passos para um objetivo antes inviável e que agora se tornou a mais justa das recompensas. Outra diferença entre os dois: enquanto Pep vai para o terceiro clube e mantém o discurso dos três anos como período ideal, Cholo tem contrato até 2020. A identificação com a torcida, a mentalidade implantada e a capacidade de reconstrução são parte da fórmula que pode garantir a rara longevidade a um treinador no futebol atual.

Será que daria certo em outro lugar? É a pergunta em comum para os dois. Guardiola estava em casa no Barcelona e soube escolher bem onde aplicar suas ideias fora da Catalunha. Para Simeone, frequentemente especulado em diversos clubes, é difícil enxergar outro gigante europeu que aceite algumas de suas estratégias defensivas. Por isso, a curiosidade fica ainda maior, especialmente sabendo que vencer a Champions poderia significar o objetivo final do brilhante trabalho no Atlético, que não apresenta qualquer indício de desgaste. Até lá, os dois podem se cruzar no que seria um dos confrontos mais interessantes dos últimos anos. De propostas, de ideias e de estágios em seus clubes.