A VOLTA DOS JOGOS MENTAIS NA PREMIER LEAGUE

Por Rafael Oliveira

"Mind games" foi, por anos, a expressão utilizada na Inglaterra para os discursos de Alex Ferguson. Esses jogos mentais eram a forma de transferir pressão, desestabilizar ou gerar tensão entre os rivais, e de criar uma mentalidade vencedora capaz de, ao longo de décadas, levar elencos de diferentes níveis a títulos importantes.

Ferguson já saiu de cena, mas a temporada 2016/17 da Premier League será marcada pela maior reunião de grandes mentes do futebol na atualidade. Mourinho, Guardiola, Klopp e Conte no campeonato mais rico do planeta e que vem da maior surpresa dos últimos tempos, com o Leicester desbancando os gigantes em 2015/16.

"As ideias podem vencer o talento". Poderia ser uma explicação de Claudio Ranieri para o incrível feito do Leicester, mas foi a frase de Antonio Conte após a brilhante atuação coletiva da Itália quando eliminou a Espanha na Euro 2016. Por sinal, a visão italiana anda em alta na elite do futebol inglês. São quatro treinadores (ou 20% do total) iniciando a Premier League 2016/17 (Francesco Guidolin, do Swansea, e Walter Mazzari, do Watford, são os outros dois). Responsável por reerguer a Juventus na Itália, Conte pretende mudar radicalmente o estilo de jogo de um Chelsea que, sem grandes transformações no elenco, saiu de atual campeão para terminar como décimo.

Nada se compara ao tamanho atingido pelo dérbi de Manchester. Guardiola e Mourinho como rivais diretos novamente, e agora dividindo a mesma cidade. Com perfis diferentes também no mercado. Enquanto o City aposta no futuro e investe pesado em promessas como Sané, Gabriel Jesus e Stones, o United quer mais imediatismo com Ibrahimovic, Pogba e Mkhitaryan. Afinal, são três anos sem Ferguson e três campeonatos com 15 ou mais pontos atrás do campeão inglês.

Jürgen Klopp não é exatamente uma novidade na Premier League, mas a pré-temporada completa com o Liverpool é. Para um modelo de tanta intensidade e coordenação nos momentos de pressão sem a bola, o tempo de treinos e condicionamento físico pode ser fundamental até para evitar as inúmeras lesões do último ano.

Quem não quer grandes mudanças é o campeão Leicester. Não só em relação ao elenco, mas também na tentativa de fuga do protagonismo. Ranieri já repetiu o discurso de 2015 e estabeleceu a meta: escapar do rebaixamento. Não ser visto como candidato segue a melhor estratégia para manter a proposta de futebol direto, sem muitos passes ou tempo com a bola nos pés. Ser visto como favorito significa enfrentar adversários mais fechados e ter de encontrar soluções com a bola, o que tira o time da zona de conforto e deve dificultar ainda mais a tarefa de brigar novamente com os gigantes.

Com novos treinadores de peso no campeonato, quem lamenta a oportunidade perdida em 2015/16 é o norte de Londres. No Arsenal, Wenger entra em seu último ano de contrato sem grandes novidades. Xhaka é um bom reforço, mas o desafio novamente é evitar lesões importantes como a de Cazorla no último campeonato. No Tottenham, o melhor desempenho em duas décadas terminou com a frustrante terceira posição, mas a manutenção do belo trabalho de Pochettino com um ano a mais de experiência para o time mais jovem de 2015/16 também coloca o clube entre os candidatos ao Top 4, desde que saiba administrar o calendário europeu.

Como em 2015/16, uma das grandes atrações da Premier League é a força do bloco intermediário, agora com ainda mais poder de mercado na Europa com o início do novo e bilionário contrato de TV. Do grupo, o maior destaque é o West Ham, que já brigou por vaga na Champions League e fez outro mercado bem interessante, além de segurar o valorizado Payet.

Sem grande alarde, o Stoke reforça seu time a cada ano e, não por acaso, foi nono nos últimos três campeonatos. Com Allen e Imbula, pode ter uma dupla de volantes capaz de sustentar as boas peças ofensivas, como Arnautovic, Bojan e Shaqiri. Reformulação é de novo a palavra no Southampton. Com boa categoria de base e o eficiente olhar no mercado, o clube já superou um desmanche anterior. Agora, perdeu pilares como Wanyama, Mané e Pellè, e contratou apenas boas apostas como Redmond e Hojbjerg, com o comando de Claude Puel. Isso porque Ronald Koeman aceitou a oferta de treinar o Everton. Antes de gastar, o clube do lado azul de Liverpool preferiu investir em quem teria tal responsabilidade. Além do técnico holandês, tirou do Leicester o responsável pela área de observação de jogadores. Assim, a movimentação ficou para as últimas quatro semanas de janela, mas com nomes interessantes, como Ashley Williams e Bolasie.

Dos recém-promovidos, quem gera maior expectativa é o Middlesbrough de Aitor Karanka, ex-auxiliar de Mourinho no Real Madrid, tanto pelo seu bom trabalho para montar estratégias defensivas quanto pelo mercado agressivo de quem volta ao primeiro degrau do futebol inglês após sete temporadas na segunda divisão. Os outros dois, Burnley e Hull, iniciam como candidatos mais reais ao rebaixamento. O Hull por problemas fora de campo que geraram a saída do técnico Steve Bruce poucas semanas antes do início da Premier League, e o Burnley por confiar demais na base que arrancou e terminou a Championship 2015/16 com impressionantes 23 rodadas de invencibilidade.

Se a primeira rodada da Premier League 2016/17 mostrou alguma coisa – e nada poderia ser concluído em tão pouco tempo – é que o equilíbrio deve marcar o campeonato. Em dez jogos, só uma vitória por mais de um gol de diferença. A força dos intermediários já é uma realidade. Agora é ver como os gigantes reagem a uma temporada em que serão muito pressionados pelo título. E, com cabeças tão diferentes no comando, o campeonato pode ganhar maior diversidade tática – o que não deixa de ser algo bem interessante em uma liga que se acostumou a ter tanto dinamismo, deixando de lado o tempo e a cadência para pensar os jogos. Talvez uma nova conotação para os "jogos mentais", agora mais voltados para o que acontece dentro das quatro linhas. Não que não vá sair faíscas entre Mourinho, Guardiola, Wenger e companhia ao longo do ano.