AS DIFICULDADES DE GUARDIOLA EM SUA ADAPTAÇÃO NO CITY

Por Alberto Egea*

Como se tivesse nostalgia de seu futuro, Guardiola não deixou de repetir desde o início de sua carreira que o grande desafio de um treinador é o fato de não ter tempo. Pep o valorizava mais do que ninguém quando ele mesmo era quem menos o necessitava, e agora, um momento em que precisa dele mais do que nunca, sofre com a sua ausência de um jeito que ele jamais imaginou que aconteceria.

Em 2008, quando assumiu o Barça, Guardiola tinha em sua cabeça o jogo de posição que aprendeu desde jovem. Como o futebol é jogado por humanos e não por peças de xadrez, precisava de um núcleo de jogadores com talento para colocá-lo em prática e rodeá-los por outros com potencial para aprendê-lo. Este pequeno grupo de jogadores que formavam a espinha dorsal culé – Victor Valdés, Puyol, Piqué, Xavi, Iniesta e Messi, além do novato Busquets que subia do Barça B junto com o técnico – tinha a técnica individual e o conhecimento tático necessários por terem passado por La Masía e já estarem há vários anos no clube, de modo que o tempo reservado à equipe se reduziria a aperfeiçoar a maioria dos jogadores. Isso acelerava o processo de construção do jogo coletivo, dava a Pep a oportunidade de ser competitivo desde o início e dar sequência ao seu crescimento envolto sobre o manto protetor das vitórias, que tem como consequência a interiorização inconsciente de que o que está sendo feito realmente serve – algo que, além de fortalecer os vínculos internos do grupo, também potencializa em campo a valentia para se atrever a jogar em um estilo que exige passes em zonas de alto risco, jogar a 50 metros de sua própria meta ou vencer o "tic espontâneo", produto do medo, de dar um passo atrás quando se perde a bola. Guardiola deu a seus jogadores uma ideia que eles próprios já conheciam, e lhes desenhou rotas táticas impossíveis de serem compreendidas pelos demais com base no conhecimento existente até aquele momento, jogando seus adversários contra as cordas e reservando a vulnerabilidade de sua equipe a essa parte mágica de sorte ou azar que existe no futebol. Se o futebol não tivesse formatos de competições que transformam qualquer projeto em algo excessivamente frágil – por exemplo, se houvesse uma Liga dos Campeões com duelos decididos em séries de sete partidas, como acontece na NBA –, o incontrolável teria bem mais dificuldades para interferir no destino daquela equipe.

Dominar a esquizofrênica Premier League com o monopólio da bola, controlando as partidas a partir da posse, era um desafio de proporções inimagináveis. Quando Mourinho iniciou a sua segunda etapa no Chelsea, no verão europeu de 2013, o campeão vigente – o último Manchester United de Ferguson – havia conquistado o título com folga, planejando cada rodada como um duelo de trocas de golpes – não à toa venceu nove jogos em que levou dois ou mais gols. Desde então, o melhor time da liga inglesa, com um escudo ou outro, com um treinador ou outro, ganhando ou não o campeonato, sempre coincidiu nos mesmos pontos fortes: um bloco ordenado e sólido que não precisa de posse de bola para dominar os jogos; um meio-campista defensivo com absurda qualidade nas roubadas de bola, confiança nos passes de segurança e capacidade física que lhe permite dominar as transições defensivas ou ofensivas (Matic primeiro, Kanté depois); um meia ofensivo de qualidade tão excepcional a ponto de sozinho gerar ocasiões de gol (Hazard, Mahrez), tornando possível a manutenção de uma dupla de volantes mais sólida; e um atacante autossuficiente, capaz de decidir encontros a qualquer momento (Diego Costa, Vardy) – a ausência deste camisa 9 na primeira temporada de Mourinho em sua volta ao Chelsea lhe custou a Premier League, mas os triunfos nos quatro confrontos diretos já haviam deixado que era esse o caminho mais correto a seguir.

Neste contexto, instaurar o futebol de Guardiola com um elenco que não o conhece e em um clube acostumado a não corresponder às expectativas de sua torcida é um objetivo impossível de ser alcançado sem paciência. Certa vez Thierry Henry disse que, como ponta esquerda de Guardiola, teve enormes dificuldades para entender que o ataque posicional lhe obrigava a ficar o mais aberto possível, muitas vezes renunciando a participar da construção de jogo com a bola, para que os gênios que povoavam a faixa central pudessem ter mais espaço para se associar ou conduzir a bola (para assistir a esta verdadeira aula sobre o Barça de Guardiola no YouTube, CLIQUE AQUI). O que para Pedro era uma realidade em cada treinamento desde os seus 17 anos, algo que facilitava a rápida adaptação de jovens como ele quando chegava o momento de subir para o time principal, para uma estrela mundial consagrada era bem mais difícil. Acomodar três ou quatro jogadores que desconhecem este tipo de futebol em uma equipe que já funciona com sete ou oito jogadores que não precisam dos ensinamentos mais básicos sobre esses conceitos de jogo era, sem dúvidas, muito mais fácil e menos demorado do que criar hábitos e inculcar noções deste estilo em um plantel inteiro. Para Henry ou Abidal era uma questão de se integrar em um clube que já tinha vida própria, que conhecia as leis a serem aplicadas, que falava o mesmo idioma e que reunia vários exemplos de jogadores com os quais se poderia aprender por imitação. Em Manchester esse ecossistema não existe, as leis desta ideia têm de ser ensinadas a todos e a subida de nível do jogo coletivo está condicionada ao sucesso do processo de aprendizados e encaixes.

No Bayern de Munique, os jogadores da seleção alemã já tinham uma leve proximidade a este futebol, o calendário oxigenava o processo – em sua última temporada, Guardiola disputou apenas 53 jogos, mesmo chegando nas semifinais da Liga dos Campeões e na decisão da Copa da Alemanha – e a superioridade bávara na competição facilitava a aquisição do hábito de vencer. Por sua vez, treinar o Manchester City significa renunciar à maioria das certezas que lhe acompanharam ao longo dos últimos oito anos. O treinador catalão, que havia dito "não" voluntariamente quando poderia seguir treinando Messi ou dominando o cenário alemão, aceitou se despir como treinador para seguir melhorando o seu traje de lenda deste esporte. Decidiu aventurar-se numa época em que o treinador de elite só tem tempo para treinar, construir em cima das dúvidas e da depressão própria de cada derrota, convencendo seus futebolistas, inclusive nos momentos mais dolorosos, que nenhum atalho é bom para se chegar ao objetivo final, embora as falhas individuais na saída de bola sejam naturais. E tudo isso ao mesmo tempo em que tenta compreender o futebol inglês.

A corrente de opinião que põe em evidência um juízo sobre a sua continuidade em Manchester realça a sua enorme conquista nos últimos anos: em um circo atropelado pelo imediatismo, em que o torcedor não entende de processos e o jornalista precisa colocar e retirar etiquetas para ter razão de forma atualizada, Guardiola ganhou o direito de viver em uma realidade utópica em que o dono do clube lhe dá o tempo necessário e a torcida o respalda. No final das contas, a esperança de ver sua equipe funcionar com o seu próprio escudo no peito sempre foi exagerada.

*Esta análise foi originalmente publicada em espanhol no site de Martí Perarnau, autor de "Guardiola Confidencial", lançado em julho de 2015, e "Pep Guardiola - A evolução", que será lançado dentro de poucos meses