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Por André Kfouri

Celso Roth deu uma longa entrevista ao jornal Zero Hora, na semana passada, com alguns trechos em que analisava o futebol num contexto mais amplo do que seu trabalho para manter o Inter na Série A do Campeonato Brasileiro em 2017. São comentários intrigantes de alguém com longa vivência no jogo; opiniões, especialmente sobre o futebol que se pratica na Europa, que nos estimulam a procurar o calendário para relembrar em que ano estamos. Ou, mais apropriadamente, em que ano Roth está. As aspas que você lerá foram extraídas da publicação original, para reproduzir o que foi dito e evitar ruídos de interpretação:

 

Celso Roth - Desde 2006, estou muito reticente com o futebol. Fui para a Europa, meu filho estava lá, fiquei para ver a Copa do Mundo. E digo: a retranca aumentou. Não mudou nada no futebol desde lá. Marcação dupla em todos os setores. Está pior plasticamente. Todos acham maravilhosa a Champions. Por quê? Todos os times são seleções. Quero ver trabalhar aqui, com o que tem no mercado, e fazer o time jogar... É diferente. Gostava de ver o Bayern de Munique, do Jupp Heynckes (em 2013). Fantástico, objetivo. Todo mundo fala do Barcelona. Não gosto de ver jogar. Vai para um lado, vai para o outro até fazer o gol. O meu futebol é mais vertical, mais objetivo, não abrindo mão da qualidade técnica. O futebol do Barcelona é plasticamente bonito. Mas descobriram como jogar contra eles, colocando todos atrás da linha da bola. Fica uma chatice.
 
Zero Hora - Hoje, tem algum time que joga no estilo que você gosta?
 
Celso Roth - Não sei te dizer. O Barcelona continua com o mesmo jeito de jogar. O Atlético de Madrid, do Simeone, é compacto, demonstra o nosso estilo. É time forte, tem qualidade técnica, contra-ataque rápido, tem muita sinergia com a torcida. Mas o Real Madrid, por exemplo, tem altos e baixos. Tem qualidade técnica, mas vive de momentos. O Barcelona tem vários craques e joga desse jeito, porque é a escola. Não é ruim. Mas vocês querem saber o meu gosto. Gosto é de futebol vertical.

 

Interessante, não? A qual Barcelona Roth se refere? Ao que foi criado por Pep Guardiola e está para sempre na conversa sobre o melhor time da história ou ao de Luis Enrique, que segue conquistando títulos com uma forma diferente de jogar? Tudo indica que é o primeiro, pela associação, por triste confusão de conceitos, com um jogo "pouco objetivo" e/ou "chato" – afinal, sob pena de repetição desnecessária, foi assim que esse time não só encantou o planeta como conquistou todos os títulos que existem no futebol espanhol, europeu e mundial. O Barcelona atual é capaz de praticar futebol direto e, por momentos, até reativo, sem abandonar a posse como ferramenta de desorganização do adversário. Mas esse não é o ponto, claro. Roth está falando de um time que, de certa forma, deixou de existir em 2012, há cinco temporadas. O Barcelona atual consegue ser "vertical", mais ao gosto de Roth, e foi campeão europeu assim, mas ele parece não ter notado. Talvez porque não viu o suficiente?

As questões sobre estilos no futebol estão diretamente relacionadas a preferências pessoais, e ninguém é obrigado a gostar do que não gosta. Mas quando essa escolha sugere uma opção por não acompanhar um certo tipo de jogo, ainda mais se feita por um técnico, fica mais fácil compreender a resistência à evolução. Dizer que o futebol não mudou desde 2006 e "está pior plasticamente" é fechar os olhos exatamente para o movimento que teve início no Barcelona, em 2008, com reflexos evidentes em times e seleções ao redor do mundo. É não perceber de que forma foram vencidas as duas últimas edições da Copa do Mundo. É não enxergar o desenvolvimento dos conceitos do futebol de posse e associação que continuam estabelecendo a vanguarda do jogo.

Mas há algo mais grave na declaração de Roth: a tentativa de encapsular a elite do futebol europeu como um ambiente ficcional e apresentar o cenário brasileiro como a dura realidade em que "se trabalha com o que se tem". É um argumento capcioso que pretende convencer as pessoas de que treinadores no Brasil estão de mãos atadas pela (falta de) qualidade humana com que trabalham, e por isso devem ser exaltados. Equívoco, e dos grandes. Quanto maior for a capacidade dos futebolistas à disposição de um técnico, mais difícil será dirigi-los e reuni-los em um organismo coletivo bem sucedido. Porque é necessário treiná-los, uma exigência que só está ao alcance dos mais atualizados e capacitados. O que está acontecendo neste exato momento com a Seleção Brasileira é um exemplo cristalino. Sem falar no desenvolvimento de jogadores, aspecto do trabalho de técnicos que é constantemente ignorado. As formas como jogadores de futebol são utilizados nos times mais sofisticados do mundo estão disponíveis semanalmente em canais da televisão fechada, para os interessados.

E a propósito: há técnicos "fazendo o time jogar" aqui no Brasil, sim. Tite o fez no Corinthians em dois períodos, principalmente no ano passado. Dorival Júnior tem um dos melhores aproveitamentos da temporada no Santos, com um time prejudicado por convocações da Seleção Brasileira e soluções internas que merecem atenção e aplauso. Cuca lidera o Campeonato Brasileiro com o Palmeiras, jogando o tipo de futebol que Roth diz preferir. E Zé Ricardo, em especial, mantém o Flamengo na corrida pelo título com uma visão de jogo coletivo que, mesmo se não produzir uma conquista neste ano, é motivo de ótimas sensações para o futuro. As limitações do futebol brasileiro não podem ser usadas como algemas, pois os conceitos mais avançados de preparação e competição não são segredos inacessíveis. Neste aspecto, o papel dos técnicos é destacadamente o mais importante, assim como a própria atualização.