DE MICALE A TITE, O OURO DA ESPERANÇA

Por André Rocha

Rogério Micale superou as desconfianças e as críticas cruéis depois dos empates nos primeiros jogos da Olimpíada com o que tinha de melhor a oferecer: convicção e conteúdo. Ajustou a Seleção dando liberdade a Neymar, abrindo Gabriel Jesus pela esquerda e encaixando os gremistas Walace e Luan para melhorar a dinâmica no meio-campo. Não para mudar, mas para aprimorar a ideia que norteou todo o trabalho: futebol atual e ofensivo, com saída de bola qualificada e o "caos organizado" na frente.

Duas boas atuações e dez gols contra Dinamarca e Honduras. Na decisão, a Alemanha expôs dois problemas: o primeiro, já conhecido, a dificuldade em lidar com a pressão desproporcional do favoritismo e com o jogo levado para o aspecto emocional. Tudo por conta do tolo clima de revanche dos 7 a 1.

O outro mais grave: diante de um sistema defensivo bem organizado, com jogadores próximos e fazendo os movimentos corretos, não conseguir criar espaços jogando coletivamente. Assim que o quarteto ofensivo entrava na intermediária adversária, um alemão saía para pressionar e induzia os brasileiros habilidosos a tentarem o drible. E normalmente perder a bola e dar o contragolpe ao adversário.

Salvo pelo golaço de falta de Neymar. Mas sem tabelas, triangulações, deslocamentos. Porque esses garotos desde sempre foram orientados a partir para cima, buscar a vitória pessoal. Até porque se destacar individualmente significava resolver o problema da família. Difícil pensar no coletivo.

Repare, por exemplo, na sutileza das entrelinhas na visão de Guardiola. Levou Douglas Costa para o Bayern de Munique. Agora Gabriel Jesus para o Manchester City em janeiro. Como queria Neymar antes – foi ainda com ele como treinador que começou o namoro do craque com o Barcelona. Valoriza o talento brasileiro para abrir defesas na base do drible. Mas apenas um entre os quatro ou cinco atacantes. Porque dois ou mais tentando no individualismo desequilibram todo o processo criativo.

É aí que entra Tite. Porque o Brasil de Micale foi um time na dedicação de todos na execução do plano de jogo. Gabigol e Jesus voltando pelos lados, Neymar colaborando sem a bola. A preocupação de valorizar a posse, com Renato Augusto voltando na linha dos volantes para qualificar a saída. Mas no último terço só havia aproveitamento do espaço e não o trabalho para criá-lo.

O Corinthians campeão brasileiro de 2015 tinha a mobilidade de Jadson saindo da ponta para dentro, criando superioridade numérica no meio ao circular às costas dos volantes e também abrindo o corredor para Fagner ou a infiltração de Elias. Tinha Renato Augusto acionando o passe vertical para a infiltração em diagonal de Malcom ou a explosão de Vagner Love, que girava por todo o ataque abrindo brechas ou aparecendo para finalizar.

Tudo à base de triangulações, tabelas, criação de espaços. Tite não terá o dia a dia para trabalhar, mas o importante é estimular nos poucos treinamentos e na conversa. Também o carisma e a capacidade de convencer do novo comandante da Seleção. Não é por acaso a convocação de 13 remanescentes da Copa América Centenário e sete campeões olímpicos. O que puder ser aproveitado de entrosamento e continuidade, melhor.

Porque a ideia na Seleção principal é clara: aprimorar a proposta da olímpica. Unir o talento ao jogo coletivo, com e sem a bola. Por isso o ouro é meta cumprida. Mas também a cor da esperança de dias melhores, já a partir dos jogos nas Eliminatórias contra Equador e Colômbia. Até pela necessidade de subir na tabela.

Resultado e desempenho. Jogar bem e vencer. Como foi, é e deve ser. Agora as chances de dar certo são maiores.