GUARDIOLA REDEFINE O FRACASSO

Por André Kfouri

Em 29 de abril, o jornal espanhol El País publicou um artigo assinado por Rafa Cabeleira que começava assim: “Sabe-se que as vitórias e as derrotas de Pep Guardiola só interessam aos inimigos de Pep Guardiola, sejam estes declarados ou disfarçados (…)”

O artigo todo é dessas raras peças que têm data mas não têm prazo de validade, e a frase acima é das mais precisas já escritas sobre o futebol pregado pelo quase-ex-técnico do Bayern, futuro treinador do Manchester City. Para quem é suficientemente privilegiado a ponto de compreender o jogo (o que é, acima de tudo, uma questão de disposição), seus mecanismos e significados, a exigência imposta a Guardiola é uma figura ficcional, tão distante da realidade quanto um time que jamais perde.

Os jogos entre Bayern e Atlético de Madrid foram exibições de dois times tentando o impossível. Um buscava o controle absoluto, a asfixia total, a imposição suprema. O outro queria a resistência infalível, o sofrimento insuportável, a submissão cínica. Ao final, nenhum deles conseguiu, o gol como visitante decidiu, e o time espanhol estará no avião para Milão. Merecidamente.

O que significa que o período de Guardiola no Bayern se encerrará sem ao menos uma decisão de Liga dos Campeões. Pior do que isso, significa que a insanidade da “tese do fracasso” ganhará adeptos, seja entre os que acham que o troféu é um direito adquirido do gigante alemão, os que garantem que o time dirigido por Jupp Heynckes seguiria vencendo a Champions por anos em sequência ou os que entendem que um técnico pode ser responsabilizado por um pênalti perdido.

O Bayern conquistou o torneio uma vez nos últimos quinze anos, a UCL jamais viu um bicampeão e técnicos não cobram pênaltis, mas esses pontos são reais demais para ser aceitos por discursos fantasiosos. Embora o título europeu seja um objetivo que não foi atingido nas últimas três temporadas, um fato indiscutível, há uma coleção de clubes e técnicos que trocariam suas trajetórias inteiras pelo “fracasso” do Bayern de Guardiola. Infelizmente para eles, não é possível.

A obra-prima de Guardiola não são os times que ele dirigiu, os títulos que conquistou ou mesmo a evolução do futebol desde 2008. É o monstro acéfalo que lhe cobra sucesso permanente mas, exatamente por ser incapaz de raciocinar, desconhece o que isso significa. É o julgamento sumário dos que “analisam” o jogo no sentido contrário, do resultado para o desempenho, ou dos que simplesmente sofrem de paixão pelo futebol vulgar (nenhuma referência ao Atlético de Madrid, um expoente do futebol defensivo tão competente quanto o Bayern, no outro lado do espectro) . É inútil tentar convencer o sujeito que gosta de Justin Bieber a compreender a grandeza de Eric Clapton.

Estamos diante de uma situação que converte críticas em elogios, sem que as pessoas percebam. Uma frase recente de Ottmar Hitzfeld ilustra o monstro com propriedade. O ex-técnico do Bayern disse que, se Guardiola não conquistasse a Champions, “outros técnicos poderiam ganhar o que ele ganhou” – um raciocínio que diminui todas as outras competições e a capacidade de todos os “outros técnicos”, elevando o catalão a um patamar utópico em que a conquista é uma garantia. Ademais, trata-se de um discurso reducionista que ignora a amplitude do trabalho de um treinador durante três temporadas e, sobretudo, como seu time joga futebol. Esse é o aspecto invisível para os soldados do resultado.

Sob o risco da repetição, os motivos que levaram o Bayern de Munique a contratar Pep Guardiola são conhecidos e estão documentados no livro de Martí Perarnau, editado no Brasil por esta Grande Área. Os executivos alemães queriam uma visão: um técnico cujo método pudesse conferir uma identidade futebolística ao clube. Após três anos, Guardiola fez isso e mais. Não há um dirigente do Bayern que veja a contratação como um projeto malsucedido ou inacabado, o que obviamente não quer dizer que o título europeu não estava nos planos. 

Afirmar que um treinador “foi contratado para ganhar a Liga dos Campeões” é uma tolice que o futebol simplesmente não aceita, o tipo de espuma que sobrevive em redes antissociais e atrações que não pretendem ser levadas a sério. Imaginar que um dos maiores clubes do mundo – apesar da aparente arrogância que o caracteriza – cometeu uma infantilidade dessa ordem é próprio de quem acha que o Bayern seria campeão alemão todo ano, independentemente do técnico. É uma tentativa fútil de aplicar ignorância de arquibancada à gestão de um clube desse porte. Compreende-se que repetidores dessa fábula não enxerguem o tipo de futebol praticado pelo Bayern e por que o clube seguirá se beneficiando do período em que Guardiola esteve no comando. 

Novamente, a culpa é dele. Ou melhor: não apenas dele. A culpa é dos executivos catalães, incompetentes, que gostariam que Guardiola seguisse sua carreira no Camp Nou. É desses alemães que, curiosos em futebol, lhe ofereceram um novo contrato em Munique. E é, principalmente, dos malucos que comandam o Manchester City (não por coincidência, contemporâneos de Guardiola no Barcelona), que poderiam contratar o técnico que bem entendessem e decidiram dar uns 50 milhões de euros na mão de um “fracassado” pelos próximos três anos. O futebol profissional de elite está repleto de perdedores, os verdadeiros vencedores estão no Twitter.