MICALE, TITE E A HONRA AO MÉRITO

Por Dassler Marques

Ter os melhores profissionais nos melhores postos deveria ser algo óbvio. Mas, no futebol daqui, em especial na CBF, quase nunca funcionou dessa maneira. A onda positiva que sopra sobre a seleção brasileira, com Tite e Rogério Micale, tem a ver com uma meritocracia alcançada por linhas extremamente tortas.

O Brasil abre a disputa dos Jogos Olímpicos nesta semana com o quase celebrado Micale no banco de reservas. O que só ocorreu por uma conjunção de fatores absolutamente circunstancial. Quando o treinador recém chegara à CBF, houve um esforço coletivo liderado pelo ex-diretor Gilmar Rinaldi para que Dunga aceitasse o time sub-23.

Na avaliação feita àquele momento, ninguém estava tão apto a suportar a pressão pela medalha de ouro inédita - quantas vezes você já ouviu essa expressão? – quanto Dunga. Como já estamos habituados no futebol brasileiro, aspectos emocionais, subjetivos e até políticos foram colocados à frente da parte técnica para aquela escolha. Já reparou que o problema para um clube em crise é quase sempre “elenco rachado”, “jogadores de sacanagem”, etc? Falta, às vezes, olhar mais para o campo, os treinos, o dia a dia.

Com base nesse espírito, Dunga, sem um mero trabalho convincente por clubes, esteve prestes a ser o único treinador a comandar o Brasil na Copa do Mundo e em duas Olimpíadas. Se seguisse até 2018, então, seriam quatro torneios de grande porte. Mas o fato de ser péssimo nas relações humanas, curiosamente, também ajudou a fritá-lo.

É importante perceber que as limitações técnicas para formar uma equipe de futebol ajudaram nesse processo que deixou o ambiente insustentável.  Não houve tempo hábil para encontrar um substituto até a Olimpíada. Tite, não se sabe se consultado ou não, jamais aceitaria. A vaga caiu no colo de Micale, que fazia trabalho convincente e tinha alguns dos requisitos.

O que ocorre com ele é um processo exatamente contrário do habitual, porque o treinador ganhou apoio por conta de razões meramente técnicas. Até aqui, começou a conquistar jogadores, torcedores e imprensa com ideias arrojadas, métodos avançados e claros... É uma vitória da parte técnica sobre o subjetivo. Honesto e humilde, ainda reconheceu quem é maior do que ele no futebol, como Tite e Neymar.

No futebol, é verdade, trabalhos bem elaborados normalmente são celebrados no início. Há relação com a ideia de céu e inferno, herói e vilão, que marca a forma de se analisar o esporte no Brasil. Mas, tal qual Micale, Tite também navega em uma maré de positividade. Desde Felipão em 2001, e poucas vezes visto na história da amarelinha, um treinador não assumia a seleção com tamanha aprovação.

Os "poréns" que poderiam marcar a escolha, como o fato de Tite ter assinado um manifesto, foram engolidos por Marco Polo Del Nero. Para trocar a estabilidade e os afagos do Corinthians, o treinador ganhou carta branca. A meritocracia, nesse caso, só funcionou porque Tite estava muito acima dos demais concorrentes e a CBF se viu absolutamente fragilizada. Percebeu que só conseguiria algum tipo de agenda positiva em meio a tantos escândalos, justamente, se a seleção brasileira fosse entregue ao profissional que quase todos desejavam ver ali.

Quem se satisfaz em ver os melhores profissionais nos melhores cargos precisa estar contente com o momento raro. Micale, campeão da Copa São Paulo, da Taça BH, da Copa do Brasil Sub-20 e vice-campeão mundial sub-20, tem a oportunidade de justificar a frase ‘honra ao mérito’. Tão presente em medalhas, ela seria sintomática caso o maior objetivo fosse alcançado.