NOVOS PARÂMETROS?

Por André Kfouri

Em dezembro de 2015, um texto publicado neste espaço relacionava a saída de José Mourinho do Chelsea a um "chamado da Força" para o "lado claro" do futebol. Bom humor, lógico. O treinador português construiu seu currículo com o tipo de futebol e os métodos que considera apropriados. Dizer a ele como prosseguir sua carreira seria, digamos, um exercício de petulância. O que não nos impede de imaginar como seria interessante se, ao assumir o Manchester United, Mourinho se desprendesse do vício do resultado a qualquer custo e passasse a jogar. Seria uma transformação notável. Pelas características do que se chama de "futebol do United", e pelo zelo do clube inglês por sua própria imagem, é provável que certas condições tenham sido apresentadas.

Antes de analisá-las, porém, um rápido contexto histórico. Em 1997, o período de Bobby Robson no comando do Barcelona chegava ao fim quando o clube contratou Louis van Gaal. Inicialmente, o holandês seria responsável pelas categorias de base, mas o declínio do time logo o converteu em uma óbvia escolha para substituir o técnico principal. Em uma reunião realizada em um restaurante, com a presença de Robson e Van Gaal, a diretoria do Barcelona informou Mourinho sobre a demissão do treinador inglês. Mourinho suspeitou que também perderia o emprego, ou achou que, após servir ao clube como tradutor e assistente de Robson, era ele quem deveria ser promovido. Em um discurso irado que teve até um murro na mesa, Mourinho externou sua insatisfação de forma tão veemente que impressionou Van Gaal. O episódio lhe valeu um convite do técnico holandês para permanecer no Barcelona como auxiliar, estendendo seu aprendizado. Quase vinte anos depois, Van Gaal foi dispensado do último ano de seu contrato no Manchester United para a chegada de Mourinho. Como dizem, o futebol é dinâmico.

Agora, de volta à possibilidade de conhecermos um novo José Mourinho em Old Trafford. Supondo que o longo processo de negociação entre as partes incluiu as configurações sob as quais o clube espera que seu novo técnico opere, não terá sido a primeira vez que Mourinho passa por esse tipo de "dinâmica". De acordo com o jornalista Guillem Ballagué, em seu livro "Pep Guardiola - Otra Manera de Ganar", o Barcelona entrevistou Mourinho em janeiro de 2008, na sede de um banco em Lisboa. O local foi sugerido pelo agente português Jorge Mendes, representante de Mourinho, para evitar o vazamento do encontro. O vice-presidente Marc Ingla e o diretor esportivo Txiki Begiristain receberam de Mourinho um cartão de memória com um resumo de sua filosofia de futebol e a estratégia que ele imaginava para o clube. O técnico português pretendia implementar o clássico sistema 4-3-3 do Barcelona com um meio de campo mais musculoso, semelhante ao que tinha usado no Chelsea (com jogadores como Lampard, Essien e Makelele). Mourinho também tinha feito uma lista com jogadores que seriam dispensados e alvos para contratações, assim como uma relação de nomes para a posição de auxiliar técnico, em que constavam Luis Enrique e Pep Guardiola.

Na procura pelo substituto de Frank Rijkaard, o Barcelona confeccionou um documento com os deveres do próximo treinador para todos os aspectos da relação entre eles. Os pormenores estão detalhados em "Barça - The Making of the Greatest Team in the World", livro de Graham Hunter. Foi na parte sobre o comportamento desejado pelo clube que a entrevista de Mourinho emperrou. Dizia o documento, a respeito do relacionamento com os meios de comunicação:

- Comportar-se de maneira prudente em todo o tempo;
- Aderir ao conceito de jogo limpo e demonstrar respeito por oponentes, árbitros e outras instituições;
- Evitar o uso excessivo da mídia e a criação de polêmicas artificiais. O foco sempre deve ser o futebol e a situação da equipe.

Ainda segundo Ballagué, Mourinho explicou aos dirigentes do Barcelona que elementos de sua conduta diante da imprensa eram um mal necessário, um aspecto da estratégia psicológica que ele usa para vencer jogos. Mourinho disse a Ingla e Begiristain que, para ele, os jogos começam e frequentemente terminam nas entrevistas coletivas. Apesar das boas impressões sobre a metodologia de futebol de Mourinho, os dirigentes do Barcelona não se sentiram confortáveis quando o treinador português admitiu que a postura pública abrasiva era parte integrante de sua maneira de conduzir times. O charme e a simpatia em situações particulares não eram compatíveis com a atitude desrespeitosa que ele assumia com frequência. Com o apoio da opinião de Johan Cruyff, o Barcelona escolheu Pep Guardiola, e o que se viu depois dispensa explicações – se bem que há quem até hoje não tenha compreendido exatamente, mas essa é outra conversa.

É possível, embora improvável, que o Manchester United esteja tão saudoso dos dias em que gerava manchetes por bons motivos que tenha dado a Mourinho uma licença para matar, por assim dizer. Carta branca para fazer o que bem entenda, da forma que entenda, desde que entregue vitórias e títulos. A rejeição a seu nome, por parte de figuras legendárias como Sir Alex Ferguson e Sir Bobby Charlton, tem origem tanto na marca de futebol que Mourinho prega quanto na maneira como ele se conduz. Sua contratação evidencia que esses obstáculos foram superados, ainda que não saibamos com quais contrapartidas. Os anos Ferguson mostraram que é possível vencer com futebol atraente e posturas respeitáveis, de modo que seria surpreendente que Old Trafford tenha se rendido ao resultadismo. O United é um clube que se alimenta da admiração que é capaz de gerar. Depois do equívoco com David Moyes e da decepção com Louis van Gaal, o clube não pode errar na terceira escolha seguida de um técnico.

Mourinho declarou, nesta semana, que suas guerras com Guardiola na Espanha faziam sentido porque ambos estavam em uma liga que seria vencida por um ou por outro. O conflito poderia gerar desequilíbrios. Na Inglaterra é diferente, por causa da concorrência. Não é inteligente preocupar-se apenas com um adversário. A declaração, se sincera, pode indicar uma mudança de postura, ao menos em relação ao vizinho. Mas Mourinho sempre foi provocador nos tempos de Chelsea, então convém aguardar. De qualquer forma, o desempenho do Manchester United é o que de fato importa e a oportunidade que se apresenta é valiosa. Mourinho pode revitalizar sua trajetória. Ou repetir o ciclo esquizofrênico de seus últimos trabalhos, com poucas conquistas e muitos antagonismos.