O DIA EM QUE GUARDIOLA TRAIU A SI MESMO*

Por Editora Grande Área

Guardiola sabia que o Real Madrid se fecharia na Allianz Arena naquele 29 de abril de 2014. A vitória merengue no jogo de ida havia sido por 1 a 0, e o time de Carlo Ancelotti teria mais chances de avançar para a grande decisão da Liga dos Campeões se a sua proposta fosse cautelosa, apostando nos contra-ataques fulminantes de Bale, Benzema e Cristiano Ronaldo.

Pep, então, lembrou-se do conselho que havia recebido de Garry Kasparov, o lendário enxadrista, em um jantar durante o seu ano sabático em Nova York: "Lembre-se: você não ganhará os jogos somente por ter as peças mais adiantadas".

Naquele momento de reflexão, decidiu que jogaria no 3-4-3. Seriam três zagueiros, com os laterais na linha do meio de campo a fim de povoá-lo para se proteger bem dos contra-ataques madridistas e para dominar as ações durante os 90 minutos – e, se possível, escalando Götze como centroavante, que com a sua tendência de recuar para apoiar os armadores faria do Bayern um time ainda mais absoluto no meio de campo.

"Dome, não me deixe mudar de opinião", disse Guardiola, referindo-se a Domènec Torrent, um de seus auxiliares. "Tem que ser assim".

Mas no avião de volta a Munique ele começou a pensar diferente. Considerou que só haviam treinado a defesa com três zagueiros uma ou outra vez, e que não havia tempo hábil para prepará-la da maneira ideal para o segundo confronto. O 4-2-3-1 que lhe dera bons resultados na Bundesliga ganhava cada vez mais força em seus pensamentos como a tática confiável, e o 3-4-3 se tornava uma opção cada vez mais prematura, que só deveria ser aprimorada na temporada seguinte.

Tudo viria a piorar na semana do duelo derradeiro, quando Pep deixou-se influenciar pelo ambiente de revanche que se instaurou em Munique. Os jogadores estavam muito animados, e quando perguntados sobre o que sentiam só souberam falar sobre o espírito alemão para as viradas, pediram a ele para que os escalasse para "jogar com o coração", para partir com tudo e atacar ferozmente desde o primeiro minuto. A análise tática do confronto e das possibilidades do Bayern deu lugar a um clima de virada épica. Assim, o 4-2-3-1 (que já era uma ideia distante daquela que Guardiola havia concluído ser a ideal para a partida) logo transformou-se em um 4-2-4.

Entre a paciência e a paixão, Pep acabou se inclinando para a paixão. E se deu mal. Muito mal.

Embora a Allianz Arena fervesse como um caldeirão, reunindo as condições ideais para uma virada com torcedores animados e jogadores motivados, a precisão cirúrgica dos visitantes estufou as redes de Neuer em três ocasiões somente no primeiro tempo, com o quarto gol saindo já nos minutos finais do segundo. O primeiro lance foi sintomático: o árbitro apitou, o Real Madrid recuou a bola para começar uma troca de passes e Mandzukic e Müller partiram como loucos perseguindo a bola. Era um gesto de coragem e ambição, mas também uma indicação de que o meio de campo iria ficar vazio a noite toda. O Bayern atuou acelerado do início ao fim, e os comandados por Ancelotti mostraram que uma coisa é ter a bola, mas outra, bem diferente, é ser capaz de controlar o jogo.

Tempos antes, Pep havia sido contundente: "Nós dominamos os jogos quando reunimos os bons por dentro. E, se eu perder, dá no mesmo. Irei feliz para casa, porque terei jogado da forma em que acredito". No entanto, no dia mais importante de sua primeira temporada sob o comando do Bayern de Munique, Pep traiu a si mesmo. Não jogou como acreditava que devia fazer nem tentou construir o jogo que considera imprescindível para avançar e ganhar. Desobedeceu não apenas o que acredita, mas também tudo aquilo que vinha sendo semeado ao longo da temporada.

"Eu me equivoquei, cara. Me equivoquei por completo. Passei toda a temporada me negando a usar um 4-2-4, todo o ano resistindo, e usei logo no dia mais importante. Que cagada! Foi uma grande cagada. A pior cagada que eu já fiz como técnico". Na mesma semana do desastre, a sentença foi dada: "Já foi. Acabou. De agora em diante, se é para errar, que seja com as minhas ideias".

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