O DILEMA DO FUTEBOL DO FUTURO

Por André Rocha

Jogar com cada vez mais intensidade, concentração e rapidez, tanto na tomada de decisão quanto na execução, e ser obrigado a fazer isto em mais partidas, com menos tempo para descanso e treinamentos. Eis o grande dilema do futebol no seu mais alto nível, pensando no futuro.

FIFA e UEFA só pensam em criar e aumentar competições. Plano de ampliar o Mundial Interclubes para 16 ou 32 equipes, a Copa do Mundo com 48 seleções, a Liga das Nações com 55 países europeus. Dependendo do desempenho de clube e seleção, um jogador pode alcançar quase 90 partidas em um ano.

A ideia do "futebol líquido" trazida pelo jornalista Martí Perarnau – um futebol jogado com fluidez e num ritmo eletrizante, alternando pressão no campo de ataque, deslocamentos e passes verticais para acelerar quase o tempo todo – exige cada vez mais fisicamente e não bate com o calendário inchado para atender a interesses comerciais.

A TV quer cada vez mais jogos ao vivo. Com Youtube, redes sociais e uma geração de espectadores cada vez mais dispersa e menos fiel, é um dos únicos eventos capazes de manter alguém num mesmo canal por pelo menos 90 minutos. Por isso os contratos cada vez mais milionários.

Só que a conta não fecha. Como é difícil imaginar os clubes peitando as entidades máximas e bancando desfiliações e outras medidas mais drásticas, convém pensar em soluções mais viáveis.

A primeira delas é que os clubes invistam em superelencos. Não numerosos, mas muito qualificados. De 25 a 30 jogadores capazes de manter o nível de excelência das principais forças da Europa e do planeta.

Para não quebrar a banca, mesmo com os dribles no fair play financeiro de alguns clubes, o melhor a fazer é apostar cada vez mais nas divisões de base. Formar o talento, mesmo sem o amadurecimento da estrela, para que na ausência desta – por lesão, suspensão e, principalmente, repouso em jogos menos importantes na temporada – a qualidade técnica se mantenha.

O Barcelona não tem conseguido e na última temporada esfalfou Messi, Suárez e Neymar até o limite. Porque a reposição com Munir e Sandro Ramírez era muito mais fraca a ponto de comprometer a capacidade de competir. Já Zidane qualificou opções no Real Madrid, com Lucas Vázquez sendo o melhor exemplo.

Time forte, reservas quase no mesmo nível com exceção das grandes estrelas, mas sem criar abismos, e jovens preparados, inclusive trabalhando com proposta de jogo semelhante para que o encaixe  seja praticamente imediato. Porque o rodízio, tão criticado por aqui, será obrigação.

Outro dever dos atletas, desde a formação e com cada vez mais ênfase, é buscar a precisão técnica. Tentar tangenciar a perfeição nos fundamentos, especialmente passe e finalização.

Porque o erro na saída de bola tem custado cada vez mais caro com a pressão crescente dos adversários, muitas vezes bloqueando desde a área do rival. O time saindo, com linhas avançadas, e o equívoco gera o contragolpe mortal.

A menos que a chance seja desperdiçada. Nos 3 a 1 do Chelsea sobre o City, em Manchester, toda a discussão sobre a eficiência das variações táticas da equipe de Antonio Conte poderia ter caído por terra se Kun Agüero e Kevin De Bruyne tivessem a mesma precisão de Diego Costa, Willian e Hazard.

Porque esse jogo, por mais complexo que tenha se tornado ao longo do tempo, ainda tem como objetivo máximo o gol. Estrelas cada vez mais milionárias em partidas cada vez mais disputadas nas principais ligas não podem dar tantas chances de recuperação aos adversários.

O gol é e sempre será de ouro. Transmite confiança, no jogo em casa traz a torcida para perto e muda a atmosfera. Também deixa o oponente zonzo e permite alternar ritmos, dosar energias. Aproxima da vitória e normalmente consagra a atuação consistente.

Por isso o objetivo deve ser o erro zero, ainda que seja uma utopia e a falha individual continue sendo um dos "molhos" importantes da receita que faz este esporte ser o mais apaixonante do planeta.

Para que o futebol siga evoluindo mesmo em um cenário caótico de jogos em cima de jogos será preciso criatividade dos profissionais. Inclusive com possíveis mudanças nas regras, como a permissão para mais substituições ao longo de um jogo. Mas com qualidade equivalente. Talento e precisão. Técnica para não exaurir mentes e músculos.

Já que o show precisa continuar, que seja o melhor possível.