O FUTEBOL LÍQUIDO

Por André Kfouri

Desde que os escoceses inventaram o passe, em 1872, a maneira como times fazem a bola se mover pelo campo é um dos mais notáveis fatores de distinção no futebol. As grandes equipes – seleções ou clubes – da história deste jogo, aquelas que demarcaram épocas de influência pela forma como jogavam, sempre se notabilizaram pela relação que mantinham com a bola, principal ferramenta de superação de adversários. Dominar a bola e o campo, de acordo com Arrigo Sacchi, é um dos requisitos para determinar a grandeza de um time.

O mais alto nível do futebol de posse encanta oponentes por intermédio da hipnose, hipérbole que não está muito longe do que de fato acontece quando um time “esconde” a bola do adversário, como disse Sir Alex Ferguson após a derrota do Manchester United para o Barcelona, na final da Liga dos Campeões de 2010/11. A circulação e os movimentos coordenados que a permitem geram impotência, desesperança, uma sensação de inferioridade que, na maioria das ocasiões, é o prenúncio da derrota.

A busca tem sido por aumentar a velocidade da troca de passes sem comprometer sua precisão, pois é necessário que jogadores avancem juntos para seguir controlando a bola e os espaços, criando fendas pelas quais se esvai a capacidade defensiva do rival. Organizar para desorganizar continua sendo uma regra de ouro, mas é provável que a vanguarda do futebol esteja se encaminhando para uma espécie de caos ordenado, ainda mais difícil de marcar, logicamente mais difícil de produzir.

O futebol dessa nova era é um jogo em que o treinamento e a noção coletiva desbravarão a intuição do jogador. É o próximo nível da automatização, em que times processarão o jogo com associações quase inconscientes. Um patamar de atuação em que a fluidez, característica perseguida por todas as equipes que pretendem ter posse e vencer como resultado de superioridade técnica, adquirirá um significado diferente. Paradoxalmente, um significado literal.

Em “Pep Guardiola – La Metamorfosis” (cuja versão em português será publicada pela Editora Grande Área no primeiro semestre de 2017), Martí Perarnau abre uma janela para a teoria desse novo futebol. Em conversa com Paco Seirul.lo, ex-preparador físico do Barcelona e atual responsável pela área de metodologia de treinamento do clube, surge o “conceito quântico” que é a base da revolução:
 

“No jogo, tentamos o quanto antes tomar a iniciativa não só porque temos a bola, mas porque criamos uma situação que é favorável a nós. A isso chamamos ‘espaços de fase’, e está definido por: onde está a bola, em que situação está, onde estão os oponentes, as distâncias que há entre a bola e os oponentes e os nossos próprios jogadores, as trajetórias de cada jogador e cada oponente e a bola, a orientação do jogo, a organização do jogo… E tudo isso constitui unicamente uma situação de jogo que dura um décimo ou dois décimos de segundo. No momento em que a bola muda de lugar, os jogadores mudam e aparece uma nova situação. E assim sucessivamente. Isto requer muitíssima complexidade e tem uma base nas teorias da termodinâmica. Quando um líquido esquenta, as partículas se movem mais e se organizam de uma determinada maneira ou de outra em função de elementos que aparecem nas características desse líquido. Você uma vez escreveu: ‘O Barça não é sólido, mas líquido’. É uma definição acertada: é líquido. Porque quando dizemos: ‘Esse time é muito sólido, é muito compacto’, na realidade ele é muito vulnerável. Os líquidos são menos vulneráveis do que os sólidos. Do sólido, pode-se conhecer tudo, inclusive seus pontos débeis. Você golpeia um ponto débil e o quebra. O líquido, não”.


Líquido…

Pense nos grandes times da história, focalizando exatamente a fluidez de movimentos que exibiam. Não faz todo o sentido imaginá-los como equipes “líquidas”? Abstraindo os mapas de calor atualmente usados para apresentar de maneira ilustrada as tendências de um time em relação a ocupação de espaço, trajetórias da bola, região de atuação de cada jogador… não é possível notar manchas que revelam o comportamento dos movimentos dessa equipe, como se ela se separasse e se fundisse novamente?

Agora volte às palavras de Seirul.lo: “Quando um líquido (time) esquenta, as partículas (jogadores) se movem mais e se organizam de uma determinada maneira ou de outra em função de elementos que aparecem nas características desse líquido (time)”. Ele está falando sobre uma equipe de futebol que se movimenta e troca passes a uma velocidade tão superior, assumindo formatos tão diferentes a cada associação, que o oponente não é capaz de acompanhar. Uma equipe que se liquidifica.

É lógico perceber que o Barcelona está seriamente envolvido no desenvolvimento dessa forma de jogar, e que Pep Guardiola, que tem Seirul.lo como um de seus mentores, também trabalha na evolução do jogo de posição no Manchester City. Mas é difícil identificar com precisão em que estágio se encontram, uma vez que o time catalão se afastou um pouco de sua identidade coletiva, e o inglês engatinha na aprendizagem. Não se deve ignorar a capacidade dos alemães.

Com auxílio de programas de computador que detectam padrões de movimentação de jogadores para solucionar problemas, a seleção alemã tem tentado encurtar a distância tecnológica do futebol para outros esportes, como a NBA e a NFL. Um dos objetivos do técnico Joachim Löw é diminuir ao máximo o tempo de posse de bola de cada jogador, consequentemente elevando o ritmo de circulação ao construir movimentos com interações mais rápidas.

Sob o comando de Thomas Tuchel, o Borussia Dortmund se caracteriza pela clara intenção de intensificar a troca de passes com aceleração vertiginosa. Tuchel, discípulo de Guardiola, é um proponente do aprendizado por intuição. Os treinamentos do Dortmund procuram submeter jogadores a dificuldades maiores do que as encontradas em competição, de forma a condicioná-los a novos métodos e acostumá-los a resolver situações de jogo sem pensar.

E o Liverpool, não por coincidência treinado por um técnico alemão, Jürgen Klopp, talvez seja o time que mais se aproxima do esboço desse futebol organizadamente caótico que o futuro nos reserva. Klopp caminha para abolir as funções formais de cada jogador em nome das interações necessárias para que o time opere, no sentido coletivo, da maneira menos previsível possível. Seu Liverpool ataca quase sem freios e recupera a bola com ferocidade.

Além dos conceitos avançados e de sua aplicação em treinamentos que devem acompanhar a necessidade de novos objetivos, uma das fronteiras do jogo do futuro é a questão física. O nível de exigência para que jogadores sejam capazes de “liquidificar” times é brutal. Talvez seja por isso que técnicos como Guardiola, Klopp, Tuchel e Antonio Conte sejam obsessivos com a preparação nutricional e o descanso de seus atletas. O futebol líquido exigirá máquinas para processá-lo.