O GATO, O RATO E A ARMADILHA NO JOGO QUE INDUZ AO ERRO

Por André Rocha

O Barcelona teve 72% de posse no Vicente Calderón. O PSG chegou a essa média em boa parte da disputa em Manchester. Derrotas e eliminações. Atlético de Madrid e City nas semifinais da Liga dos Campeões.

O Wolfsburg não resistiu a Cristiano Ronaldo, mas na Alemanha foi outro a surpreender permitindo que o Real Madrid tivesse a bola. O Bayern de Guardiola, símbolo máximo do jogo posicional e da troca de passes, sofreu para eliminar o Benfica.

O estilo que preza a posse de bola é vistoso e dominante, se bem executado. Requer concentração absoluta, erro zero. Porque joga com linhas adiantadas. Exige movimentos bem coordenados. Quem tem a bola precisa passar certo. Os demais dão apoio, criam triângulos, opções. Sem ela, pressão imediata, porque o passe do adversário não pode sair com tempo e liberdade às costas da retaguarda.

Também exige criatividade. O passe diferente que fura as linhas do oponente. Aceleração no último terço. Criar espaços é complexo. Por isso é mais que um estilo. Filosofia. De vida, até. De propor, comandar. Marcar época. Uma assinatura.

Toda ambição, porém, impõe riscos. E a cobrança por resultados acoplados ao espetáculo é cruel. Um toque equivocado e o contragolpe pode ser letal. Em velocidade, com qualidade equivalente e passes práticos e verticais faz estragos. Exemplo clássico da armadilha: Bayern 0 x 4 Real Madrid. Munique, 2014.

José Mourinho e, principalmente, Carlo Ancelotti mostraram o antídoto ao método Guardiola. Quando a posse foi o rato e o contragolpe, o gato. Seguindo uma das lógicas mais elementares do jogo: é mais fácil destruir do que construir. Pensamento que norteia a escolha de volantes qualificados. Mais simples ensinar o talentoso a marcar que fazer o limitado criar.

Eis o ponto. Há alguns anos um treinador campeão brasileiro disse a este que escreve: “O problema é quando você tem a bola”. Na época foi um choque. Deu vontade de encerrar a entrevista ali. Hoje, o Atlético de Simeone, o Leicester virtual campeão inglês e tantos outros times ajudam a esclarecer a tese antes controversa. Com duas práticas bem combinadas. Um aprimoramento do jogo sem o controle da pelota. Não esperando, mas forçando o erro do outro lado.

A primeira: nas cobranças de lateral e tiros de meta, linhas adiantadas e pressão no campo de ataque. Para evitar a saída com passe limpo, que ajuda a construir o jogo de posição: avançando o próprio time e entrincheirando o rival.

Também com o propósito de induzir ao erro bem próximo da meta rival. Uma bola roubada na entrada da área facilita muito mais que a transição desde a defesa, já que as linhas dessas equipes mais pragmáticas ficam chapadas na entrada da própria área. Exatamente a segunda prática, mais básica: o “ônibus” à frente da própria meta. Famoso com a Internazionale em 2010 e o Chelsea de 2012. Vencedores.

2016 é ano de Eurocopa. Competição que tantas vezes norteou ou consolidou estilos e padrões – o 3-5-2 da Dinamarca em 1984, a Grécia que tangenciou a perfeição defensiva em 2004, a nova Espanha sem fúria e com a bola nas duas últimas edições. Pode apontar novos caminhos para o futebol mundial.

Mas antes as semifinais da Liga dos Campeões serão ótimas referências. Com o duelo emblemático entre Guardiola e Simeone. Do outro lado, o peso da camisa do Real Madrid obrigando a equipe de Zidane a propor o jogo diante do City, novato em semifinais da principal competição de clubes do planeta. Confortável com a posse, mas também no jogo de transição procurando De Bruyne e Agüero.

Quem será o gato? E o rato? Muitas questões, uma certeza: daqui para frente vencerá quem acertar mais em um jogo de indução ao erro.