O HISTÓRICO BAYERN-ATLETI DE 1974*

Por Editora Grande Área

Talvez uma das melhores maneiras de analisar o Bayern de Munique tricampeão europeu durante os anos 70 seja voltando aos dois jogos contra o Atlético de Madrid pela final da Copa da Europa de 1974, a primeira de sua sequência de títulos. Era um Bayern que chegava à decisão de Bruxelas como grande favorito aos olhos de todos: então tricampeão da Bundesliga e formado por jogadores famosos no mundo inteiro, como Franz Beckenbauer. Do outro lado estavam os colchoneros, que, embora já tivessem chegado a duas semifinais de Copa dos Campeões (em 1959 e 1971) e contassem com a melhor geração de sua história – que lhe deu quatro Ligas e três Copas da Espanha naqueles anos –, eram um time de nomes pouco conhecidos internacionalmente.

Para qualquer espectador que tenha sido educado futebolisticamente a partir da década de 1990, especialmente na Europa, o Bayern do primeiro jogo final se valia de conceitos táticos praticamente indecifráveis. Os minutos se passavam e não era possível rotular o esquema dos bávaros. O que era aquilo? As fichas do jogo colocam Breitner como lateral-esquerdo, mas ele estava em toda parte – algumas vezes à direita de Beckenbauer, outras à esquerda, às vezes acabava jogando como meia e frequentemente não voltava para a defesa. E não era só ele que atuava assim.

Com bola rolando, no entanto, o Atlético surpreendeu. Começou a partida sem nenhum medo ou complexo, muito seguro de si mesmo. Os alemães eram agressivos e tentavam chutes de fora da área, mas pouco a pouco os espanhóis foram dominando as ações do jogo, trocando passes precisos e "escondendo" a bola para anular um adversário que tentava impor o seu ritmo mais intenso. Não dava para dizer que o Bayern era um time de ligação direta – até porque seria uma loucura jogar pelo alto com o baixinho Gerd Müller como centroavante –, mas os bávaros tentavam verticalizar muito os ataques. E assim, a cada minuto que passava, o Atleti se tornava cada vez mais o dono do jogo.

Os alemães também estavam muito mais cansados do que os espanhóis, e talvez seja essa a explicação para tanto domínio. O título da Bundesliga havia sido garantido no sábado anterior, apenas quatro dias antes, num jogo muito difícil. Enquanto isso, a partida do Atlético contra o Sabadell pelo Campeonato Espanhol havia sido remanejada para duas semanas mais à frente, o que acabou dando a seus jogadores incríveis dez dias de descanso.

No segundo tempo, partiu do próprio Bayern a decisão de ir recuando, de fazer um jogo muito mais de espera. A certa altura, então, aconteceu o momento mais engraçado da transmissão – hoje, mais de quarenta anos depois, a graça do episódio fica evidente. "Os espanhóis praticam um jogo que tem pouco a ver com as tendências modernas", disse o comentarista da TV austríaca, inconformado com a troca de passes de Irureta, Adelardo, Aragonés e companhia. Com ar de superioridade, dizia que o jogo do Atlético de Madrid era cheio de "passes e frivolidades" – uma crítica muito parecida à que Beckenbauer chegou a fazer ao Bayern de Guardiola, em 2014, o que talvez seja um indício de como culturas futebolísticas e preferências por estilos de jogo também podem ser intrinsecamente nacionais.

O tempo normal se encerrou com empate sem gols e o jogo foi para a prorrogação. Com um golaço de falta de Luis Aragonés, a seis minutos do fim, o Atlético pôs a mão na taça. A torcida colchonera cantava e já comemorava o primeiro título europeu de sua história. O Bayern parecia morto. No último instante, porém, o famoso chute do zagueiro Schwarzenbeck neutralizou a euforia da torcida de Madrid e forçou a realização de uma segunda partida, que viria a ser jogada dois dias depois.

O resultado final explica por si só, mas o Bayern do dia 17 de maio de 1974 foi muito diferente do Bayern que existiu no dia 15. No jogo-desempate, o estádio tinha apenas metade do público que esteve presente na primeira final – muitos torcedores não puderam continuar hospedados na Bélgica por mais tempo, naquela que acabaria sendo a única edição de Copa dos Campeões a precisar de dois jogos e de mais de um dia para coroar um vencedor. Os alemães, no entanto, pareceram ter entrado em campo ainda com o sangue quente e sob a excitação provocada pelo gol de Schwarzenbeck no último instante do primeiro confronto, momento em que o time renasceu depois de já ter sido dado como morto.

Muito se diz até hoje que o gol alemão no apagar das luzes do primeiro jogo teve o efeito exatamente contrário no Atlético, mas basta assistir à segunda partida para perceber que, apesar da superioridade de quarta-feira não ter sido vista em instante algum na sexta, o time espanhol só desistiu mesmo ao sofrer o terceiro gol dos alemães, que venceriam a final por 4 a 0. Até então, o time atuou com muita dignidade, de igual para igual, e com enorme fé em suas chances de reação.

Uli Hoeness, hoje presidente do Bayern, fez uma partida impecável. Era um meia-armador de movimentos rápidos e ideias inteligentes, com uma visão de jogo genial e grandes mudanças de ritmo. A contundência do placar e a primeira conquista na Copa da Europa para os bávaros dariam o título que aquela geração dourada da Alemanha, que inclusive já garantira ao país a Euro de 1972, ainda precisava para se transformar em lendária. O sistema tático das marcações individuais e das posições aparentemente caóticas havia vencido.

*Esta e tantas outras histórias imperdíveis estão contadas no livro “Gol da Alemanha”, de Axel Torres e André Schön, que será publicado no Brasil em julho de 2016 pela Editora Grande Área.