O "JOGAR BEM" E O FUTEBOL POBRE

Por Rafael Oliveira

O assunto do momento é o nível do futebol apresentado na reta final do Campeonato Brasileiro. Não apenas pela sequência recente do líder Palmeiras, mas também por outras transformações que podem ser observadas pelo mundo.

Em primeiro lugar, "jogar bem" é um conceito extremamente subjetivo. Partindo do princípio de que diferentes estratégias são legítimas, jogar bem seria executar o que se propõe a fazer. Uma confusão constante é a do “jogar bonito”, algo que também tem seu caráter de subjetividade e é ainda mais difícil de alcançar no equilibrado futebol atual – um time defensivo pode empolgar quando encaixa bons contra-ataques, por exemplo.

Portanto, se jogar bem é subjetivo e jogar bonito é circunstancial, talvez o ponto principal a ser discutido seja se o futebol apresentado é pobre ou não. Pobre de ideias, de conceitos. Padrões que mostrem os detalhes, treinamentos e mecanismos que sustentam a proposta daquela equipe. O que ela pretende? Como quer ser superior nos 90 minutos?

O primeiro passo é identificar tudo isso com o desafio de desprender, na medida do possível, as ideias dos resultados. A irregularidade do futebol brasileiro é uma grande armadilha. Quase todos oscilam e é fácil colocar tudo no mesmo pacote. Para falar de ideias, é fundamental falar de técnicos. Eles não ganham ou perdem cada jogo, mas não há dúvidas sobre a influência dos trabalhos no produto final. Basta observar casos recentes: os mesmos jogadores, questionados e rotulados como limitados há semanas ou meses, fazem hoje de Liverpool e Chelsea dois dos times mais interessantes da Inglaterra.

No Liverpool, uma pré-temporada completa ajudou Jürgen Klopp a implementar seu estilo agressivo de muita movimentação e intensidade. No Chelsea, a mudança tática de Antonio Conte fez o clube superar uma pesada derrota para o rival Arsenal e encaixar cinco vitórias sem ser vazado. Com maior organização defensiva e muita força nas transições ofensivas, virou outro time. Em comum? O crescimento coletivo que potencializa individualidades como Philippe Coutinho e Hazard, dois dos melhores da Premier League até o momento.

Existe uma tendência natural de querer definir individualmente as peças em função do resultado. Assim, se o time não funciona, o grupo de jogadores não serve. E quantas vezes um curto espaço de tempo prova o contrário? Equipes se modificam, jogadores crescem ou caem, e as impressões mudam radicalmente. A melhor frase para definir é: "No futebol, o todo não é a mesma coisa que a soma das partes". E aqui vale citar a Universidade do Futebol como ambiente que promove esse tipo de debate com a devida profundidade – e que a própria imprensa carece muitas vezes. São inúmeros fatores internos e externos que influenciam.

A semana de Brasil x Argentina, o jogo mais aguardado das eliminatórias sul-americanas, é um bom momento para o debate. Há poucos meses, seria o duelo da "geração ruim" contra "o ataque mais bem servido entre seleções". Hoje, a classificação mostra o contrário. Mas não nos prendamos aos resultados e rótulos, e sim às transformações e ao desempenho.

Tite não fez mudanças radicais no elenco ou no sistema de jogo, e sim no funcionamento coletivo. As ideias e mecanismos. Surpreende a velocidade com que isso foi colocado em prática em um trabalho que não permite os treinamentos diários e contínuos. Mas o conteúdo faz diferença na soma das partes e, hoje, aquele discurso de contestar toda uma geração se mostra totalmente vazio.

Na Argentina, o caminho tem sido oposto e preocupante. Atuações recentes mostram uma pobreza coletiva incompatível com a qualidade que o elenco reúne. É o desafio para Bauza, um treinador com currículo vencedor, mas que poucas vezes buscou um jogo mais elaborado nas equipes que passou. Uma seleção de alto nível pede mais, mesmo que as principais cabeças do país estejam em clubes europeus. Para citar apenas um nome, basta ver o impacto de Sampaoli na seleção chilena e já no Sevilla.

Como não há fórmula exata no futebol, é óbvio que a Argentina pode superar o Brasil. A capacidade individual ainda decide muitas partidas. E em alguns casos, mesmo com um nível distante do ideal, pode levar longe. Um exemplo, voltando ao Brasileirão, é o Atlético-MG de Robinho, Fred e um ótimo elenco que coletivamente nunca atingiu o patamar que se esperava. Um exemplo mundial é o ano do Real Madrid com Zidane. Nunca empolgou ou convenceu, mesmo com título da Champions League e com a atual invencibilidade que mascara inúmeros problemas. Parece loucura, mas a análise do jogo muitas vezes leva a um discurso oposto aos resultados. Faz parte e não desmerece quem conquista as vitórias e títulos. São questionamentos saudáveis, desde que entendidos e vistos sem perseguições, fanatismo ou clubismo.

A visão de futebol no Brasil, em geral, mostra um caminho diferente. Primeiro uma equipe obtém o resultado e depois, a partir dele, busca-se o mérito ou ponto a ser destacado. O desafio é identificar as ideias apresentadas para se chegar até o resultado, mesmo que ele eventualmente não venha. Talvez o grande exemplo do Brasileirão seja o Santos de Dorival Júnior. O time coletivamente mais rico em ideias de jogo e que não deveria precisar entrar na briga por título para ser valorizado. Até porque tem elenco inferior aos três adversários no topo da tabela.

Não, o Santos não joga bem toda semana. Também não tem um futebol sempre bonito e nem escapa da irregularidade. Mas, mesmo na fase ruim ou nos tropeços, é possível enxergar certos padrões. Ideias que nem sempre são executadas com sucesso, mas estão lá. Sobre o Palmeiras, provável campeão, o melhor futebol ficou no primeiro turno, mas a solidez defensiva e o repertório nas bolas paradas garantem um invejável aproveitamento na segunda metade da competição. É pouco? Analisando o nível dos jogos com mais rigor e cobrando iniciativa para construir a partir da posse, talvez sim. O que não tira a competência ou os méritos pelos resultados alcançados.

Questionar o nível do futebol jogado pelo líder do Brasileirão é legítimo. E vai além do Palmeiras, serve para o todo. Os últimos anos mostram mais times capazes de se organizar defensivamente no Brasil, ainda que pouco se debata sobre os modelos de marcação, por exemplo. Agora falta mais gente jogando bola para superar isso com qualidade. Com mais ideias e mais jogo coletivo, até para potencializar e não só depender do talento individual que existe nos principais elencos.