O MELHOR ARQUITETO DO FUTEBOL BRASILEIRO

Por Dassler Marques

Responsável por dissecar Pep Guardiola – algo que inclusive já virou livro, publicado por esta editora com o título de Guardiola Confidencial –, o jornalista Martí Perarnau divide treinadores de futebol em dois potes: administradores e arquitetos. É importante se dar conta de como o perfil do arquiteto, na evolução recente da modalidade, cada vez mais ganha importância. Nos clubes brasileiros há poucos deles, e o principal nome parece ser Roger Machado.

A final da Copa do Brasil entre Grêmio e Atlético-MG nesta quarta-feira, dia 7, coloca Roger no centro da discussão. Há muito a se dizer sobre o principal responsável por forjar a equipe gremista, provável campeã do torneio, e também já anunciado treinador atleticano. Aquele que Tite indicou ao Corinthians para substituí-lo.

Em sua primeira experiência por grandes clubes, o ex-lateral de currículo recheado de títulos provou que pode ter uma carreira ainda maior após pendurar as chuteiras. No Grêmio, a despeito da ausência de um troféu, apresentou uma série de atributos que lhe permitem ser enquadrado na categoria de treinador arquiteto.

O principal deles, indiscutivelmente, está na afirmação de um DNA. Trata-se de formar uma equipe que pode ser facilmente identificada independente da camisa. Mesmo se jogasse de verde, de preto ou de amarelo, em vez de azul e branco, você saberia que ali estava o Grêmio do Roger. O time das trocas de passes, do jogo de aproximação, da busca por superioridade numérica em diferentes setores para construir futebol e da marcação agressiva no campo de ataque.

Em 2015, durante o Campeonato Brasileiro, Roger conseguiu estabelecer essa marca mesmo tendo recebido uma equipe dizimada pelo momento de recessão econômica do clube. Um ponto crucial para que o "arquiteto" se afirmasse foi alcançado com a evolução individual de cada atleta. Foram esses os detalhes que, associados à imposição do DNA no dia a dia, permitiram o salto do Grêmio.

O entendimento de jogo de Luan foi aperfeiçoado para realizar uma função essencial como falso nove. Walace evoluiu no senso de marcação, na disputa de bolas aéreas e na chegada ao ataque para finalizar tanto de fora quanto de dentro da área. Everton, um jogador de raro talento para o drible, cresceu no aspecto defensivo, na conclusão e na tomada de decisão, um atributo fundamental no futebol de hoje.

Pouco conhecido até então, Marcelo Hermes se tornou uma das principais figuras do primeiro semestre e jogará no Benfica. Maicon voltou a ser o jogador que encheu os olhos sob o comando de Jorginho, no Figueirense, e um dos protagonistas gremistas. Jaílson apareceu de repente, após trabalho minucioso de formação, para participar do rodízio do elenco com algumas virtudes. São apenas alguns exemplos, mas que representam bem os muitos outros que também podem ser lembrados.

Inteligente que é, Roger talvez tenha percebido quais os pontos de seu trabalho que falharam. Deve ter notado que precisa ter equipes mais seguras defensivamente, capazes de se fechar nos momentos necessários e trabalhar melhor sem a bola. Deve ter percebido o que falhou em sua estratégia de bola parada defensiva. Deve ter notado que, para ser um melhor arquiteto, precisa encontrar soluções mais inteligentes no mercado de atletas.

Em suma, Roger deve ter visto que Renato Gaúcho foi humilde e fez correções inteligentes no seu trabalho. Armou um time capaz de, momentaneamente, abrir mão de conceitos para alcançar uma grande conquista. As presenças de Ramiro e Kannemann na equipe – jogadores vulgares do ponto de vista técnico, mas com outras virtudes – simbolizam a mudança sutil.

Para o Atlético-MG, não poderia haver melhor escolha. Marcelo Oliveira, demitido recentemente, tem o claro perfil do treinador administrador do futebol brasileiro: sabe conduzir bem o vestiário, entende a mecânica política do clube, tem uma ideia de jogo sem grandes variações e dá sequência ao ritmo do clube sem produzir grandes transformações.

Hoje, com um elenco tão vasto e dificuldade de Marcelo em construir esses processos todos que o Grêmio tem automatizados, o Galo precisava é de uma identidade. Precisava de um arquiteto como Roger Machado.