O QUE VOCÊ ESPERA DO TREINADOR DO SEU CLUBE?

Por Dassler Marques

Não pode se dizer a si mesmo apenas "queremos ganhar". As decisões cruciais no futebol ideal devem ser norteadas por um sentido e por responder "como queremos ganhar". Quando as peças se ajeitam a ponto de tornar essa resposta uma convicção, o caminho das conquistas estará trilhado.

Essa é a lição que se tira de mais uma conquista do Santos no melhor Campeonato Paulista de muitos anos. Houve muitos erros nesse percurso, mas o trabalho foi construído com um sentido claro sobre como seria esse caminho das vitórias. Nenhuma escolha faz tanto sentido quanto a por Dorival Júnior.

Quando sacou Enderson Moreira por uma evidente incompatibilidade com o vestiário, o presidente Modesto Roma efetivou o interino Marcelo Fernandes e mirou para Dorival e Vagner Mancini, responsáveis por pegar Neymar pela mão na Vila Belmiro. Não houve acordo financeiro, os meses se passaram e o telefone de Dorival voltou a tocar. Modesto sabia – ou pareceu saber – ter claro o que queria.

Nos primeiros dias de volta à Vila, Dorival não apenas estabeleceu um time titular que se mantém com dez peças intactas em dez meses. Ele evitou que o desconhecido Zeca se mudasse para uma carreira de nível médio na Major League Soccer, dos Estados Unidos. Tornou Thiago Maia um jogador de leitura tática invejável e potencializou suas virtudes. Resgatou um quase esquecido Gustavo Henrique. Mostrou a Gabriel o caminho para amadurecer.  

Acima dos méritos individuais e do fato de que o Santos só tem times vencedores quando olha para seus jovens, Dorival conseguiu estabelecer um DNA. O modelo de jogo é claro, arrojado, quase sempre insinuante e combina com o que pede quem vai à arquibancada da Vila. E responde a pergunta que dá título à coluna: o que você espera do treinador do seu clube?

É esse questionamento que em geral não marca o processo de escolha do comandante. No último ano, noves fora os enormes problemas diretivos, o São Paulo foi exemplo claríssimo e negativo ao se dividir entre os conceitos do pragmático e competitivo Muricy Ramalho, do ousado e ofensivo Juan Carlos Osorio e do defensivista Doriva.

A lição parece ter sido aprendida para que Edgardo Bauza fosse o escolhido deste ano. Goste ou não de sua linha de trabalho, você deve admitir que ela existe. O São Paulo, ao apresentá-lo, demonstrou conhecer de forma clara esses conceitos. A pressão foi contornada até que Bauza conseguiu implementar um modelo, conquistar o vestiário e apresentar resultados.

O amadurecimento da gestão técnica do futebol brasileiro terá chegado no dia em que dirigentes forem capazes de responder à pergunta do título com clareza. Uma questão naturalmente ligada ao funcionamento político dos clubes e à mentalidade geral que se reflete em pressão diária sobre o treinador. Mas sobre a qual se deve refletir, pois os grandes campeões normalmente seguem uma linha. Têm uma ideia fixa.

Evidentemente que, ao se chegar aqui, será preciso falar de Fernando Diniz. Porque apenas ao alcançar a decisão do Paulista com um Audax de custo mensal de R$ 350 mil, e que se baseia na técnica, ele já calou questionamentos. Como construir jogo de posse de bola, portanto de superioridade numérica, se um de seus 11 jogadores não toca na bola? 

Diniz bancou suas ideias, em especial um “goleiro-linha” até o fim, e foi premiado. Sabia não só aonde queria chegar, mas de que forma conseguiria.


Os 11 melhores do Campeonato Paulista 2016, segundo Dassler Marques
Vanderlei (Santos); Fagner (Corinthians), André Castro (Audax), Felipe (Corinthians) e Zeca (Santos); Thiago Maia (Santos), Camacho (Audax), Tchê Tchê (Audax) e Lucas Lima (Santos); Gabriel (Santos) e Ricardo Oliveira (Santos)