OS CÓDIGOS DO FUTEBOL DE RESULTADOS NO BRASIL

Por André Rocha

Diego Aguirre pediu demissão no Atlético Mineiro depois da eliminação para o São Paulo na Libertadores porque sabia que já estava condenado há algum tempo e apenas o torneio continental segurava seu emprego. Chamaram a atenção as ressalvas da diretoria atleticana com o técnico uruguaio: não gostavam do rodízio no elenco nem das improvisações de jogadores. Ora, se essas foram as características marcantes dele no comando do Internacional, por que o contrataram?

Ainda que tenha sido a quinta opção não é difícil de explicar: os resultados. Afinal, o Galo planejava uma boa campanha na Libertadores e Aguirre saiu na semifinal em 2015 para o Tigres e antes havia eliminado... o próprio time mineiro.

No Brasil, o norte de qualquer pauta relativa ao futebol é o resultado. Tudo é construído a partir dele. Sejam as resoluções no clube, as manifestações das torcidas e até o trabalho jornalístico. Repare quando um time vem de uma seqüência de vitórias a grande maioria das histórias veiculadas é positiva.

Tomemos o Corinthians como exemplo: quem lembrava dos problemas financeiros e o dilema dos naming rights da Arena com o time na liderança do Brasileirão no ano passado? Bastou ser eliminado no Paulista e na Libertadores em 2016 para o jogo virar e tudo vir à tona, ainda que o elenco tenha sofrido desmanche. Porque a crise é fomentada pela mídia que sempre tem a pretensão de explicar as derrotas: grupo rachado, salários atrasados, técnico sem moral, craque “quebrando” na noite.

São os nossos códigos nesta roda viva que é o futebol de resultados no Brasil. No qual a filosofia são os três pontos e o planejamento é o próximo jogo. Então o técnico é "inventivo" quando vence e "Professor Pardal" quando perde. Se tem discurso mais sofisticado, é “moderno” na vitória e “Rolando Lero” quando não fatura o título. Se o time vence está “organizado”; na derrota, vira “engessado”, “previsível”, “pragmático”. Se o craque tem privilégios isso é tratado como algo normal, que relaxa o ambiente, na boa fase. Na ruim, é a razão do declínio. Se usa a base e vence é “filosofia”. Em caso de revés, a equipe não é “cascuda”.

Sem contar as grandes entidades mágicas que faltam às equipes que estão derrapando: o “xerife” na zaga, o volante “cão de guarda”, o “camisa dez clássico” e o “centroavante matador”.  São as soluções para todos os problemas. Futebol atual, compactação, intensidade, versatilidade, jogadores multifuncionais? Tudo balela, o que vale é o especialista.

E o mais irônico: quando vem o 7 a 1 para escancarar toda a nossa indigência, aí o resultado é relativizado como “apagão”, “nunca mais acontece”, “acidente”. Porque gostamos de nos alimentar dos próprios vícios, de hábitos seculares, do nosso jeito de ver futebol.

No fundo, ainda não nos libertamos do dilema 1982 x 1994. Perder bonito ou ganhar feio? Um radicalismo que nem 2002 com Rivaldo e os Ronaldos foi capaz de atenuar. Para evitar o trauma do Sarriá é melhor ficar com o conforto dos três pontos. Sem riscos ou ilusões.

Tão seguros que travam o futebol brasileiro há algum tempo ao esquecer o desempenho em campo e só olhar o placar final.