OS "LATERIORES" DO MANCHESTER CITY DE GUARDIOLA

Por Gustavo Carratte

As contestações são menos frequentes do que já foram um dia, mas ainda existem. Não importa que o Barcelona de Guardiola tenha sentado para conversar com equipes históricas, que a Espanha de Aragonés e Del Bosque tenha conquistado em quatro anos tudo o que o país não conseguiu ao longo de décadas, que o Chile de Bielsa e Sampaoli tenha adquirido o costume de encantar a América do Sul ou que a Alemanha de Joachim Löw demonstre força para dominar o futebol mundial pelos próximos dez ou vinte anos... O bom futebol sempre estará sob suspeita.

Há alguns dias, por exemplo, Guardiola foi questionado se estaria disposto a abrir mão de seu estilo de jogo para vencer – como se uma coisa estivesse dissociada da outra, e como se a sua carreira não fosse uma prova irrefutável de que falácias como essa só têm lugar na mente de quem assiste a jogos de futebol mas não compreende muito bem o que vê. "Jogar bem não é uma questão romântica", respondeu. "A experiência me fez perceber que quando você tenta sair jogando de qualquer jeito, com pressa ou buscando a ligação direta, a bola volta mais cedo. Por outro lado, quando você sai jogando bem, com paciência, consegue ter transições melhores, cria mais oportunidades de gol e está sempre melhor posicionado para recuperar a bola lá na frente. A razão é apenas essa, não há outra". E fim de papo.

A essa busca pela saída limpa desde a defesa, elementos têm sido adicionados ao seu repertório com o passar dos anos. De um Barcelona que tinha Busquets encontrando espaços na intermediária defensiva, laterais bem abertos e recuos constantes de Xavi e Iniesta para tornar mais naturais as transições até o campo de ataque, Guardiola encontrou no Bayern de Munique uma solução com os seus laterais pela faixa central, deixando desde cedo a amplitude a cargo dos pontas e criando novos mecanismos de movimentação entre os homens defensivos para que a bola seja carregada com segurança até o ataque. Lá na frente, para terminar o serviço, um pouco de treinamento e muito de criatividade e poder de fogo de seus jogadores para se antecipar à marcação ou para aproveitar os rebotes que surgiam em escala industrial.

Como dizia o próprio Pep, conforme Martí Perarnau registrou no livro Guardiola Confidencial, "o nosso jogo será subir passo a passo, sem pressa, para que nenhum dos jogadores fique isolado. Todos juntos até cruzarmos o meio de campo e então, zás!, atacamos como uma manada de búfalos".

No Manchester City, embora o leque de jogadas no terço final do campo pareça bem mais amplo, a curiosa movimentação dos laterais é mantida – algo que Albert Morén chamou de "lateriores", uma mistura de laterais com interiores. E isso deixa claro como o sucesso desta ideia na Baviera não se devia apenas à qualidade e à inteligência de jogo das peças que recebiam tal tarefa, uma vez que Sagna e Clichy, que foram os primeiros intérpretes destes papéis, são inegavelmente menos brilhantes do que Lahm e Alaba. Com Zabaleta e Kolarov existe um pouco mais de semelhança entre os estilos, mas compará-los àqueles que talvez sejam dois dos mais influentes laterais do futebol mundial nos últimos anos ainda soa como exagero.

Muito mais do que criar perigo a partir do instinto criativo dos laterais que se posicionam à frente de um trio formado por dois zagueiros e um meio-campista que recua para organizar, trata-se de um remanejamento de peças a fim de alcançar a tão sonhada superioridade numérica em todos os momentos de uma partida, objetivo permanente do jogo de posição de Guardiola. A única dúvida passa a ser qual dos três caminhos possíveis para a construção de jogo se apresentará como o ideal, o que depende das escolhas do adversário da vez.

A primeira opção é a abertura de jogo com o ponta mais próximo, caso a última linha defensiva do adversário se mantenha fechada e caso os homens abertos da segunda linha se preocupem mais com a liberdade dos laterais que centralizaram do que com os pontas que recuaram alguns metros pelas beiradas. Se o defensor que inicia a jogada pelo lado for alguém com alta qualidade no passe longo – como Kolarov, por exemplo –, ainda há a possibilidade de uma inversão de jogo para o ponta do lado oposto.

A segunda opção é o passe para dentro em direção aos laterais que centralizaram, caso os adversários que naturalmente os marcariam pelos lados passem a se preocupar mais com os pontas que recuaram para dar opções de passe por lá. Nesta situação, será o comportamento dos marcadores da segunda linha defensiva rival que definirá se os meio-campistas de ocasião do City carregarão a bola, tentarão um passe entre linhas ou abrirão o jogo para os pontas em busca de triangulações mais próximas à área rival.

A terceira opção é o passe rasteiro ou o lançamento pelo alto direto para os meias interiores ou para o atacante mais avançado, caso os volantes do adversário se incomodem com a liberdade dos laterais que centralizaram e avancem para a impedir a progressão de seu jogo por ali. Neste caso, o posicionamento do homem aberto da segunda linha defensiva do oponente também diz ao defensor de Guardiola qual companheiro poderá servir como válvula de escape numa eventual inversão: se ele marcar o ponta, a bola pode ser invertida para o defensor do outro lado ou passar pelo goleiro antes de chegar até lá; se a marcação for em cima do zagueiro, pode ir direto para o ponta do lado oposto.

É esta a função da movimentação dos laterais no City de Guardiola, portanto: transformar qualquer tentativa do oponente de marcar em pressão média em algo ineficaz. Se fechar o meio, o espaço aparece pelas laterais. Se fechar as laterais, o espaço aparece pelo meio. Se fechar o meio e as laterais, o espaço aparece entre linhas. A tudo isso, ainda se somam possibilidades de recuo para um goleiro seguro como Claudio Bravo e de inversão para o ponta ou para o defensor do lado oposto.


4-2-3-1, O OBSTÁCULO POSSÍVEL

Há uma maneira de impor obstáculos a essa saída tão natural do City: abrir mão das duas linhas de quatro com dois homens mais avançados e deixar apenas um atacante na pressão em cima dos defensores – como fez o Manchester United de Mourinho, por exemplo, no clássico de 10 de setembro. Esse posicionamento faz com que Guardiola abra mão da movimentação de seus laterais por dentro, mantendo-os abertos e dando início às suas jogadas com a dupla de zagueiros.

Num comportamento mais básico, em que pontas tratam de fechar as opções de passe pelos lados e o meia centralizado faz o mesmo com o meio-campista organizador, a opção imediata é o outro zagueiro que terá algum espaço para conduzir e decidir o que fazer mais à frente, a depender das reações que o seu deslocamento provocar nas linhas defensivas adversárias.

Caso o meia centralizado do adversário decida ir em direção ao zagueiro que está prestes a receber a bola, o meio-campista organizador passará imediatamente a ser a melhor opção de passe – o que não parece nada interessante para quem marca, já que todas as opções de ataque estarão no cardápio do dono da bola.

E há ainda uma última tentativa de neutralizar a saída de jogo do City, que é com o abandono da lateral oposta à bola por parte do ponta, que se desloca até a região central para impedir um passe imediato ao companheiro de zaga daquele que tem a bola em seus pés. O efeito prático disso, porém, será apenas o retardamento da transição até o ataque, e não a sua anulação. Nestas condições, bastarão dois ou três movimentos coordenados pela linha defensiva para que a bola chegue até o campo adversário.

No primeiro caso, o zagueiro que estava livre mas passou a estar marcado desloca-se para dentro, arrastando consigo a sua marcação e deixando com enorme liberdade o goleiro que prontamente já poderá acionar o lateral do outro lado. Ali, sinal verde para conduzir e promover triangulações em superioridade numérica de três contra dois ou, eventualmente, até mesmo três contra um.

No segundo caso, basta um movimento a mais, forçando um passe recuado para o lateral do mesmo lado e deslocando-se para frente a fim de arrastar consigo o seu marcador. O lateral que está de costas para a meta adversária não precisará de mais do que um toque para acionar um goleiro completamente livre, que por sua vez, com o recuo do outro zagueiro, terá pelo menos uma opção de passe igualmente livre do lado oposto, a depender da escolha que o ponta adversário fizer: se resolver acompanhar o zagueiro que recuou, inversão rasteira ou pelo alto para o lateral; se mantiver o seu posicionamento e deixar o zagueiro livre, passe curto para ele. A partir daí, mais uma vez fica nas mãos do ponta adversário o desenrolar da jogada: ele pode tanto ir em direção ao zagueiro, permitindo uma abertura de jogo para o lateral do mesmo lado, quanto pode deixá-lo livre para conduzir em direção ao meio de campo.

É um processo demorado, obviamente. É preciso de tempo para que tudo seja executado com cada vez mais naturalidade e qualidade. Sair jogando sempre pelo chão, com o goleiro e com linhas de três ou quatro jogadores cada vez mais confiantes, não é uma tarefa fácil. Mas o leque de possibilidades é tão amplo que a progressão do Manchester City de Guardiola com a bola dominada acaba se tornando algo inevitável.

Em outras palavras, ou o adversário avança todas as suas linhas e corre os riscos inerentes a abrir o campo para um time poderoso como o City ou recua completamente e aceita o papel de absoluta passividade que o técnico catalão lhe destinou. É escolher qual dos prejuízos deste cobertor curto você prefere pagar, preparar-se para correr durante 90 minutos e torcer para a sorte estar ao seu lado.