SOBRE SELEÇÕES E TIMES

Por André Kfouri

Antonio Conte nos ofereceu a frase que decifra o segredo do futebol de seleções: "Se quisermos ter sucesso", disse o técnico italiano, logo após eliminar a Espanha na Euro 2016, "o único caminho que podemos seguir é ser como um clube, como um time que joga junto toda semana".

O placar do jogo da última segunda-feira (27) foi típico das vitórias produzidas pelo futebol reativo. Um gol no rebote de bola parada, no primeiro tempo, e outro no contragolpe, nos acréscimos do segundo. Se a Itália tivesse vencido com mais uma versão do catenaccio, defendendo profundamente e correndo como loucos, teria sido o triunfo de uma cultura de futebol sobre outra. Mas os 2 a 0 no Stade de France representaram muito mais do que isso.

Quando Andrés Iniesta diz, após um jogo da seleção espanhola, algo como “ficamos muito dependentes do que eles estavam fazendo”, temos um sinal de total subversão do que se esperava ver em campo: a Espanha, com seu modelo de manutenção de posse e desorganização do adversário, daria as cartas; a Itália tentaria contê-la com sua natureza defensiva e estaria à espera de eventuais equívocos. Mas o que se viu no primeiro tempo foi outro futebol.

A Itália saiu jogando desde a defesa, com jogadores abertos criando amplitude e corredores claros de circulação para levar a bola ao ataque. Sem posse, marcou a Espanha com linhas adiantadas e agressivas. O comportamento defensivo pode ter sido o oposto do que os espanhóis imaginavam encontrar, mas esse não era necessariamente um problema. A maneira como a Itália jogou, sim, foi o que desnorteou os bicampeões europeus. Eles não apenas não esperavam ter de lidar com um oponente que quisesse a bola, mas não acreditavam que os italianos fossem capazes de fazê-lo.

Mas foram – e bem. E é aí que a frase de Conte adquire um sentido de campo, que vai além da mentalidade coesa, de formação de grupo, que o raciocínio sugere a princípio. Quando Conte fala em “time”, ele também se refere ao agrupamento de jogadores que atuam juntos em seus clubes, o que soluciona muitos dos problemas enfrentados por técnicos de seleções nacionais. Aqueles que conseguem se aproveitar de funcionamentos coletivos maduros, compostos por futebolistas que se conhecem, estão mais próximos do sucesso.

Os títulos conquistados pela Espanha, sob Vicente Del Bosque, foram frutos do sistema do Barcelona de Pep Guardiola. A reunião de vários jogadores do clube catalão com peças que sabiam fazer seus papeis em uma engrenagem conhecida propiciou um desempenho de time com a camisa da seleção. A ausência de jogadores que eram fundamentais nessa organização, e a inevitável necessidade de renovação, erodiram o que estava “pronto” e, agora, forçam a Espanha a reiniciar o processo.

A questão não é a maneira de jogar, mas como aplicá-la corretamente. As dúvidas no time espanhol foram expostas pela convicção da Itália. Os jogadores de Conte tinham um plano e sabiam exatamente como executá-lo. Del Bosque só tinha um plano. Em vantagem no placar, a Itália passou boa parte do segundo tempo com postura essencialmente defensiva e foi salva por Buffon nas ocasiões mais sensíveis. A quantidade de jogadores da Juventus de Massimiliano Allegri ajuda a explicar o funcionamento coletivo “de memória” da seleção italiana, turbinada física e taticamente por um treinador obsessivo, viciado nos detalhes e na preparação de jogos.

Durante o período de treinamentos para a Euro, em Coverciano, Conte submeteu os jogadores italianos - em final de temporada - a um regime insano de trabalhos físicos. Os juventinos que tinham sido dirigidos por ele foram como instrutores dos demais companheiros, convencendo-os de que as ordens de Conte, por mais extremas, os levariam longe. Instalado o ambiente de clube, a formação de um time no ponto de vista coletivo estava a caminho. E quando se tem companheiros de seleção que treinam e atuam juntos durante todo o ano certos circuitos já estão ativados.

A beleza do jogo do próximo sábado é que o adversário da Itália, a Alemanha, também é uma seleção que utiliza a plataforma de um clube para ter sucesso. Joachim Low se beneficia dos mecanismos do Bayern de Guardiola para construir a identidade de uma equipe que, a exemplo da Espanha até 2012, possui jogadores importantes que atuam com outras camisas mas se moldam ao sistema proposto. A diferença entre os times de Conte e Low é que a quantidade de talento à disposição do treinador alemão é claramente superior.

A hierarquia do futebol mundial colabora para que técnicos de seleções europeias importem parte do trabalho feito por outros colegas. O núcleo de jogadores dessas seleções não só está no mesmo país, mas, como se vê, no mesmo clube. Nos países sul-americanos, exportadores, a realidade é outra. Treinadores são obrigados a construir equipes em reuniões esporádicas e curtas, nas quais recebem jogadores que chegam de lugares diferentes. Nestes casos, a mentalidade de clube pode até ser alcançada por intermédio do comprometimento e das boas relações, mas não há como replicar os padrões de treinamento e atuação competitiva.

Técnicos de seleções como a brasileira e a argentina, cujos melhores jogadores estão longe de casa e diluídos em clubes onde os métodos são diversos, se encontram diante de uma tarefa que impõe três pré-requisitos: 1 - conceitos de preparação e competição atualizados com o que o jogo tem de mais moderno (jogadores que trabalham diariamente com os melhores treinadores do mundo não podem se sentir viajando no tempo, para trás, quando estão na seleção); 2 - uma visão muito bem definida da maneira de atuar e do grupo de futebolistas que deverá executá-la (continuidade, continuidade, continuidade). O terceiro pré-requisito não depende deles: tempo para trabalhar.

O exemplo a ser seguido é o Chile. Não pela conquista de dois títulos, mas pela forma como chegou a eles. Sem o talento e a riqueza individual de Brasil e Argentina, os chilenos têm a seleção mais forte do continente nos aspectos coletivo, tático e mental. Quando Antonio Conte vê o Chile jogar, ele vê um time.