TITE E A POESIA DO BEM FEITO

Por André Rocha

César Luís Menotti, campeão mundial com a Argentina em 1978, comparou a equipe que venceu a Argentina de Messi ao lendário Brasil de 1970. Em seu site oficial, a Fifa afirmou que “a poesia superou o pragmatismo”.

Talvez o próprio Tite ache tudo muito exagerado nos elogios à Seleção Brasileira. Mesmo exaltando a beleza de 1970 e 1982, respeita o não espetáculo de 1994. Porque assim como qualquer competidor nato quer vencer.

A diferença está no capricho, na vontade de fazer bem feito. Sempre melhor. Por isso, mesmo multicampeão, foi humilde para reconhecer que precisava estudar para aprimorar seu trabalho e partiu para um ano sabático em 2014. Ou ao menos seis meses, já que esperava o convite da CBF depois do Mundial no Brasil, que pareceu ainda mais óbvio depois dos 7 a 1.

O convite não veio, e Tite seguiu se preparando para construir o Corinthians campeão brasileiro que foi aprimorando a execução do 4-1-4-1 até voar no fim da temporada. Porque até nos momentos mais complicados, de vitórias e derrotas sofridas, o discurso sempre é de aprimoramento. Vencer sendo o melhor. Ou evoluir dia a dia. Dentro e fora de campo. Nos treinos e no trato com as pessoas.

Sem a rotina do clube na CBF, o técnico criou uma maneira de ter contato com os seus comandados mesmo à distância. Trabalho obsessivo da comissão técnica falando com treinadores e trocando informações com os convocados. Tite dá expediente de oito horas diárias observando, analisando, planejando. Pensando futebol.

Talvez seus antecessores fizessem o mesmo. A diferença está na qualidade e na atualidade do conteúdo. É possível ler nas entrelinhas das declarações dos jogadores um alívio de agora encontrar na Seleção algo próximo do que vivem nos principais clubes da Europa e do planeta em termos de conceitos e metodologia.

Acrescentando o toque que faltava ao time canarinho e ao próprio Tite nos trabalhos até 2013: criatividade. O modelo de jogo é definido e organizado, mas não engessado. Coutinho sai da direita, Neymar foge da esquerda, Renato Augusto e Paulinho trocam de função se necessário, Gabriel Jesus circula por todo o ataque. Todos se procuram para tabelas, triangulações. O drible é estimulado.

O Brasil quer jogar para vencer. Não entregar apenas o resultado, como era a obsessão de Dunga e o que vemos em nossos campos. A absurda tese de que um futebol mal jogado corre menos riscos. Não é por acaso esse jogo ansioso, que quer ter o controle sobre tudo para garantir os três pontos.

Não saindo da seleção, é preocupante ouvir da nova técnica do futebol feminino, Emily Lima, em entrevista ao Globoesporte.com, dizer que admira a técnica da Suécia, Pia Sundhage, porque ela não quis jogar e eliminou o Brasil nas Olimpíadas. A “estratégia” do não jogar não pode ser o que se espera do país cinco vezes campeão mundial.

Como se o esporte não fosse apaixonante exatamente porque o resultado final muitas vezes é definido por uma bola rebatida que bate nas costas do goleiro e entra ou uma jogada bem trabalhada que termina na trave e não cruza a linha fatal.

Por isso o melhor a fazer é entregar tudo em treinos e jogos. Não só em fibra, vontade, mas também em excelência. Perfeccionismo na preparação e na disputa para o resultado positivo ser mera consequência. Ou ao menos a razão para dormir com a consciência tranquila.

Talvez o Brasil de Tite não mantenha os 100% de aproveitamento contra o Peru em Lima. Pode ser até que perca a invencibilidade. Ou não vença o Uruguai em Montevidéu, não termine líder das Eliminatórias. Talvez não conquiste a Copa do Mundo em 2018 na Rússia.

Mas é um alento e uma inspiração a certeza de que a Seleção fará o melhor possível. Desde a comissão técnica e seu líder até os jogadores estimulados por tanto trabalho e sede da evolução. Mas sem a pressão além da que já existe pelo peso de camisa tão vencedora. Com leveza e humanidade.

Tangenciando a perfeição que nunca vem, mas só torna a busca mais prazerosa. Mais bela. Eis a poesia do bem feito.