TITE, UM TRABALHADOR INCANSÁVEL

Por Dassler Marques

As vitórias sobre Equador e Colômbia, não apenas pelos resultados, confirmaram o que alguns desconfiavam e outros tinham certeza: o maior problema da Seleção Brasileira era a falta de um treinador com conhecimento atual, trajetória, ascendência e, claro, uma dose de sensibilidade. Mas, no sucesso deste início de Tite, só uma das metades é inspiração.

Desde que se desligou do Corinthians para realizar o sonho de sua vida, com status para dizer "sim" e colocar condições importantes, o sucessor de Dunga provou que a profissão treinador no futebol de hoje requer altíssima dose de transpiração. Notar o quanto Tite e toda a sua comissão trabalharam em dois meses e meio é imperativo para a compreensão do salto que deram.

Em um período tão curto, Tite viajou para acompanhar jogos da Copa América, assistiu a dezenas de partidas por vídeo e em estádios do Brasil e da Europa, ficou ao lado de Rogério Micale em vários momentos da Olimpíada, telefonou para mais de 30 treinadores, falou com Zidane, Luis Enrique, Ancelotti...

Não pense que terminamos, porque, além de coordenar toda a agenda de seus auxiliares e preparar a convocação para os primeiros compromissos, o treinador também teve uma missão ainda mais importante: criar o conceito de jogo para a equipe caminhar nos próximos meses, talvez até a Copa da Rússia em 2018. E a implantação de ao menos parte desses métodos precisaria ser feita em... três treinamentos em Quito.

Além de acertar nas escolhas, essa era a maior preocupação de Tite. Nas conversas com Micale, expunha justamente a ansiedade sobre como conseguiria levar um time a campo com tão pouco trabalho. Se nos clubes em que trabalhou ele teve pré-temporada e semanas cheias de treinamento, o que fazer em cerca de cinco horas com os jogadores em campo? A solução foi gastar mais energia.

A escolha correta dos jogadores para as funções do time, o entendimento sobre o que cada um deles poderia oferecer e como iriam se encaixar, o envio de instruções conceituais e de treinamentos por meio de WhatsApp foram a base para otimizar esse processo. Tite apostou que poderia complementar o trabalho de campo com conversas. E, por mais que muitos duvidem, temos uma geração de atletas com alto entendimento do jogo e ávidos por conhecimento.

Tite e sua comissão já partiram de um princípio de time desenhado, o que também acelerou o tempo. Por mais que não tenham exposto no início, o projeto era replicar desenho e ideias de jogo do Corinthians de 2015. Era o que o treinador gosta de trabalhar e o que acredita ter total conexão com a história antiga do futebol brasileiro e com o que há de mais moderno internacionalmente.

Ter conhecidos por perto também ajuda. Sete dos convocados já trabalharam com Tite, que também estreitou relação com campeões olímpicos. Auxiliares como Cléber Xavier, Matheus Bachi, Sylvinho, Fábio Mahseredjian, Fernando Lázaro e Bruno Mazziotti já conheciam o treinador. Na CBF, uma grata surpresa: Maurício Dulac, analista braço direito de Micale, foi incorporado e ganhou espaço. Trata-se de um velho colega de Tite dos tempos de Inter.

Pessoas mais próximas do treinador, a esposa Rose e os filhos Matheus e Gabriele já sabem que Tite respira futebol 30 horas por dia. A dedicação à profissão ocorre em tempo integral e com prazer de quem faz o que sempre sonhou, mas a quantidade de energia gasta para as vitórias na estreia não foi pequena. A evolução do futebol nos últimos 15 anos implicou não apenas no crescimento das comissões técnicas, mas numa exigência maior aos chefes delas.

Nos dias de hoje, o conhecimento não basta. As grandes conquistas exigem uma boa dose de disposição e humildade para se entregar à labuta, o que se notou que Dunga não estava disposto a entregar. Até nisso Tite parece acima do antecessor: não lhe incomoda arregaçar as mangas no início do dia e trabalhar. A recompensa tem vindo.