TITE VAI TREINAR O TALENTO

Por André Rocha

Depois da eliminação da fase de grupos da Copa do Mundo de 1966 na Inglaterra, o conceito de “futebol-força” chegou ao Brasil com força. A conclusão: que nosso estilo precisava do respaldo do condicionamento físico e de um maior cuidado com a defesa. Igualando no vigor e na resistência, o talento faria a diferença.

As seis vitórias no México da seleção eleita como a melhor de todos os tempos, com a equipe de Zagallo voando no segundo tempo e fazendo muitos gols nos contragolpes, especialmente na velocidade de Jairzinho, consolidaram este princípio.

A derrota em 1982 e o fim do jejum de 24 anos nos Estados Unidos transformaram isso em verdade quase absoluta que norteou nosso futebol. Na seleção de Carlos Alberto Parreira, não era raro ver nos treinos o time sem Bebeto e Romário quando exercitava a parte defensiva. O goleiro e duas linhas de quatro. A dupla de ataque era quem decidia. Na base do improviso, ou do entrosamento desde a medalha de prata nas Olimpíadas de Seul em 1988.

Virou regra: unir o grupo, trabalhar fisicamente e ter jogadores “operários” para dar liberdade aos mais talentosos. O que Luiz Felipe Scolari, na base da intuição, fez em 2002. Três zagueiros revezando a sobra, um volante plantado (Gilberto Silva) e outro de saída (Kléberson) que permitiam a Cafu e Roberto Carlos aproveitarem os corredores e ao trio Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Ronaldo desequilibrarem.

O que ninguém percebeu por aqui é que, com Guardiola e Mourinho levando o futebol para trinta metros de campo a partir de 2008, com muita pressão no homem da bola, não era mais possível deixar o brasileiro entregue à própria sorte para resolver no lampejo. O futebol hoje necessita fundamentalmente do jogo apoiado.

A ideia não é nova. Nos anos 1940, o técnico Gentil Cardoso já dizia que “quem se desloca recebe, quem pede tem preferência”. Se o adversário pressiona quem está com a pelota e fecha as linhas de passe mais próximas, é obrigatório dar opções ao companheiro. E isso requer trabalho, repetição. Estímulo.

Foi o que Tite aprendeu no seu ano sabático rodando os principais centros. Na sua volta ao Corinthians buscou um time criativo, mas sustentado pelos conceitos do jogo apoiado. Não era raro ver o campeão brasileiro marcar gols em triangulações, tabelas. Jadson saindo da direita para circular às costas dos volantes adversários. Criando superioridade numérica no setor em que está a bola, tocando curto e girando. Invertendo o jogo com passe longo para surpreender.

Em papo com este que escreve, o treinador admitiu que antes acreditava na troca de posições com a bola parada. Como na ordem para Emerson e Danilo inverterem o posicionamento e Sheik, mais adiantado, decidir a Libertadores contra o Boca Juniors. Agora ele crê na mobilidade em progressão, com a posse.

Nos últimos vinte metros, o improviso do drible ou do passe decisivo antes da conclusão é facilitado pelos deslocamentos. Deixa o oponente sem saber como fechar os espaços. Partir para a vitória pessoal no um contra um precisa ser uma escolha, não o único recurso.

Tite aceitou o convite da CBF. No mundo ideal, ninguém trabalharia para a entidade mais do que suspeita. Na realidade, ele vai treinar o talento na Seleção Brasileira. Sim, ainda temos. Neymar, Willian, Douglas Costa, Marcelo... Só é preciso um alinhamento de conceitos entre o que os jogadores realizam nos principais clubes europeus e o que farão na Seleção.

Esqueça o “amor à pátria” e a “geração fraca e mimada” – a mesma que foi saudada no Maracanã com “O campeão voltou!” em 2013 depois dos 3 a 0 sobre a Espanha na Copa das Confederações – ou das ilusões. O que falta a ela é fundamentalmente conteúdo tático.

Com o novo técnico chega a esperança de ver uma equipe compacta, organizada e intensa sem a bola. Na retomada, inteligência para ser aguda e vertical quando o adversário estiver descoordenado ou paciente na troca de passes para abrir as brechas. Ainda dependente de Neymar, como a Argentina é de Messi e Portugal de Cristiano Ronaldo, mas com o craque bem acompanhado.

Tite é reconhecidamente um bom gestor de grupo. Mas sabe que a união mais produtiva é a que aproxima os jogadores em campo. Enfim o futebol cinco vezes campeão do mundo deve entrar na nova ordem do planeta bola.