UM ANALGÉSICO NO BANCO DE RESERVAS

Por Dassler Marques

Seja nas janelas de transferências que praticamente nunca fecham, seja nas frequentes trocas de treinadores e dirigentes, o futebol brasileiro, ao contrário do que se pratica na gestão das ligas de nível mais elevada, ainda é incapaz de pensar além dos dias seguintes ou do mês que vem. O exemplo mais recente está na dupla Gre-Nal.

Celso Roth e Renato Gaúcho são, no futebol dos dias de hoje, como aquela roupa que já saiu de moda e ficou guardada no fundo da gaveta. São como o jornal impresso no papel que, feliz ou infelizmente, cada dia mais se lê menos. São o Mirc em dias de WhatsApp, são o Orkut em dias de Facebook, são mais do mesmo quando a enorme – e imperceptível para muitos – evolução do esporte nos últimos dez anos pede o novo, algo comprovado nas páginas de Guardiola Confidencial e Gol da Alemanha. 

Se você defende Roth e Renato, ou apenas aponta para os êxitos iniciais de ambos na volta a Internacional e Grêmio, respectivamente, vale entender que isso só é possível neste nosso universo onde só se pensa a próxima semana. São como aquele analgésico que você toma para uma crise de enxaqueca: a dor vai passar, mas você tem certeza de que logo estará de volta.

Um dos exemplos está no próprio Beira-Rio, onde Argel Fucks fez o Internacional se reerguer em 2015 à base de futebol essencialmente de competição. Quando se pediu mais conteúdo, quando foi necessário ter uma proposta de jogo mais sólida e com protagonismo, quando o mercado de transferências exigiu qualidade, tudo virou pó. Nas erradas mãos de Falcão, excelente ex-jogador e ótimo comentarista, o legado fraco jogou o time mais abaixo na tabela.

Um outro exemplo, claro, está do lado oposto de Porto Alegre. Roger Machado, notadamente com mais conteúdo, construiu um estilo no Grêmio. A sede por um título não foi saciada, mas o novato Roger entregou bons resultados. O desenvolvimento visível de ex-promessas como Luan, Walace, Everton, Pedro Rocha, Marcelo Hermes e Jaílson e a evolução de experientes como Geromel, Marcelo Oliveira e Maicon validam seu trabalho. Há uma herança para Renato.

Àqueles que caçoaram e questionaram o estilo supostamente acadêmico em excesso, vale a lembrança de Tite para o Rio Grande do Sul. Apesar de seu grande trabalho no Grêmio e de passar pelo Beira-Rio com conquista da Sul-Americana, Gauchão e vice da Copa do Brasil, ele saiu estigmatizado e alvo de piadas do Inter em 2009. O treinador de Seleção Brasileira já estava ali. Ainda estava em construção, mas ele já era de verdade.

Apesar de tudo isso tão nítido, a dupla Gre-Nal procurou soluções rápidas. Roth foi incapaz de sustentar seis meses de um bom trabalho no Grêmio-2008, quando teve um turno histórico e outro vexatório no Brasileiro. Também no Inter-2010, em que chegou nas finais da Libertadores e acabou batido pelo Mazembe. Mas quem se importa com o futuro? Ali, no curto prazo, ele resolveu. Até ganhou uma taça sul-americana.

A história de Renato no Grêmio remete a trabalhos semelhantes, que tiveram resultados iniciais inquestionáveis em 2010 e 2013, ambos com ascensões e vagas na Copa Libertadores. Entretanto, nada de relevante foi construído na sequência, o que reforçou a impressão de que é um treinador incapaz de pensar o momento seguinte, de desenvolver jogadores, de enxergar o mercado e de projetar o futuro. De trabalhar fora do circuito RJ-RS.

Os exemplos são Grêmio e Inter, mas pode se falar de praticamente todas as equipes do futebol brasileiro. Seja pelo funcionamento político, seja pela relação com empresários ou seja pela falta de qualquer conhecimento, quase ninguém pensa a temporada como um todo. Assim, o que resta é tomar um analgésico e celebrar a fuga da zona de rebaixamento.


O EXEMPLO POSITIVO

Em novembro, quase o mesmo que era em janeiro. Folha salarial modesta, futebol agradável e treinador quase desconhecido. Gestão sustentável. Sinergia com a torcida. Vice-campeão estadual e a nove pontos da vaga na Libertadores 2017. Sim, claro, o Botafogo.