UM BRASIL QUE JOGA

Por André Kfouri

O último gol veio ao final de uma sequência de nove passes, do goleiro Alisson a Gabriel Jesus. Quando a bola entrou no canto esquerdo do gol equatoriano, a primeira vitória da Seleção Brasileira em Quito desde 1983 já era um fato – e o brilho do jovem atacante do Palmeiras, o principal aspecto de uma atuação que merece elogios. O Brasil só tinha feito um gol nas quatro visitas anteriores ao Equador, número dobrado por Gabriel nesta quinta-feira.

Ele se envolveu em todos os gols. Atacou o espaço, como é sua característica, na jogada em que foi derrubado na área pelo goleiro Domínguez; finalizou, com recurso, o lance construído pelo triângulo Phillippe Coutinho-Neymar-Marcelo na ponta esquerda; e girou na entrada da área, confiante na própria capacidade, para marcar o terceiro e assinar uma estreia de sonho pela Seleção principal, aos 19 anos.

Os conceitos tantas vezes mencionados por Tite foram notáveis durante todo o jogo, mesmo em um primeiro tempo marcado pelo exagero nos passes errados e chutes de meia distância longe do alvo. Os efeitos da altitude certamente estão relacionados aos dois problemas, embora a preparação para o jogo tenha levado em conta a adaptação técnica às reações da bola. O Brasil terminou a partida com 85,8% de acerto nos passes e 35,7% de precisão nas finalizações.

Os números que mais chamam a atenção: 61% de posse, com 494 passes, dos quais 9,7% foram longos. Eis uma Seleção Brasileira que joga e joga curto, finalmente. Características que ficaram evidentes na frequência com que Galvão Bueno foi ouvido dizendo "... e o Brasil sai jogando..." e similares, durante a transmissão da TV Globo. Johan Cruyff, já saudoso, dizia que o que equilibra um time de futebol é a bola, com absoluta razão. O Brasil quis ter a bola em Quito, para se estabelecer em campo a partir dela. Que seja assim sempre.

Mérito para Tite na iniciativa de criar condições para que a Seleção atuasse como um time, tendo em vista as poucas sessões de treinos. Paulinho e Renato Augusto, que não precisam ser lecionados sobre o sistema que o técnico prefere, jogaram com naturalidade e, auxiliados por Casemiro, estabilizaram um setor crucial. Os trabalhos fechados em Quito certamente tiveram ênfase na coordenação de movimentos de jogadores que teriam de atuar sempre próximos, o que se viu em campo. Se algo surpreendeu no comportamento de uma equipe que começa a se formar, foi a compactação que normalmente exige tempo para ser alcançada.

O Corinthians de 2011 e 2012 era mais do que a soma de suas peças. O de 2015 teve de ser montado duas vezes e encerrou a temporada praticando um futebol mais técnico e vistoso do que fazia no início. O Brasil que venceu o Equador não pareceu estar sob o comando de um técnico em seu primeiro jogo no cargo. Sim, a amostra é mínima, mas, em termos de organização coletiva, os sinais do trabalho que se inicia são ainda mais promissores do que o resultado obtido em Quito. Uma sensação que se encaixa com o que Tite prega: jogar bem para merecer vencer.

A análise deve considerar que o Brasil teve um jogador a mais a partir dos 30 minutos do segundo tempo. Mas não pode ignorar o amplo controle exercido pela Seleção desde a volta do intervalo, principalmente após a entrada de Coutinho no lugar de Willian. O empate, visto como satisfatório para o Brasil, passou a ser um resultado atraente para os equatorianos antes mesmo do pênalti cobrado por Neymar, aos 26 minutos. A estreia de Tite teve desempenho e resultado compatíveis, diante de um adversário perigoso e em um ambiente desfavorável.

O jogo contra a Colômbia precisa confirmar as impressões agradáveis da tarde em Quito. Serão dificuldades distintas, especialmente se os colombianos se afastarem de suas características e planejarem uma atuação defensiva em Manaus. Quem não deve dar as costas à própria natureza futebolística é a Seleção Brasileira, hoje dirigida por um técnico atualizado e determinado a fazer as coisas bem, pois só assim se pode almejar vencer sempre.