UMA NOVA CHANCE PARA O CALENDÁRIO BRASILEIRO

Por Rafael Oliveira

O comunicado da Conmebol sobre a reforma das competições sul-americanas abriu enorme e natural debate sobre cada um dos temas propostos. Mais do que isso, reabre a constante e necessária discussão sobre o calendário brasileiro. A ampliação do tempo de disputa da Libertadores, além de distribuir melhor o torneio, enfim permite que a ideia de temporada seja respeitada. Passando de 27 para 42 semanas e durando de fevereiro até novembro, a principal competição do continente obriga um planejamento que vise o ano inteiro.

Até hoje, a América do Sul tem sua temporada dividida em duas partes – seja pelos campeonatos nacionais em países de "apertura" e "clausura", seja pela simples divisão de semestres gerada por Libertadores e Copa Sul-Americana. Assim, cada clube planeja os próximos seis meses de acordo com o torneio que disputa. No Brasil, é o time que investe no início do ano se estiver na Libertadores, ou opta por esperar alguns meses para gastar o que tem no Campeonato Brasileiro.

No caso específico do Brasil, que tem apenas um campeonato nacional por ano, é a chance de finalmente ter campeonato, copa nacional e torneio continental distribuídos ao longo da temporada. O mundo ideal para enxergar o ano como um só, sem ofuscar o início de Brasileirão por estar nas finais da Libertadores ou abandonar o Brasileiro por pensar no Mundial. Problemas pela atual incompatibilidade de calendário. Iniciar e concluir todas as competições na mesma época significaria um só planejamento, o que exige capacidade para conciliar tudo sem precisar desvalorizar qualquer uma delas. Há apenas um "pequeno" velho problema: o que fazer com os estaduais?

Antes, discutir um modelo europeu de temporada no Brasil encontrava o enorme obstáculo da Libertadores em um só semestre. Mas agora, por incrível que pareça, a Conmebol se mexeu e avançou antes da CBF no assunto. Com o principal torneio continental entre fevereiro e novembro, o problema é exclusivamente da CBF: faz sentido o campeonato nacional começar no quinto mês do ano e quarto de temporada?

A mudança radical na Conmebol soa como quase um grito para a CBF e seus clubes que aceitam o calendário como ele é. Não que o país não tenha evoluído nos últimos anos. Recolocar os clubes da Libertadores na Copa do Brasil e ampliar o tempo de disputa da copa nacional foram grandes acertos. Mas agora falta o mais radical deles: mexer com o maior símbolo do atraso e da estrutura política de poder no futebol brasileiro.

A transformação dos estaduais permitiria um Brasileirão melhor distribuído no ano, com espaço para mais treinos e até para respeitar as "inimigas" datas Fifa. Eles não precisam acabar. Poderiam até virar divisões inferiores regionalizadas, garantindo empregos por mais do que três meses para clubes que não deveriam ocupar tanto tempo do ano de quem precisa pensar em alto nível com receitas dignas de futebol profissional.

Assim que as mudanças da Conmebol foram divulgadas, surgiram as especulações. A ideia de ampliar o número de fases preliminares não incomoda, mas a possibilidade já descartada de vagas por convite seria um enorme tiro no pé. Além de diminuir os méritos de quem luta para chegar até lá, alimentaria uma politicagem que já é tão nociva ao futebol sul-americano. Aumentar o número de vagas também parece desnecessário, considerando o número de países participantes. É diferente da Europa, que precisa de um sistema de playoffs para contemplar seus mais de cinquenta países sem colocar níveis técnicos tão distantes nas mesmas fases.

Também diferente da Europa é a questão de deslocamento e mobilização para a final em jogo único. Apesar do recente "Brexit" e de inúmeras discussões envolvendo fronteiras nos últimos meses, as principais ligas de futebol da Europa estão reunidas em uma parte do continente que funciona como um só país. Uma decisão no centro da Europa é capaz de mobilizar toda a região. E o bom sistema de transportes permite tamanho deslocamento para esses grandes eventos anuais. Uma final em jogo único na América do Sul não seria um fracasso. Longe disso. Mas as ideias de mando de campo, de "caldeirão" e de força da torcida local parecem culturalmente mais fortes por aqui. Não há prejuízo técnico com “ida e volta” e muito menos a necessidade de copiar absolutamente tudo da Europa.

Um ponto interessante na ideia da Conmebol é a transição da Libertadores para a Sul-Americana, aproveitando os clubes eliminados antes das oitavas, como acontece da Liga dos Campeões para a Liga Europa. Isso define a hierarquia entre as competições continentais. O número é que deixa dúvida no ar: por que 10 clubes? Faria mais sentido se fossem os oito terceiros colocados dos grupos.

A mudança também traria urgência na CBF para resolver outro problema pendente: a fórmula de classificação para a Sul-Americana, que atualmente passa por ser eliminado da Copa do Brasil. Novamente, puxar o Brasileirão para o início do ano daria tempo para distribuir as datas e permitiria que um clube não tivesse que optar por copa nacional ou continental no segundo semestre. No caminho, quem? O obstáculo dos estaduais.

Que fique claro: o Brasil não é o único com pontos a resolver diante das mudanças da Conmebol. A Argentina, por exemplo, tem um calendário adaptado ao europeu, que prevê férias no meio do ano. Outro desafio em comum é a definição do período de janela de transferências e de alterações nas inscrições dos clubes, considerando o impacto que o mercado europeu pode trazer no meio da nova Libertadores, em agosto.

A mudança é radical, mas extremamente interessante. E pode ser ainda mais positiva se gerar a devida reflexão sobre um dos temas mais delicados do futebol brasileiro. A Conmebol impulsionando um progresso para a CBF... Quem diria? Mas só será possível se houver interesse em aproveitar a oportunidade.